Arquivo do mês: maio 2012

As Diversas Dimensões dos Resíduos Sólidos

          A dificuldade em administrar os resíduos dos grandes centros urbanos passou a ser um problema mais complexo no decorrer do século 20, dada a concentração populacional e o processo de industrialização das regiões metropolitanas.

            Assim, devemos considerar inicialmente a complexidade crescente associada à gestão dos resíduos sólidos, em especial no que concerne à presença de alguns parâmetros fundamentais descritos a seguir:

a) O lixo é uma indústria especial: Nunca deixa de funcionar!

            Um dos primeiros aspectos que devemos considerar ao estudarmos os resíduos sólidos é o fato de que a sua produção jamais sofre interrupções.

            A nossa sociedade jamais deixa de produzir resíduos.

           Não importa o momento: um feriado, dia santo, período de férias escolares, carnaval, Natal ou um simples final de semana a produção de resíduos está sempre presente.

           Assim, o problema associado à gestão dos resíduos sólidos adquire um caráter contínuo, além de operar, como veremos posteriormente, com volumes crescentes.

        A solução para tratar dessas particularidades passa pela necessária introdução de tecnologias mais modernas para coletar e promover o tratamento mais adequado a cada um dos componente dos resíduos sólidos.

b) O lixo não pode ser considerado um produto homogêneo

            Quando nos referimos ao termo “lixo” de forma indistinta estamos, na realidade, desconsiderando uma característica muito relevante: a  sua ampla heterogeneidade.

            Se analisarmos os componentes mais comuns do chamado “lixo”, observaremos a presença de matéria orgânica, plásticos, metais, papel, pneus, madeiras, resíduos hospitalares, restos da construção civil, etc.

            O lixo é um produto heterogêneo e, para cada tipo de resíduo ou componente existente, temos uma forma mais adequada de promover sua coleta, tratamento e disposição final.

            Não há um tratamento ou tecnologia capaz de, a um só tempo, solucionar os problemas ambientais decorrentes de todas as formas de resíduos sólidos.

          Um exemplo mais concreto pode ser verificado na obrigatoriedade de promovermos a incineração dos resíduos derivados dos serviços de saúde (RSS) que não podem ser submetidos aos processos de reciclagem ou serem encaminhados aos aterros sanitários.

           Outro exemplo são os metais pesados presentes em baterias de celulares, um produto de alta tecnologia com volumes crescentes a cada ano e cujo tratamento mais adequado é a reciclagem em indústrias especializadas.

c) O lixo deve ser considerado como uma fonte de empregos, renda, tributos e energia.

            Os países mais desenvolvidos já perceberam que os diversos componentes dos resíduos sólidos podem ser objeto de tratamentos específicos de modo a garantir inúmeras vantagens, tais como:

  • Mais empregos,
  • Elevação da renda,
  • Maior arrecadação de tributos,
  • Possibilidade de qualificação profissional para as camadas mais humildes da população,
  • Geração de energia elétrica a partir de rejeitos inservíveis e
  • Desenvolvimento de uma série de novos produtos a partir da reciclagem e reutilização.

            Nosso país começa a mudar suas concepções mais antiquadas, ainda que essa mudança ocorra lentamente, possibilitando maior espaço para as indústrias de reciclagem, bem como para os movimentos das cooperativas de catadores.

d) A Quantidade Crescente de Resíduos Sólidos

            Uma das características de nossa sociedade focada no consumo excessivo é a consequente geração de resíduos em quantidades crescentes.

            Na verdade nunca produzimos tanto lixo como nos últimos anos.

            O Distrito Federal, considerada sua elevada renda per capita, apresenta uma produção diária de aproximadamente 1,56 kg de lixo por habitante, traduzida basicamente em matéria orgânica, contida nos restos de alimentos, bem como pelos produtos descartáveis, tais como embalagens do tipo “PET”, vidros, metais e outros.

            Trata-se da maior produção de resíduos per capita do Brasil, superior, inclusive, àquela observada na cidade de São Paulo, o maior pólo industrial da América do Sul.

            Já em pequenas cidades do interior da Região Nordeste temos uma geração de resíduos que não ultrapassa 0,6 kg/habitante/dia.

            A diferença observada indica que a geração de resíduos urbanos, quer em termos quantitativos ou qualitativos, é um reflexo do nível de atividade econômica: quanto mais rica e desenvolvida a região, maiores serão as suas trocas comerciais, a abertura dos mercados aos produtos importados, o nível de consumo e a diversidade de produtos diariamente transacionados.

            Nos grandes centros urbanos não se verifica um esforço consistente no sentido de valorizar práticas como a reutilização ou mesmo a recuperação de equipamentos que apresentam defeitos simples.

            Ao contrário: em nossa sociedade de consumo o incentivo do governo, da mídia e da própria sociedade está mais focado na substituição daqueles produtos defeituosos, condenando aos lixões uma vasta gama de materiais, máquinas e utensílios que ainda poderiam ser úteis durante mais alguns anos.

            O resultado desse comportamento é uma montanha diária de resíduos que impactam na nossa qualidade de vida e que nos obriga a encontrar soluções urgentemente.

e)  A Composição dos Resíduos e Elevação do Risco de Contaminação

            Já conhecemos a relação existente entre o crescimento da população e do PIB de uma cidade ou região com a consequente elevação no volume de resíduos produzidos.

            A relação é simples e pode ser visualizada em duas fórmulas:

a)      Mais gente = Mais resíduos; e

b)      Maior crescimento econômico = Mais resíduos.

            Entretanto, devemos considerar a existência de outro aspecto igualmente importante: a composição dos resíduos gerados.

            O lixo nosso de cada dia passou a receber grandes volumes de materiais tóxicos que representam maior periculosidade aos ecossistemas e cuja decomposição necessita de dezenas ou mesmo centenas de anos.

            A tecnologia evoluiu com os processos de produção e novos materiais foram sendo desenvolvidos sem que fosse observado o correspondente surgimento de soluções tecnológicas para tratamento dos resíduos gerados.

            Como exemplo podemos destacar o surgimento das baterias de celulares, lâmpadas de mercúrio, solventes, produtos químicos diversos, remédios, agrotóxicos, plásticos, etc.

             É necessário destacar, também, a presença crescente de metais pesados nesses novos produtos de alta tecnologia, aumentando o risco de contaminação dos ecossistemas e favorecendo o surgimento de doenças graves tais como o saturnismo (contaminação por chumbo) e o Mal de Minamata (contaminação por mercúrio).

            A presença de alguns tipos de resíduos pode provocar severas contaminações e o comprometimento da qualidade da água subterrânea, do solo agricultável e da biodiversidade por longos períodos de tempo.

            Além disso, a contaminação por metais pesados e demais produtos tóxicos tende a comprometer a capacidade dos ecossistemas de recuperar a sua condição de equilíbrio anterior, denominada de resiliência.

            Assim, uma vez ocorrida a contaminação do meio ambiente nem sempre será possível a aplicação de alguma tecnologia capaz de recompor as condições naturais vigentes anteriormente, o que se traduzirá em custos elevados com a limpeza das áreas contaminadas, retirada da população local e sobrecarga dos sistemas públicos de saúde, saneamento, energia, educação, habitação, agrícola, etc.

f)  As Formas de disposição

            De acordo com a Pesquisa Nacional de Saneamento Básico – PNSB – 2008, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE – e editada em 2010, a disposição final de lixo nos municípios brasileiros é dividida da seguinte forma:

  • 50,8 % em lixões;
  • 22,5 % em aterros controlados;
  • 27,7 % em aterros sanitários;

            A prevalência dos lixões demonstra que grande porcentagem do lixo gerado diariamente não recebe o tratamento adequado, representando inconsistências e fragilidades da gestão pública dos resíduos sólidos no Brasil.

            Além disso, a presença de lixões significa maiores riscos para a saúde humana e comprometimento da biodiversidade, além de maior probabilidade de degradação da qualidade do ar, solo e água.

            Entretanto, devemos considerar, por outro lado, que este quadro caótico representa enormes possibilidades econômicas vinculadas à recuperação de áreas degradadas dos lixões, implantação de indústrias de reciclagem, modernização tecnológica de indústrias de segmentos tradicionais (cimento, papel e celulose, eletroeletrônicos, siderúrgicas, etc.), consultorias ambientais, empresas especializadas na elaboração de projetos e outras.

g)  Os Problemas gerados ao meio ambiente e à saúde humana.

            Os problemas mais comuns gerados ao meio ambiente e à saúde humana pela disposição irregular dos resíduos sólidos são:

  • Proliferação de vetores de doenças;
  • Produção de chorume e contaminação do solo e da água subterrânea;
  • Geração de metano, gás derivado da decomposição da matéria orgânica e considerado como um dos principais responsáveis pelo aquecimento global;
  • Marginalização do Homem (violência, trabalho em meio degradante, ausência de perspectivas, isolamento social, doenças, cobertura ineficiente pelos serviços governamentais, etc.);
  • Contaminação por metais pesados, etc..

               A conclusão decorrente da análise desses parâmetros é que a gestão dos resíduos sólidos constitui um tema complexo dadas suas interações nas esferas social, econômica e ambiental.

             Os resíduos sólidos representam uma indústria que move cifras de bilhões de reais anualmente, associadas aos sistemas de coleta, tratamento e disposição final.

              Entretanto, em que pese o extraordinário volume de recursos públicos associados à gestão dos resíduos, ainda convivemos com milhares de lixões que comprometem os ecossistemas e colocam em risco a saúde humana.

              Da mesma forma enfrentamos um problema social crescente vinculado aos catadores de resíduos que vivem em situação de risco e representam um contingente de mais de um milhão de pessoas, incluindo uma porcentagem expressiva de crianças.

             Entendemos que os resíduos sólidos deveriam ser encarados como fonte geradora de recursos financeiros em benefício da sociedade, fortalecendo a economia local com a implantação de novas cadeias produtivas e resgatando uma dívida social perante as camadas mais carentes de nossa população.

            Infelizmente essas questões nem sempre são percebidas pelo público leigo.

marceloquintiere@gmail.com

MQuintiere@twitter.com

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