Ambientalistas x Ruralistas

            O Brasil é um país muito especial e singular.

            Temos vantagens competitivas na agricultura, em razão da disponibilidade de solos férteis e clima ameno.

           Possuímos uma indústria avançada em termos mundiais, embora ainda haja um grande espaço para o seu aprimoramento e consequente aumento da competitividade.

           Em um mundo com forte crise política, econômica e social ainda gozamos de uma estabilidade conquistada com esforço e criatividade.

           Apresentamos ao mundo o melhor do futebol (?) e um carnaval fantástico.

          Somos reconhecidos como sendo um povo amável, educado e tolerante, um exemplo de boa vizinhança e harmonia nas relações diplomáticas.

         Enfim….temos muito do que nos orgulhar.

         O problema é que, de tempos em tempos, insistimos em engrenar uma marcha à ré que pode “danificar” o nosso motor e tirar o nosso carro da pista.

         A recente celeuma envolvendo o novo Código Florestal, opondo interesses e antagonismos entre Ambientalistas e Ruralistas é um bom exemplo a ser analisado.

          De um lado temos os autodenominados Ambientalistas que defendem o meio ambiente e pretendem alcançar um estágio de desmatamento zero, ideia que conta com amplo espaço na mídia, e são bastante intransigentes na defesa de suas posições.

          A seu favor podemos destacar a luta pela conscientização da sociedade frente aos problemas ambientais como a poluição, proteção dos ecossistemas, preservação da biodiversidade, combate ao aquecimento global e outros temas extremamente relevantes.

          De outro lado temos os autodenominados Ruralistas, grupo com expressivo peso político e econômico, representado por grandes agricultores, pecuaristas, empresários rurais e pela agroindústria em geral.

           A seu favor podemos destacar o esforço produtivo, a expansão da fronteira agrícola, a modernização do campo, a geração de renda, empregos e tributos, a garantia de contínuos superávits em nossa balança comercial, dentre outros.

          Qualquer país deveria se orgulhar de contar com a participação de grupos tão importantes para o desenvolvimento sustentável.

          Mas a realidade é bem distinta.

          Os dois grupos adotam postura maniqueísta e contam com o discurso fácil para conquistar a população desavisada.

          Os Ruralistas acusam os Ambientalistas de desejarem o retrocesso, a fome e desemprego no campo, a queda da produção agrícola e de nossos necessários superávits comerciais.

          Já os Ambientalistas acusam os Ruralistas de adotarem práticas ambiental e socialmente insustentáveis que, em conjunto, podem conduzir ao comprometimento da biodiversidade, degradação dos ecossistemas, perda de solo fértil, êxodo rural e outros.

          Com o avançar do tempo a defesa dos interesses fica mais intransigente e, não raramente, presenciamos a escalada do tom em um debate que deveria ser eminentemente técnico.

           E os dois grupos (ou suas facções mais perniciosas) não toleram discordâncias: se um desavisado apresenta um posicionamento voltado ao consenso é imediatamente ignorado e repelido  em uma tentativa de demonizar o pobre infeliz.

          Vou correr o risco de me antepor aos “guerrilheiros ambientais” e aos “ogros capitalistas”, pois vivo em um país livre e democrático e TAMBÉM TENHO DIREITO À LIVRE MANISFESTAÇÃO DE PENSAMENTO.

           Não vejo com bons olhos a queda de braço que os dois grupos estão travando em torno do novo Código Florestal.  O acirramento dos ânimos nada constrói e afasta de forma irremediável dois grupos que, a princípio, são claramente complementares.

          Sim!

          Ambientalistas e Ruralistas são complementares não apenas no que concerne ao seu status de brasileiros em busca de um país melhor, mas, em especial, no que tange à interdependência de suas ações.

            É possível pensarmos em produção agropecuária e na agroindústria sem que estas estejam vinculadas à necessária proteção dos solos, das nascentes e do trabalhador rural?

           Não.

           As preocupações do verdadeiro ambientalista estão associadas à necessidade de garantir condições de produção mais harmônicas e equilibradas, evitando os gravíssimos problemas ambientais que podem ocorrer (erosão, assoreamento dos rios, perda da biodiversidade, queda na produção agrícola, etc.).

          Os Ruralistas deveriam entender que a luta dos Ambientalistas é, em síntese, favorável à produção equilibrada e contínua.

          De pouco adianta abrir novas fronteiras agrícolas se não forem adotadas medidas de proteção ambiental, pois o novo empreendimento tenderá a morrer no prazo de poucos anos.

          Acredito que os argumentos dos Ambientalistas são muito consistentes e as pesquisas científicas demonstram que é necessário, NO MÍNIMO, termos uma maior atenção quanto às técnicas empregadas pelo processo produtivo.

          Assim, seria mais prudente e inteligente ouvir, aprender e aprimorar os processos produtivos em consonância com a proteção ambiental.

           Por outro lado os Ambientalistas precisam descer do seu pedestal de Detentores Exclusivistas da Verdade. Um pouco de humildade ajuda sempre.

          Afinal, as conquistas dos Ruralistas estão presentes em nossos pratos, no controle de preços ao consumidor pela oferta consistente de alimentos, na criação de empregos, geração de renda, maior arrecadação de tributos, superávits comerciais muito expressivos, dentre outros.

           Limitar as operações produtivas é incorrer em grave risco de desequilíbrios sociais e econômicos, muito embora sejamos forçados a reconhecer os amplos espaços ainda existentes para o seu aperfeiçoamento.

           O novo Código Florestal representa um conjunto de ideais voltadas à proteção ambiental, em especial das florestas e dos recursos hídricos, promovendo o desenvolvimento sustentável em benefícios de todos.

          Entendemos que é desejável manter as leis sem modificações extremas por um longo período de modo a garantir a segurança jurídica, mas não podemos desconsiderar que a legislação está sujeita às alterações decorrentes da evolução da própria sociedade.

          Se não fosse assim não teríamos uma legislação que contemplasse situações tais como o divórcio, a anistia, o direito ao voto das mulheres e outros.

          Assim, precisamos compreender inicialmente que o novo Código Florestal não é semelhante a uma pirâmide feita para durar 5000 anos!

         Novas alterações na legislação virão a reboque de novas tecnologias e de futuras necessidades do país, o que nos conduzirá a novas rodadas de NEGOCIAÇÃO EQUILIBRADA.

          Não é possível negociar verdadeiramente se a cada dificuldade ou obstáculo que surge a opção mais comum for o conflito.  Afinal, ninguém gosta de ser confrontado, de ser objeto de difamação, de ver o seu trabalho desrespeitado.

           Ruralistas e Ambientalistas precisam entender que para negociar de fato é necessário saber ceder no momento adequado e na amplitude correta.

           Se ambos compreenderem sua complementaridade para os destinos e benefício do país a coisa ficará mais fácil…

            Em resumo: a verdade, o equilíbrio e o bom senso são geralmente encontrados no centro dos debates mais acalorados.

marceloquintiere@gmail.com

MQuintiere@twitter.com

Anúncios

2 Respostas para “Ambientalistas x Ruralistas

  1. A diferença que é substancial é que com a aplicação do Codigo Florestal como está causará prejuízos economicos substanciais aos ruralistas, depois de séculos produzindo alimentos e desmatando, o desmatamento começou com o pau-brasil há 500 anos, como está é uma desapropriação de terras sem indenização, reflorestar as margens que foram desmatadas há dezenas para não dizer centenas de anos representa gasto enorme sem retorno financeiro, alguem concordaria em ser desapropriado em seus bens sem receber o justo pagamento, não acredito que alguem concorde com isso. É isso que está em jogo na realidade, agora para os ambientalistas e governo que não arcarão com despesa alguma realmente para que isso ocorra é muito fácil. Se realmente querem isso que paguem pelo prejuízo ocasionado aos ruralistas, toda a sociedade deve pagar por isso. É justo somente uma categoria arcar com os custos???? Tudo isso é muito bonito, mas tem custo somente para os ruralistas é correto isso??? Será que alguam ambientalista vai pagar para os ruralistas a terra desapropriada (ter um pedaço de terra usado para produzir interditado para a produção é desapropriação), é constitucionalmente correto desapropriar ou impor despesas a quem não é o responsável (foram outras gerações que desmataram) é correto??? Vale aqui para os ambientalistas ” Pimenta no dos outros é refresco, para os ambientalistas é fácil gritar e protestar e querer impor aos outros o que não acarretara prejuizo nenhum ao seu bolso. Quem quer meio ambiente preservado em terra alheia deve pagar por isso.

    • Olá, Gaspar!

      Obrigado pela resposta.

      Em alguns momentos concordo integralmente com você:

      a) é necessário pagar pelo meio ambiente protegido;
      b) a degradação já ocorre há centenas de anos aqui no Brasil;
      c) os produtores não devem arcar com toda a despesa sozinhos.

      Sou engenheiro agrônomo e já trabalhei em fazenda de grande porte e alta tecnologia.
      Também trabalho com meio ambiente por acreditar que é um elemento essencial à própria produção e ao desenvolvimento do país.

      A questão técnica é uma só: se o meio ambiente continuar sendo degradado como vem sendo ao longo das décadas e dos séculos nós
      não teremos condições de manter bons níveis de crescimento econômico e social (veja as conclusões do relatório Nosso Futuro Comum).

      Acredito mesmo que o meio ambiente é o motor da agroindústria e que deve ser preservado.

      Quem pagará a conta? TODOS NÓS! Não devemos deixar a conta apenas para alguns se todos vão se beneficiar.

      No meu modo de entender o mundo os ruralista e os ambientalistas deveriam conversar mais e encontrar soluções consensuais.

      A luta sem metas objetivas e realistas não vai colocar nenhum dos dois grupos em boa situação.

      O mais impostante é proteger o meio ambiente, pois só ele pode garantir o futuro da própria agricultura e do agronegócio….qualquer coisa diferente disso é um convite ao fracasso. Não se trata apenas daquela visão apaixonada de “proteger as baleias”, “amar o urso panda”, etc….é de dinheiro e do desenvolvimento social e econômico que devemos tratar….

      Bem….como pagar a conta? Pouca gente fala nisso.

      Podemos pensar em alternativas do tipo:

      a) criar um fundo para reflorestamento de modo a compensar as “áreas perdidas” pelo agricultor;
      b) criar uma redução (via legislação mesmo) para impostos incidentes sobre os fertilizantes, máquinas e agrotóxicos, barateando a produção
      dentro das fazendas;
      c) incentivar ainda mais a pesquisa agrícola para obtermos maior produção em menor área e com menor custo;
      d) reduzir as alíquotas de comercialização e dividir o valor obtido entre agricultores e consumidores;
      e) investir em infraestrutura para baratear os custos que existem entre o portão da fazenda e o porão dos navios…o chamado “custo Brasil”.

      Enfim: temos algumas alternativas que poderiam ser colocadas na mesa e DISCUTIDAS com o coração mais aberto.

      Só isso. A conversa franca e CONSTRUTIVA pode fazer milagres.

      Tenho outros artigos sobre pesquisa agrícola, renúncia de receita, ruralistas x ambientalistas neste blog que, talvez, possam te interessar.

      Eu também não concordo quanto à forma de atuar de muitos grupos ambientalistas …..muito radicalismo atrapalha (veja a minha posição no artigo “Desmatamento Zero????” onde me manifesto contra a posição do Green Peace).

      Obrigado mesmo pela sua participação. Minha satisfação profissional é trocar ideias e ajudar sempre que for possível.

      Um grande abraço

      Marcelo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s