O Reino de Bushlândia – Uma Fábula Ambiental

           Nossa história começa no distante Reino de Bushlândia, o mais rico que jamais existiu.

            Bushlândia estava situado em uma grande ilha no meio do Oceano Atlântico e era conhecido pela enorme riqueza em minérios, petróleo e terras férteis.

            Durante séculos o reino investiu grandes somas de dinheiro no desenvolvimento de tecnologias sofisticadas e detinha os melhores e mais capacitados centros de pesquisa do mundo. Aquela política acertada trouxe mais riqueza e concentração de poder.

            A vida em Bushlândia passou a ser o sinônimo da prosperidade.

            Entretanto, os súditos de Bushlândia passaram a desenvolver hábitos estranhos ao longo das últimas décadas:

  • podiam gastar seus salários e assumir grandes dívidas sem pensar nas consequências, pois, como todos sabiam, Deus era Bushlandês;
  • todos usavam carros com potentes motores V-8, aqueles que consomem muita gasolina e poluem a atmosfera;
  • os eletrodomésticos, móveis e roupas eram trocados incessantemente em uma verdadeira corrida consumista. Se algum aparelho quebrava era trocado de imediato, pois as oficinas de reparos já não existiam mais.

           Mas o hábito mais estranho em Bushlândia era o churrasco diário. Havia tanto dinheiro e tanta carne disponíveis que os súditos faziam churrascos três vezes ao dia: manhã, tarde e noite.

            Para saciar a sua fome os súditos sacrificavam milhões de cabeças de gado e extraíam milhões de toneladas de carvão. Mas aquela festança gastronômica trazia um problema de relacionamento com os demais reinos existentes na periferia de Bushlândia.

           Esses reinos eram muito pobres e a maioria das suas casas era construída de madeira.

           O vento forte da região sempre soprava as brasas dos churrascos para as outras ilhas e causava imensos incêndios, o que dificultava ainda mais a vida sofrida naqueles reinos mais pobres.

           E não adiantava reclamar, pois as respostas eram sempre as mesmas:

  • “O vento é muito fraco para levar as brasas até os outros reinos;”
  • “Temos o direito de comer, pois sentimos mais fome do que as outras pessoas”;
  • “Se não comermos o gado todos os dias haverá um desequilíbrio ambiental”;
  • “As brasas são, na realidade, pequenos meteoros que insistem em cair no mesmo lugar”;
  • “Nossos cientistas ainda estão analisando a questão;”

            E aquele comportamento egoísta e arrogante perdurou durante muitos e muitos anos apesar dos esforços mundiais para convencer o governo de Bushlândia.

            Um dia o merecido castigo veio dos céus: o vento mudou de direção e as brasas produzidas naqueles milhões de churrascos caíram sobre o Reino de Bushlândia!

            Os focos de incêndio rapidamente tomaram os campos e o gado foi dizimado em poucas horas.  Os serviços do reino entraram em colapso, pois não havia condição para atender a tantas emergências ao mesmo tempo.

             Muitas pessoas morreram de fome e as indústrias foram fechadas por falta de demanda. Em poucas semanas a riqueza existente foi destruída e Bushlândia nunca mais se recuperou.

             Escrevo essa fábula ambiental como um alerta ao comportamento equivocado assumido pelos Estados Unidos quanto às questões ambientais.

             Até poucos anos atrás, enquanto o mundo buscava soluções para o aquecimento global, os americanos insistiam na tese de que ainda não havia uma certeza científica acerca do problema.

             Enquanto o mundo observava os primeiros sinais associados às mudanças climáticas os EUA preferiram manter seus níveis de consumo, inclusive no que concerne ao uso insustentável dos recursos naturais, sob o argumento de que precisavam proteger a sua economia.

            Sabemos que a capacidade de suporte dos ecossistemas é FINITA, ou seja, uma vez rompido o nível de resiliência a recuperação ambiental será muito mais lenta ou até mesmo inviável.

            A resiliência é fruto de uma combinação de muitos fatores cuja sinergia ainda é desconhecida, ou seja, não temos absoluta certeza do comportamento que será assumido pelo ecossistema afetado por um grande impacto ambiental.

           Além disso, a resiliência sempre é diferente para ecossistemas distintos: para cada conjunto de fatores e para cada tipo de ecossistema teremos comportamentos distintos cujos resultados finais não são conhecidos.

           Diante desse quadro de incerteza não seria mais prudente agir com maior precaução e menos arrogância?

          Os EUA são responsáveis por grande parcela da poluição atmosférica em escala mundial, mas parecem desconectados da realidade. Tal comportamento foi observado quando os americanos se negaram a assumir sua responsabilidade pelo controle das emissões estabelecidas no Tratado de Kioto.

           O resultado (ou castigo como preferem alguns) vem aos poucos, tal como uma torneira que lentamente enche um balde…

           O primeiro exemplo veio em 2005 com o furacão Katrina, causando centenas de mortes e bilhões de dólares em prejuízos.

           Nessa semana a tempestade tropical Sandy atingiu grande parte da costa leste, em especial a cidade de Nova York, um dos ícones do consumo mundial.

            De acordo com os dados preliminares do governo americano os impactos são os seguintes:

  •  Mais de 100 mortos nos EUA e 67  no Caribe;
  • 700 mil casas e 8,0 milhões de americanos sem energia elétrica;
  • Incêndio de grandes proporções, destruindo mais de 60 edifícios e casas em NY;
  • Aeroportos e metrôs fechados;
  • 15.000 voos cancelados;
  • Pontes e túneis bloqueados;
  • Usinas de energia elétrica fechadas
  • Áreas em Nova York submersas com até três metros de água do mar;
  • Perdas de US$ 20 bilhões apenas com o pagamento de seguros;
  • Perdas totais de até US$ 50 bilhões

           Esse tipo de fenômeno não pode ser imputado a uma mera coincidência ou à ira divina.

          Ao contrário: tempestades tropicais e furacões dessa magnitude continuarão a ocorrer de forma crescente (em número e intensidade) na medida em que o aquecimento global fugir de controle.

           Os furacões sempre existiram, mas sua frequência e intensidade vêm crescendo a cada ano, assim como os prejuízos econômicos e as perdas de vidas humanas.

           Quanto aos EUA continuaremos aguardando demonstrações de bom senso e uma alteração de rumo em sua política econômica de forma a evitarmos um desfecho trágico.

           As propostas são conhecidas e indicam um caminho mais racional a seguir, o que envolveria o controle das fontes poluidoras, a redução nas emissões, o incentivo ao uso de energias renováveis, redução na dependência de combustíveis fósseis, etc.

           Mas, acima de tudo, seria interessante que os americanos tentassem responder a uma questão das mais complexas:

           Qual é o preço da arrogância?

           Afinal, ninguém suporta um vizinho como o Reino de Bushlândia.

marceloquintiere@gmail.com

MQuintiere@twitter.com

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