Arquivo do mês: dezembro 2012

A Beleza e a Especulação Imobiliária

Recentemente li uma matéria interessante que associava a beleza de uma praia e a especulação imobiliária.

A praia, que se chama Cox’s Bazar, é realmente bonita e se iguala àquelas existentes no nordeste brasileiro ou em Cancun.

Duas outras características saltam aos olhos: a praia  tem 125 quilômetros ininterruptos de extensão e está localizada em um país ainda considerado pobre: Bangladesh.

Bangladesh tem uma população considerável (142 milhões de habitantes), uma densidade populacional elevada (mais de 1.000 habitantes/km²) e um PIB estimado em 113 bilhões de dólares, o que nos leva a uma PIB per capita de apenas 640 dólares.

Dentre as atividades econômicas se destacam a agricultura (arroz, batata, frutas tropicais, juta e chá) e a indústria têxtil, o turismo e a construção naval.

Os investimentos estrangeiros crescem como em boa parte dos países em desenvolvimento, provavelmente atraídos pelo baixo custo da mão de obra local e pelas carências e lacunas existentes.

O governo de Bangladesh deseja transformar Cox’s Bazar em um destino turístico de classe internacional, atraindo investimentos, turistas e bilhões de dólares anuais.

Como sempre ocorre a ideia parece bastante interessante a priori, mas os riscos ambientais não podem ser desconsiderados.

A construção de centenas de empreendimentos de médio e grande porte poderão ocasionar impactos nocivos ao meio ambiente.

Os impactos são potencializados pela construção de centenas de empreendimentos desprovidos de licença ambiental, a maioria erguida muito próxima (ou dentro) da faixa de areia.

São hotéis, resorts, restaurantes e marinas que geram os seguintes impactos:

  • Extração crescente de madeira das florestas vizinhas para as construções;
  • Deslizamentos de terra e morte de pessoas;
  • Destruição de áreas de corais para fabricação de souvenir;
  • Geração excessiva de lixo sólido e esgoto;
  • Crescimento populacional;
  • Sobrecarga para os serviços de saneamento, limpeza urbana, tratamento de água e oferta de energia.;
  • Comprometimento da biodiversidade local; etc.

Esse tipo de problema ocorre também no Brasil.

Assim que uma praia é “descoberta” e passa à condição de point turístico temos sua rápida degradação.  Em poucos anos todas as belezas naturais que deram origem ao crescimento socioeconômico desaparecem e os turistas partem para novas alternativas.

Como exemplo concreto destacamos algumas praias de Florianópolis, tais como Campeche, Armação, Ingleses, Canasvieiras e outras, nas quais a especulação imobiliária e o crescimento desordenado alimentaram sua degradação.

Em poucos anos dezenas de imóveis foram construídos à beira mar, alguns dentro da própria faixa de areia, e os ecossistemas entraram em processo de colapso e destruição.

A título de exemplo podemos citar a praia de Jurerê Internacional, também em Florianópolis, planejada de forma racional e transformada em polo de atração de milhares de turistas a cada ano.

Trata-se de um empreendimento com impacto ambiental mais reduzido, com tratamento do esgoto, campanhas de conscientização dos turistas, regras rígidas para ocupação e construção, etc.

Em síntese: é possível explorar as belezas naturais e manter o seu potencial atrativo durante décadas, desde que sejam observados cuidados mínimos com a proteção dos ecossistemas.

Não defendemos a paralisação dos investimentos, apenas defendemos a maior racionalidade nos investimentos para não matarmos a “galinha dos ovos de ouro”.

Entendemos que o crescimento socioeconômico constitui uma necessidade básica das nações (em especial aquelas mais pobres), mas é necessário que seja alcançado de forma segura e planejada.

Devemos conciliar o crescimento com a proteção dos ecossistemas evitando romper a sua capacidade de recuperação (resiliência). Na verdade deveríamos estudar com maior detalhe as reais condições de suporte de cada ecossistema ANTES de autorizarmos a construção / ocupação.

Infelizmente essa preocupação ambiental não costuma encontrar eco junto às autoridades municipais, mais interessadas no ganho financeiro rápido e na geração de empregos.

Assim, se você considera necessário desenvolver sem degradar o meio ambiente, assuma uma postura mais crítica em relação aos “incríveis” lançamentos imobiliários e procure cobrar das autoridades locais o seguinte:

  • Projeto urbanístico;
  • Processo de licenciamento ambiental, inclusive com as necessárias audiências públicas;
  • Cuidados ou projetos que devem ser inseridos, tais como a educação ambiental, a proteção de ecossistemas nativos, a economia de água, o tratamento de esgotos e resíduos sólidos, etc.
  • Criação de lei municipal que obrigue a destinação de parcela do valor dos imóveis para aplicação em projetos ambientais (uma forma de compensação pelos danos ambientais gerados).
  • Proibição da extração de corais;
  • Projetos para proteção de matas nativas, áreas de dunas e/ou mangues, etc.

Faça a sua parte e permita que seus netos usufruam dos bens e serviços ambientais.

marceloquintiere@gmail.com

MQuintiere@twitter.com

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