Combustíveis Fósseis: A Nova Fronteira de Risco

Não existe atividade econômica desconectada no meio ambiente.

A associação entre a atividade econômica e o meio ambiente pode ser observada nas seguintes dimensões:

  • Aumento da demanda sobre bens e serviços ambientais (ex.: água, solo, oceanos, biodiversidade, etc.);
  •  Geração de resíduos e/ou processos poluentes (ex.: indústria de produtos químicos, resíduos da construção civil, etc.);
  •  Produção de Passivos Ambientais que podem vir a comprometer o meio ambiente (ex.: barragens de resíduos químicos, tanques em postos de combustíveis, etc.).

A indústria de combustíveis fósseis não constitui uma exceção.  Ao contrário: poucas atividades econômicas possuem um potencial de impacto ambiental, social e econômico tão abrangente.

Quais os tipos de empresa associados à indústria dos combustíveis fósseis?

Em primeiro plano temos as empresas petrolíferas, muitas das quais listadas entre os maiores conglomerados industriais em escala mundial.

Essas empresas são responsáveis pelas etapas de pesquisa, prospecção, transporte, refino e distribuição de petróleo, gás e seus derivados por todo o planeta.

Além da sua contribuição direta para o aquecimento global e mudanças climáticas, há, ainda, o impacto indireto associado aos setores de transporte e demais processos econômicos que utilizam os seus produtos (ex.: fertilizantes, indústria petroquímica, plásticos, etc.).

Depois devemos considerar as mineradoras de carvão, combustível utilizado desde os primórdios da Revolução Industrial e responsável pela emissão de CO² em larga escala.

Em que pese a enorme importância do setor para o crescimento socioeconômico dos países a indústria dos combustíveis fósseis possui forte impacto ambiental que pode ser resumido da seguinte forma:

  • Emissões diretas e indiretas de CO², alimentando o efeito estufa e o aquecimento global, gerando, em consequência, as mudanças climáticas que poderão afetar nosso planeta de modo irreversível;
  •  Depleção acelerada de recursos não renováveis (petróleo, gás e carvão mineral), contribuindo para um futuro desequilíbrio de preços e instabilidade econômica dada a forte dependência que ainda apresentamos frente aos citados combustíveis;
  •  Geração de passivos ambientais decorrentes de suas atividades e, principalmente, dos eventuais acidentes em sua cadeia produtiva (ex.: rompimento de tubulações como no caso da plataforma da BP no golfo do México, afundamento de grandes petroleiros como o Exxon Valdez e Prestige, etc.).

Em recente artigo publicado no jornal britânico The Guardian o mundo pode estar caminhando para uma gravíssima crise econômica na medida em que os mercados de ações inflam uma bolha de investimento em combustíveis fósseis da ordem de trilhões de dólares.

A chamada “bolha de carbono” é o resultado de um excesso de valorização das reservas de petróleo, carvão e gás que estão nas mãos das empresas de combustíveis fósseis.

De acordo com o relatório de Nicholas Stern, professor da London School of Economics, e o centro Carbon Tracker pelo menos dois terços das reservas de combustíveis fósseis terão de permanecer sob o solo se o mundo quiser alcançar as metas existentes, acordadas internacionalmente, para evitar o agravamento das mudanças climáticas.

O relatório calcula que as reservas mundiais de combustíveis fósseis equivalem a 2,86 bilhões de toneladas de dióxido de carbono, mas que apenas 31% poderiam ser queimadas para manter uma chance de 80% do aumento da temperatura terrestre não exceder 2 graus Celsius.  

As conclusões do relatório de Stern são apoiadas por organizações bancárias de grande porte, tais como o HSBC, Citi, Standard and Poors e a Agência Internacional de Energia.

O Banco da Inglaterra reconheceu que, na medida em que as nações combatam o aquecimento global, haverá o risco de um colapso no valor dos ativos de petróleo, gás e carvão ocasionando um risco sistêmico para a economia.

Como isso funciona?

Em primeiro lugar devemos partir da premissa de que o planeta pode entrar em colapso com o agravamento do processo de aquecimento global.

A partir dessa premissa devemos buscar a redução dos fatores de risco, dentre os quais o cumprimento (e até mesmo a ampliação) dos acordos internacionais para controle das emissões dos gases do efeito estufa.

Se os acordos internacionais para controle climático forem mantidos e cumpridos, as reservas existentes não poderão ser queimadas e serão inúteis – levando a perdas financeiras maciças, uma vez que as grandes empresas do setor de combustíveis fósseis estão muito endividadas e utilizam o preço internacional de suas reservas como garantia dos empréstimos.

Se essas empresas passarem a sofrer limitações em suas atividades de exploração, além de eventuais impedimentos quanto à utilização de suas reservas teremos maior risco de desequilíbrios na cadeia produtiva.

As citadas medidas limitantes (novas explorações e uso efetivo das reservas já identificadas) garantirão, em parte, o controle sobre o aquecimento global, mas condenarão as empresas a uma severa crise de endividamento, pois suas reservas perderão valor e não mais poderão ser aceitas como garantia de empréstimos.

De acordo com a matéria veiculada pelo jornal The Guardian o banco HSBC alertou que 40-60% da capitalização de mercado das empresas de petróleo e gás associados à denominada bolha de carbono, na qual as 200 maiores empresas de combustíveis fósseis acumulam uma dívida de 1,5 trilhão de dólares.

É uma dívida capaz de desequilibrar os frágeis ajustes financeiros atuais, contribuindo para acelerar e aprofundar ainda mais a atual econômica mundial.

Conclusão:

Em uma linguagem popular estamos nos aproximando de uma situação na qual estaremos “entre a cruz e a espada”, ou seja, a proteção do planeta contra os riscos de uma crise climática severa nos forçará a adotar medidas que podem ocasionar a ruptura definitiva do equilíbrio econômico.

Entendo que o risco de acirramento da crise econômica atual é gravíssimo e nossa recuperação se dará ao longo de décadas.

Em que pese as consequências socioeconômicas da crise, não podemos desconsiderar a necessidade de adicionar a questão dos combustíveis fósseis à equação.

Em outras palavras: esse novo componente da equação econômica mundial é grave o suficiente para não ser desconsiderado ou mesmo “esquecido” pelos nossos formuladores de políticas econômicas.

Uma saída interessante e racional seria a composição de alguns elementos chave:

  • O investimento maciço em energias alternativas (solar e eólica);
  • O desenvolvimento de uma economia mais limpa, com menos resíduos e menor dependência dos recursos naturais (solo, água, biodiversidade e combustíveis fósseis);
  • Educação ambiental voltada para nossa adaptação e convívio sob uma economia em transformação;
  • Estímulo ao consumo racional, evitando o desperdício e a sobrecarga dos ecossistemas.

 As duzentas maiores empresas do setor de combustíveis fósseis gastaram U$ 670 bilhões para encontrar e explorar novos recursos, um montante equivalente a 1% do PIB global.

Essa montanha de recursos poderia ser utilizada para o fortalecimento das fontes alternativas (e limpas) de energia.

 As empresas do setor deveriam considerar a seguinte mudança de paradigma: não são apenas empresas de petróleo, gás e carvão, mas sim empresas de energia.

Os tempos mudaram e devemos aproveitar as oportunidades para uma correta adequação aos novos tempos.

Esse artigo me faz recordar de outro ensinamento simples e básico que recebi há mais de 25 anos:

“Economia e meio ambiente sempre caminham entrelaçados…”

 marceloquintiere@gmail.com

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