Arquivo do mês: agosto 2015

Um Exemplo de Passivo Ambiental – Postos de Combustíveis

Ontem fui abastecer o meu carro aqui em Brasília.

Mais do que o elevado preço final da gasolina ao consumidor o que me chama a atenção é o risco envolvido na operação dos milhares de postos em todo o país, uma vez que pode estar associada à formação de passivos ambientais.

As razões de minha preocupação são as seguintes:

• Os passivos ambientais recebem pouco destaque na mídia, possivelmente em função de desconhecimento técnico;
• Os riscos aos ecossistemas e à saúde humana são significativos, podendo levar à morte e a danos irreversíveis;
• O Brasil ainda não possui um mapeamento capaz de identificar, monitorar e neutralizar os milhares de exemplos de passivos ambientais existentes em nosso território.

O passivo ambiental consiste em um valor monetário que procura expressar, ainda que sob a forma de estimativa, qual o gasto total que determinada empresa ou instituição deverá arcar no futuro em decorrência dos impactos ambientais gerados por sua atividade produtiva.

De acordo com o IBRACON – Instituto dos Auditores Independentes do Brasil, o passivo ambiental consiste no valor dos investimentos necessários para reparar toda a agressão que se pratica ou praticou contra o meio ambiente.

Conforme destaca MALAFAIA, a essência do passivo ambiental está no controle e reversão dos impactos das atividades econômicas sobre o meio natural, envolvendo, portanto, todos os custos das atividades que sejam desenvolvidas nesse sentido.

Para UEHARA, o passivo ambiental se constitui no dia-a-dia em contrapartida às alterações ambientais provocadas pelas atividades econômicas desempenhadas pelas empresas.

O passivo ambiental representa toda e qualquer obrigação destinada, única e exclusivamente, a promover investimentos em prol de ações relacionadas à extinção ou amenização dos danos causados ao meio ambiente, inclusive os valores direcionados a investimentos na área ambiental (MALAFAIA).

Embora estejam comumente associados a acidentes e danos que afetam o meio ambiente os passivos ambientais não estão restritos apenas às barragens de resíduos, sendo possível observar a sua presença associada a outras origens, tais como:

• Custos associados às ações para reparação de danos ambientais;
• Custos de indenizações a terceiros em decorrência de acidentes ambientais.
• Antigos tanques de combustíveis em postos de serviço;
• As instalações industriais desativadas ou abandonadas;
• Os resíduos de processos industriais lançados sem controle na atmosfera, nos corpos hídricos e no solo;
• Produtos descartados ao final de sua vida útil sem que sejam adotadas medidas de proteção adequada (pneus, baterias automotivas, computadores e seus acessórios, baterias de telefones celulares e outros);
• Lixões a céu aberto;
• Solo contaminado pelo uso de agrotóxicos;
• Manutenção de equipes ou departamentos voltados para a questão ambiental;
• Aquisição preventiva de equipamentos para controle da poluição; etc.
Os passivos ambientais existem aos milhares em nosso país e, na grande maioria dos casos, não são conhecidos pelos órgãos ambientais dos estados e municípios.
Estamos diante de uma ameaça significativa que, a depender dos produtos tóxicos envolvidos, poderá ocasionar uma tragédia sem precedentes.
Como exemplos se destacam:
• O acidente de Cataguases (MG);
• O deslizamento do Morro do Bumba em Niterói ocasionando a morte de 48 pessoas e dezenas de feridos em 2010;
• O Lixão da Alemoa no Porto de Santos;
• O aterro Industrial de Ingá (RJ) e muitos outros que futuramente devem ser incorporados à lista de tragédias.

Além desses exemplos podemos destacar a operação de milhares de postos de combustíveis que, sendo mais antigos, possuem equipamentos já desgastados e obsoletos, o que pode resultar em aumento de risco de contaminação do solo e da água subterrânea.

A gasolina não é um produto homogêneo e único como a água. Na realidade a gasolina é um produto resultante da combinação de diversos elementos, alguns com elevado potencial poluidor.

Quando um tanque de combustível sofre um rompimento em sua estrutura haverá a contaminação da área vizinha, com consideráveis danos e impactos à população e aos ecossistemas.

Um exemplo concreto ocorreu há alguns anos em Brasília, quando um dos tanques do posto Brazuca (um dos maiores da capital) sofreu rompimento e gerou graves doenças para a população que vivia em áreas próximas. Houve casos de leucemia, doenças de pele, contaminação da água nos poços artesianos, etc.

O resultado foi o fechamento do posto por muitos meses para substituição dos equipamentos antigos, aplicação de multas e ressarcimento às famílias prejudicadas (inclusive com a compra das áreas afetadas).

Quanto à necessidade de reparação dos danos ambientais gostaríamos de destacar alguns aspectos legais envolvidos, em especial a Teoria Objetiva da Responsabilidade e dispositivos legais que tratam do tema.

A Teoria Objetiva da Responsabilidade tem como elementos básicos apenas o dano causado e o nexo de causalidade, não sendo necessário o desenvolvimento de provas ou elementos comprobatórios acerca da culpa do infrator.

Desta forma o processo se torna mais célere, garantindo que os recursos destinados à compensação dos danos vinculados aos acidentes ambientais sejam prontamente obtidos, protegendo de modo mais efetivo o meio ambiente.

A Teoria Objetiva da Responsabilidade encontra amparo na conhecida Teoria do Risco Integral:

“Quem recebe os lucros de uma atividade deve estar preparado para assumir os eventuais danos causados a terceiros”.

Desta forma procura-se internalizar nos custos gerais das indústrias os impactos negativos ao meio ambiente e a obrigatoriedade de promover o seu ressarcimento, evitando a sua equivocada socialização pelo conjunto da sociedade.

O Direito Ambiental no Brasil, assim como em outros países desenvolvidos, adota a Teoria Objetiva da Responsabilidade, conforme se verifica nos seguintes dispositivos legais:

1. Lei n.º 6.938/81 – PNMA Art. 14, § 1º:

“Sem obstar a aplicação das penalidades previstas neste artigo, é o poluidor obrigado, independentemente de existência de culpa, a indenizar ou reparar os danos causados ao meio ambiente e a terceiros, afetados por sua atividade”.

2. CF/ 1988, Art. 225, § 3º:

“As condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas, independentemente da obrigação de reparar os danos causados”.

3. Código Civil de 2002 – Lei n.º 10.406/2002, Art. 927, § único

“Haverá a obrigação de reparar o dano, independentemente de culpa, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem”.

A responsabilidade pelo pagamento dos danos praticados contra o meio ambiente está associada ao conhecido Princípio Poluidor-Pagador, previsto como sendo um dos objetivos centrais da Política Nacional do Meio Ambiente, conforme se verifica no Art. 4º, VII da Lei n.º 6.938/81:

“Art. 4º – A Política Nacional do Meio Ambiente visará:
(…)
VII – à imposição, ao poluidor e ao predador, da obrigação de recuperar e/ou indenizar os danos causados e, ao usuário, da contribuição pela utilização de recursos ambientais com fins econômicos.”

Em razão dos acidentes observados houve a alteração da legislação acerca da segurança e operação dos postos de combustíveis, obrigando-os a tanques de armazenamento com paredes duplas, piso impermeabilizado e canaletas em volta das bombas para captar combustível ou água. O objetivo é evitar a contaminação de rios e nascentes em casos de vazamento.

Obviamente o custo da reparação por eventuais acidentes é muito superior àquele decorrente da substituição dos equipamentos preconizado na legislação, mas, mesmo assim, muitos proprietários de postos não possuem condições financeiras para arcar com despesas da ordem de R$ 250.000,00 (duzentos e cinquenta mil reais).

A Agência Nacional do Petróleo (ANP) passará a exigir licença ambiental de operação e laudo de vistoria do Corpo de Bombeiros em suas fiscalizações efetuadas a partir de 19 de outubro de 2015.

A previsão da própria ANP e da Fecombustíveis, federação do setor, é de que cerca de 30% a 40% dos 40 mil postos do país ainda não conseguiram obter suas licenças ambientais nos órgãos municipais e estaduais. Dessa forma há uma perspectiva de que 16 mil postos venham a encerrar suas operações, acirrando a crise financeira e social do país.

Os passivos ambientais são assim mesmo: vão se avolumando sem que nenhuma atitude concreta seja adotada e, depois, se transformam em acidentes cujos impactos são, muitas das vezes, imprevisíveis e/ou irreparáveis.

O melhor mesmo é fazer o MAPEAMENTO dos passivos e EXIGIR o seu controle/eliminação.

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