Arquivo da categoria: Ambientalistas x Ruralistas

Proposta aos Ruralistas

O embate entre ruralistas e ambientalistas sempre desperta o interesse da mídia.

O “diálogo” entre as partes, nem sempre conduzido de forma clara, educada e construtiva, engloba temas diversos, em especial o desmatamento.

Sabemos que o desmatamento constitui uma grande preocupação para os gestores públicos. Trata-se, na realidade, da imagem do país perante o mundo e que pode gerar reflexos muito negativos.

Na década de 80, a título de exemplo, os países desenvolvidos chegaram a atrelar as novas liberações de recursos para empréstimos e investimentos ao compromisso do governo brasileiro de reduzir substancialmente o nível do desmatamento no país.

Não pretendo discutir aqui os percentuais de desmatamento a cada ano, sua exatidão, metodologia adotada ou sua evolução, uma vez que os dados existentes são suficientemente debatidos nas esferas competentes.

Gostaria de debater a dinâmica de ocupação da terra no Brasil e o vínculo entre o custo da terra e o desmatamento.

A importância das florestas no que concerne aos ecossistemas e à prestação dos denominados “serviços ambientais” pode ser resumida da seguinte forma:

  • Manutenção dos ciclos hidrológicos da bacia hidrográfica, regulando períodos de seca e/ou de cheias;
  • Regulação climática;
  • Preservação na qualidade da água;
  • Proteção da biodiversidade;
  • Redução do risco de erosão do solo;
  • Reserva estratégica para futura produção de fármacos, alimentos, madeiras, essências, resinas, cosméticos, etc., inclusive com o apoio da biotecnologia;

 Apesar da sua considerável importância as florestas continuam sendo alvo de processos de desmatamento destinados à abertura de novas fronteiras agrícolas e produção de grãos voltada ao mercado externo.

A dinâmica da exploração das florestas no Brasil impõe, em muitos casos, uma lógica perversa composta pelas seguintes etapas:

  1. A terra é adquirida a preços relativamente baixos (se comparados à realidade internacional);
  2. O Desmatamento tem início com a venda de madeiras nobres e com a produção de carvão vegetal, o que se traduz em forte impacto sobre a biodiversidade;
  3. Depois da retirada da floresta ocorre a abertura de pastos que pouco contribuem para a proteção dos solos contra os processos erosivos;
  4. Os projetos agropecuários são conduzidos de forma extensiva, ocupando amplas áreas e apresentando baixa produtividade;
  5. Ao longo de poucos anos de exploração ocorre a queda da fertilidade do solo, potencializada pela falta de investimentos e uso de tecnologia inapropriada;
  6. O empresário abandona as áreas degradadas e parte para novas alternativas;
  7. Aquisição de novas áreas, em geral mais distantes dos centros consumidores, o que acaba por exigir maiores custos de logística, além de acarretar elevação dos custos de produção.

Esse “comportamento de gafanhoto” é extremamente danoso aos ecossistemas e à economia do país e seus efeitos tendem a se acumular ao longo das décadas.

Nesse ponto acredito que devemos ponderar acerca das eventuais diferenças existentes entre as regiões do país: será que o “comportamento gafanhoto” existe em todas as nossas regiões?

Ao analisarmos a dinâmica de ocupação das terras podemos perceber diferenças entre as regiões, mesmo quando consideramos a média existente nas propriedades.

Nas Regiões Norte e Centro-Oeste, verificamos a produção atrelada aos grandes latifúndios: extensas áreas com relevo plano, solos profundos, bom regime hídrico e concentração na produção de grãos para exportação (ex.: soja) ou indústria (ex.: algodão).

Nessas duas regiões o ritmo da degradação é mais evidente, inclusive com a deterioração do solo nas propriedades mais antigas.

Para alicerçar nossa posição basta considerarmos que é bem difícil observarmos fazendas com mais de 50 anos apresentando níveis elevados de produtividade.

Já nas Regiões Sul e Sudeste o ritmo de ocupação e degradação da terra é menor, uma vez que há:

  • Maior conscientização dos empresários quanto à necessidade de preservação ambiental;
  • Maior presença de agroindústrias que geram valor agregado;
  • Busca mais intensa por novas tecnologias rurais;
  • Maior uso de máquinas, implementos e agrotóxicos;
  • Áreas menores com maiores produtividades por hectare;
  • Maior concentração de culturas mais perenes tais como café, frutícolas, etc.

Qual a razão para essa diferença?

Não se trata apenas da eventual falta de informação tecnológica ou dificuldade em acessar linhas de crédito subsidiado destinadas à compra de máquinas e implementos.

Também não de pode atribuir a dinâmica de ocupação apenas ao crescimento da demanda internacional por alimentos.

Acredito que o custo da terra nua é um dos principais agentes indutores deste “comportamento gafanhoto”.

Nas regiões mais carentes se verifica um preço médio da terra nua significativamente inferior àquele observado nas regiões mais ricas. Assim, o empresariado rural tende a apresentar comportamentos antagônicos.

Quando a terra nua possui elevado custo os empresários tendem a considerá-la como um verdadeiro patrimônio de suas empresas, um componente de valor que dificilmente poderá ser substituída sem a inversão de somas significativas de dinheiro.

Assim, os empresários adotam medidas concretas para proteção das áreas, evitando seu desgaste e problemas tais como erosões, assoreamento de rios e nascentes, etc.

No outro extremo, quando a terra nua possui custo mais reduzido, os empresários tendem a considerá-la como sendo um mero componente do custo de produção, sendo facilmente substituída por outras áreas quando se verifica uma eventual queda nos níveis de produtividade.

Como podemos evitar o “comportamento gafanhoto”?

Em outras palavras: como internalizar o real valor da terra e transformá-la em patrimônio a ser defendido e preservado?

Evidentemente o controle mais eficaz está atrelado ao investimento maciço e contínuo em educação ambiental, permitindo uma maior conscientização dos empresários e demais proprietários rurais.

Entretanto o retorno da educação ambiental costuma ser obtido após décadas ou gerações. Não se trata, portanto, de uma alternativa que pode transformar o segmento rural do país em curto prazo.

Como fazer?

A simples aplicação de multas ambientais não garante o retorno das áreas degradadas a uma boa condição ambiental, pois a sua resiliência pode já estar comprometida. Da forma atual basta ter dinheiro e continuar o processo de degradação indefinidamente.

A questão continua: como evitar a ação de empresários rurais que praticam o “efeito gafanhoto” degradando suas terras e migrando posteriormente para novas áreas?

Uma sugestão: porque não condicionar a compra de novas terras à análise do estado em que o empresário rural deixou suas outras propriedades?

Tentarei explicar a proposta que tenho em mente.

1)     A ideia central parte do princípio de que o empresário rural deveria ser obrigado a comprovar o bom estado ambiental de suas outras propriedades quando desejasse comprar novas áreas;

 2)     O governo e órgãos ambientais poderiam desenvolver uma série de parâmetros de avaliação, tais como:

  •  Presença de processos erosivos;
  • Grau de desmatamento;
  • Presença de áreas protegidas;
  • Proteção de rios e nascentes;
  • Recomposição da mata ciliar;
  • Presença de trabalho escravo ou trabalho infantil;
  • Respeito aos direitos trabalhistas;
  • Uso de técnicas de proteção do solo;
  • Recolhimento das embalagens de agrotóxicos e pneus em consonância com a logística reversa prevista na PNRS (art. 33Lei n.º 12.305/2010);
  • Nível de contaminação do solo e das águas subterrâneas, etc.

 3)     A fiscalização das propriedades mais antigas do empresário rural quanto ao nível de degradação poderia ser desenvolvida inicialmente como amparo de imagens satélite e, posteriormente, com a realização de visitas comprobatórias em nível de campo;

 4)     O uso de imagens satélite já se encontra disseminado em muitos países e se constitui em excelente instrumento de planejamento.  Assim, muitos dos parâmetros de avaliação poderiam ser analisados a partir do uso dos satélites.

 5)     Penso que poderíamos estruturar ao longo dos anos um cadastro de empresários rurais contendo imagens satélite que demonstrassem a evolução dos impactos ambientais gerados pela sua atividade;

 6)     O empresário que fosse flagrado nas imagens satélite seria multado pela fiscalização após a visita comprobatória in loco, e passaria a contar com uma pontuação baixa no cadastro, inclusive compondo uma “lista de inadimplentes” ou “lista de degradadores”.

 7)     Uma vez que apresentasse uma pontuação reduzida no cadastro o empresário estaria sujeito a uma série de sanções, tais como: taxas de juros mais elevadas em empréstimos, menores prazos de carência em empréstimos, redução de limites de crédito para aquisição de máquinas e implementos, etc.;

 8)     Dessa forma, com a elevação de seus custos de produção, o empresário rural seria impelido a repensar sua interação com o meio ambiente, preservando as áreas sob sua responsabilidade, evitando multas e, ao final, garantiria maiores níveis de produtividade.

 Muitos poderiam argumentar que essa proposta serviria apenas como instrumento para punição dos empresários cujas áreas antigas apresentassem fortes impactos ambientais.

Discordo.

Não se trata apenas de punir os faltosos, mesmo por que a legislação brasileira já define uma série de condutas e comportamentos exigidos no que concerne aos empreendimentos econômicos:

  • Lei n.º 6.938/81 – Política Nacional de Meio Ambiente;
  • Constituição Federal de 1988;
  • Lei n.º 9.605/98 – Lei dos Crimes Ambientais;
  • Lei n.º 9.433/99 – Política Nacional de Recursos Hídricos; e
  • Lei n.º 12.305/2010 – Política Nacional de Resíduos Sólidos, dentre outros dispositivos legais.

Essa proposta traz enormes ganhos para aquele empresário rural que protege suas terras e adota medidas voltadas ao desenvolvimento sustentável.

O mecanismo acima descrito poderia ser utilizado não apenas para identificar os maus empresários e aplicar-lhes as sanções previstas na legislação como, por outro lado, beneficiar os demais cuja atuação se dá em estrita obediência aos ditames legais.

Dessa forma poderíamos reduzir o denominado “comportamento gafanhoto”, punir os infratores e beneficiar os empresários conscientes.

O empresário que apresentar um nível elevado de responsabilidade e compromisso ambiental poderia contar com benefícios consideráveis, tais como:

  • Redução de impostos sobre a produção;
  • Linhas de crédito mais facilitadas quanto aos prazos e taxas de juros;
  • Aquisição de máquinas e insumos a preços diferenciados e com prazos mais amplos;
  • Prioridade na implantação de energia elétrica, estradas vicinais, mecanismos para escoar a safra agrícola, etc.

O mais interessante é que a adoção desse projeto de “cadastro ambiental” permitiria integrar ambientalistas e ruralistas mais conscientes e comprometidos com a proteção do meio ambiente, dificultando a atuação nociva daquele grupo de proprietários rurais que ainda insistem em trabalhar como gafanhotos.

Assim, com o passar dos anos e com o auxílio da educação ambiental poderíamos contar com um desenvolvimento econômico mais harmônico, que a todos beneficiaria, afastando aqueles elementos recalcitrantes que insistissem em degradar o meio ambiente em busca do lucro fácil.

marceloquintiere@gmail.com

MQuintiere@twitter.com

Anúncios

Vetos ao Código Florestal

             Depois de longa e acalorada tramitação o novo Código Florestal foi aprovado.

             A palavra final coube à Presidente Dilma Rousseff que vetou parcialmente alguns dos artigos do Projeto de Lei de Conversão n.º 21/2012 elaborado pela Câmara dos Deputados, por considerá-los contrários ao interesse público.

             Imediatamente surgiram menções de elogio e apoio por parte dos chamados “ambientalistas”, bem como de contrariedade, estas associadas aos chamados “ruralistas”.

             Quem perdeu e quem ganhou nessa contenda?

             Acredito que o grande vencedor é o meio ambiente e os benefícios gerados a partir de uma legislação mais moderna se farão notar ao longo dos próximos anos.

             Afinal: o meio ambiente preservado favorece o fortalecimento das atividades econômicas.

            A esse respeito cumpre-nos destacar nosso entendimento inicial no sentido de que os denominados “ruralistas” são imprescindíveis ao esforço de crescimento nacional, mas  que a preservação ambiental é condição básica ao seu negócio.

           Então, qual o motivo para tamanha celeuma?

          O fato é que os proprietários rurais se acostumaram (em muitos casos) a desenvolver sua atividade desconectada das preocupações ambientais, tais como a proteção de nascentes, a preservação das matas ciliares, etc.

          Não é raro encontrarmos exemplos de plantios realizados com as rodas do trator literalmente dentro da água dos rios que cruzam as propriedades.

           A questão é que um rio não se confunde com uma mera mangueira de água através da qual transportamos um volume fixo de água.

           Não é isso!  Um rio é um organismo vivo que interage, integra e protege diversos ecossistemas existentes ao longo de seu percurso.

           É a partir dos rios que os ecossistemas encontram condições de se desenvolver e se manter em condições de equilíbrio, utilizando as águas em seus processos naturais, tais como a ciclagem de nutrientes, a manutenção do ciclo hidrológico local, etc.

           A partir dessa visão mais “ambiental” chegamos a uma conclusão que pode parecer surpreendente: os rios morrem!

          Sim!  Os rios podem, assim como qualquer outro organismo, morrer e desaparecer.

         No Brasil já podemos contar com dezenas de exemplos nos quais os rios morreram em razão de sobreuso, assoreamento e poluição.

         No caso do sobreuso temos um excesso de retirada que supera a capacidade de recomposição dos recursos hídricos.

         Como exemplos temos o chamado conflito de uso onde o volume disponível de água passa a servir a diversos atores: abastecimento de água das cidades, agricultura irrigada, produção de energia elétrica, lazer, transporte fluvial, etc.

          A cada novo usuário que pretenda utilizar o potencial do rio crescerá a pressão sobre os recursos hídricos disponíveis, podendo, em casos mais extremos, conduzir ao desequilíbrio e colapso do sistema.

          No caso do assoreamento temos mais um impacto nefasto que ameaça a manutenção dos rios.  A perda da cobertura vegetal nativa, por definição perene, em benefícios de cultivos mais rentáveis como a soja traz em seu rastro um solo desprotegido.

           Na medida em que os solos apresentam menor cobertura vegetal haverá maior exposição e risco de desagregação física, ocasionando grandes processos erosivos denominados de voçorocas.

           O Brasil perde milhões de toneladas de solo fértil a cada ano em decorrência do uso irregular dos solos pela agricultura.  E todo esse volume perdido vai sendo depositado gradualmente nos rios, até o ponto de comprometer o seu curso natural e a força de suas águas.

            Quanto à poluição industrial e à poluição decorrente dos serviços de saneamento básico o problema gerado está associado à perda das condições de equilíbrio dos rios.  São centenas de produtos químicos cuja combinação pode acarretar problemas á saúde pública e à proteção dos ecossistemas.

           Quando mencionamos o saneamento básico temos de considerar duas dimensões igualmente perigosas: o tratamento e descarte do esgoto doméstico e a disposição inadequada dos resíduos sólidos.

            Esse conjunto de problemas decorre da atuação dos agentes econômicos que, ao final do processo, serão prejudicados em suas atividades pelo simples fato de que destruíram a capacidade de recuperação dos ecossistemas que exploraram anteriormente.

            Assim, os solos e os rios vão sendo degradados gradativamente e as chances de recuperação diminuem, ocasionando maiores custos na medida em que o meio ambiente sofre os impactos das atividades econômicas.

            Os denominados “ruralistas” deveriam compreender que o dano ambiental, muitas vezes irreversível, atua como uma verdadeira roleta russa apontada para suas cabeças.

             A lógica perversa de considerável parcela de nossos agricultores é a seguinte:

  • adquirir grandes áreas a custo reduzido;
  • efetuar a derrubada indiscriminada da cobertura vegetal nativa (uso do chamado “correntão”);
  • desenvolver uma produção predatória máxima a custo mínimo, degradando os solos e comprometendo o meio ambiente;
  • romper a resiliência ou capacidade de suporte dos ecossistemas afetados, eliminando sua possibilidade de recomposição ao nível natural;
  • adquirir novas áreas mais distantes a um custo ainda reduzido.

              Esse procedimento constitui, infelizmente, um padrão comportamental bastante comum que pode ser observado em praticamente todos os estados e municípios brasileiros, inclusive com o apoio financeiro e as “vistas grossas” da administração pública.

             Algumas ponderações contra os vetos da Presidente Dilma merecem destaque, em especial no que tange à denominada “escadinha” para a recomposição das matas ciliares degradadas.

              Um dos principais pontos de embate entre os grupos interessados, foi a redução para 15 metros da obrigatoriedade de recomposição florestal em propriedades com áreas acima de quatro (4) módulos até quinze (15) módulos nos rios com até 10 metros de largura.

             A proposta original, que foi agora retomada pelo Governo, prevê uma faixa de recuperação das áreas de acordo com o tamanho das propriedades, observando o mínimo de 20 metros e o máximo de 100 metros, contados da borda da calha do leito regular dos rios.

             O Deputado Federal Valdir Colatto (PMDB/SC) afirma que o Governo recriou a “escadinha” levando em conta o tamanho da propriedade e a largura do rio.

             Na proposta do Congresso somente era considerada a largura do rio, o que, na opinião de Colatto “é mais técnico, científico e coerente”.

             “Hoje você tem o mesmo rio com APP de 100 metros e de cinco metros, inviabilizando tecnicamente sua implantação. A mudança feita pela presidente irá prejudicar o médio produtor, causando um grande impacto na produção”, afirma o parlamentar.

              Acredito que a recuperação das matas ciliares é tarefa inadiável e, conforme destacado anteriormente, pode garantir a manutenção da atividade agrícola e do agronegócio ao longo do tempo, minimizando os riscos ambientais de enfrentarmos um colapso.

             Em sua exposição de motivos o parlamentar cita um estudo da USP/ESALQ apontando que serão retirados 35 milhões de hectares em APP e 18 milhões de Reserva Legal, somando 53 milhões de hectares que hoje estão sendo utilizados para agricultura e pecuária.

             “Essa recomposição custará R$ 215 bilhões, a perda de arrecadação chegará a R$ 801 bilhões e o custo da implantação do Código Florestal dentro da porteira, ou seja, na propriedade rural, será de mais de R$ 1 trilhão”, alerta o deputado federal.

             Não tenho acesso aos detalhes desse estudo, mas acredito que deveríamos considerar a perda econômica para a região e o país como um todo caso as medidas de proteção não sejam implantadas.

               O custo da recomposição florestal não deve ser sequer considerado como um custo extra.  Ao contrário.

             Esse custo de recomposição da ordem de R$ 215 milhões constitui uma devolução de tudo aquilo que foi degradado pelos maus agricultores ao longo de décadas de atividades irregulares e ambientalmente insustentáveis.

             Poderíamos recorrer a um exemplo mais singelo:

             Imagine um motorista bêbado que dirigia a 150 km/hora dentro do perímetro urbano e destruiu 10 carros em uma colisão.  Obviamente ele terá de pagar pelos prejuízos causados a terceiros, além de arcar com outras sanções na esfera penal.

             Seria justo considerarmos que o custo do reparo é um custo injusto e indevido?

             Não!  O motorista bebeu e decidiu dirigir, infringindo as normas legais.

            O resultado (colisão e prejuízos materiais) é fruto de sua imprudência e deve ser objeto de alguma sanção.

            As margens dos rios não foram deterioradas ao longo de um ou dois dias ou em decorrência de algum fato imprevisto…

             Não! A deterioração das matas ciliares e o comprometimento do equilíbrio ambiental ocorram ao longo de décadas de uso irregular da terra pelos agricultores que, desconsiderando as normas legais e o bom senso, optaram pelo uso excessivo de suas terras.

             O mais estranho neste raciocínio dos “ruralistas” é que consideram justo e merecido o recebimento dos lucros da atividade durante as várias décadas de exploração, mas se dizem prejudicados quando instados a recuperar o dano por eles gerado.

             Não nos parece um argumento racional, mesmo por que devemos considerar que “aquele que usufrui dos bônus de uma atividade (lucros) deve estar sempre pronto a arcar com os eventuais ônus (prejuízos e danos ambientais) dela decorrentes.”

             A obrigação de responder pelos danos ambientais já deveria ter sido imposta aos agricultores faltosos há tempos, uma vez que não é justo individualizar os ganhos e socializar os prejuízos.

             A eventual elevação dos custos de produção dentro da propriedade rural é decorrência das faltas cometidas e dos impactos que a atividade JÁ GEROU sobre os ecossistemas e não estão atreladas, como querem os ruralistas, ao novo código florestal.

             O novo Código Florestal vem para tentar moralizar uma situação de caos e os faltosos devem entender que, ao final do processo, eles serão beneficiados com a possibilidade de manutenção das suas atividades.

marceloquintiere@gmail.com

MQuintiere@twitter.com

Ambientalistas x Ruralistas

            O Brasil é um país muito especial e singular.

            Temos vantagens competitivas na agricultura, em razão da disponibilidade de solos férteis e clima ameno.

           Possuímos uma indústria avançada em termos mundiais, embora ainda haja um grande espaço para o seu aprimoramento e consequente aumento da competitividade.

           Em um mundo com forte crise política, econômica e social ainda gozamos de uma estabilidade conquistada com esforço e criatividade.

           Apresentamos ao mundo o melhor do futebol (?) e um carnaval fantástico.

          Somos reconhecidos como sendo um povo amável, educado e tolerante, um exemplo de boa vizinhança e harmonia nas relações diplomáticas.

         Enfim….temos muito do que nos orgulhar.

         O problema é que, de tempos em tempos, insistimos em engrenar uma marcha à ré que pode “danificar” o nosso motor e tirar o nosso carro da pista.

         A recente celeuma envolvendo o novo Código Florestal, opondo interesses e antagonismos entre Ambientalistas e Ruralistas é um bom exemplo a ser analisado.

          De um lado temos os autodenominados Ambientalistas que defendem o meio ambiente e pretendem alcançar um estágio de desmatamento zero, ideia que conta com amplo espaço na mídia, e são bastante intransigentes na defesa de suas posições.

          A seu favor podemos destacar a luta pela conscientização da sociedade frente aos problemas ambientais como a poluição, proteção dos ecossistemas, preservação da biodiversidade, combate ao aquecimento global e outros temas extremamente relevantes.

          De outro lado temos os autodenominados Ruralistas, grupo com expressivo peso político e econômico, representado por grandes agricultores, pecuaristas, empresários rurais e pela agroindústria em geral.

           A seu favor podemos destacar o esforço produtivo, a expansão da fronteira agrícola, a modernização do campo, a geração de renda, empregos e tributos, a garantia de contínuos superávits em nossa balança comercial, dentre outros.

          Qualquer país deveria se orgulhar de contar com a participação de grupos tão importantes para o desenvolvimento sustentável.

          Mas a realidade é bem distinta.

          Os dois grupos adotam postura maniqueísta e contam com o discurso fácil para conquistar a população desavisada.

          Os Ruralistas acusam os Ambientalistas de desejarem o retrocesso, a fome e desemprego no campo, a queda da produção agrícola e de nossos necessários superávits comerciais.

          Já os Ambientalistas acusam os Ruralistas de adotarem práticas ambiental e socialmente insustentáveis que, em conjunto, podem conduzir ao comprometimento da biodiversidade, degradação dos ecossistemas, perda de solo fértil, êxodo rural e outros.

          Com o avançar do tempo a defesa dos interesses fica mais intransigente e, não raramente, presenciamos a escalada do tom em um debate que deveria ser eminentemente técnico.

           E os dois grupos (ou suas facções mais perniciosas) não toleram discordâncias: se um desavisado apresenta um posicionamento voltado ao consenso é imediatamente ignorado e repelido  em uma tentativa de demonizar o pobre infeliz.

          Vou correr o risco de me antepor aos “guerrilheiros ambientais” e aos “ogros capitalistas”, pois vivo em um país livre e democrático e TAMBÉM TENHO DIREITO À LIVRE MANISFESTAÇÃO DE PENSAMENTO.

           Não vejo com bons olhos a queda de braço que os dois grupos estão travando em torno do novo Código Florestal.  O acirramento dos ânimos nada constrói e afasta de forma irremediável dois grupos que, a princípio, são claramente complementares.

          Sim!

          Ambientalistas e Ruralistas são complementares não apenas no que concerne ao seu status de brasileiros em busca de um país melhor, mas, em especial, no que tange à interdependência de suas ações.

            É possível pensarmos em produção agropecuária e na agroindústria sem que estas estejam vinculadas à necessária proteção dos solos, das nascentes e do trabalhador rural?

           Não.

           As preocupações do verdadeiro ambientalista estão associadas à necessidade de garantir condições de produção mais harmônicas e equilibradas, evitando os gravíssimos problemas ambientais que podem ocorrer (erosão, assoreamento dos rios, perda da biodiversidade, queda na produção agrícola, etc.).

          Os Ruralistas deveriam entender que a luta dos Ambientalistas é, em síntese, favorável à produção equilibrada e contínua.

          De pouco adianta abrir novas fronteiras agrícolas se não forem adotadas medidas de proteção ambiental, pois o novo empreendimento tenderá a morrer no prazo de poucos anos.

          Acredito que os argumentos dos Ambientalistas são muito consistentes e as pesquisas científicas demonstram que é necessário, NO MÍNIMO, termos uma maior atenção quanto às técnicas empregadas pelo processo produtivo.

          Assim, seria mais prudente e inteligente ouvir, aprender e aprimorar os processos produtivos em consonância com a proteção ambiental.

           Por outro lado os Ambientalistas precisam descer do seu pedestal de Detentores Exclusivistas da Verdade. Um pouco de humildade ajuda sempre.

          Afinal, as conquistas dos Ruralistas estão presentes em nossos pratos, no controle de preços ao consumidor pela oferta consistente de alimentos, na criação de empregos, geração de renda, maior arrecadação de tributos, superávits comerciais muito expressivos, dentre outros.

           Limitar as operações produtivas é incorrer em grave risco de desequilíbrios sociais e econômicos, muito embora sejamos forçados a reconhecer os amplos espaços ainda existentes para o seu aperfeiçoamento.

           O novo Código Florestal representa um conjunto de ideais voltadas à proteção ambiental, em especial das florestas e dos recursos hídricos, promovendo o desenvolvimento sustentável em benefícios de todos.

          Entendemos que é desejável manter as leis sem modificações extremas por um longo período de modo a garantir a segurança jurídica, mas não podemos desconsiderar que a legislação está sujeita às alterações decorrentes da evolução da própria sociedade.

          Se não fosse assim não teríamos uma legislação que contemplasse situações tais como o divórcio, a anistia, o direito ao voto das mulheres e outros.

          Assim, precisamos compreender inicialmente que o novo Código Florestal não é semelhante a uma pirâmide feita para durar 5000 anos!

         Novas alterações na legislação virão a reboque de novas tecnologias e de futuras necessidades do país, o que nos conduzirá a novas rodadas de NEGOCIAÇÃO EQUILIBRADA.

          Não é possível negociar verdadeiramente se a cada dificuldade ou obstáculo que surge a opção mais comum for o conflito.  Afinal, ninguém gosta de ser confrontado, de ser objeto de difamação, de ver o seu trabalho desrespeitado.

           Ruralistas e Ambientalistas precisam entender que para negociar de fato é necessário saber ceder no momento adequado e na amplitude correta.

           Se ambos compreenderem sua complementaridade para os destinos e benefício do país a coisa ficará mais fácil…

            Em resumo: a verdade, o equilíbrio e o bom senso são geralmente encontrados no centro dos debates mais acalorados.

marceloquintiere@gmail.com

MQuintiere@twitter.com