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A Água em São Paulo

            Ao longo deste ano de 2014 acompanhamos com crescente apreensão a questão da falta da água no Estado de São Paulo e seus reflexos socioeconômicos e ambientais.

            A primeira questão que devemos considerar está associada às origens do problema, ou seja, quais os elementos que podem explicar o crescente déficit hídrico na região.

            Dizem os especialistas que há uma redução no volume de precipitação em diversas regiões do país. Assim, com a redução do volume de chuvas e a manutenção do consumo, há maior déficit.

            A redução das chuvas está, ao que parece, associada ao denominado “Efeito Estufa” e ao consequente processo de aquecimento global.

            Há uma certa lógica nesse argumento, uma vez que o aquecimento global já mostra suas faces em muitos pontos do planeta.

            O cientista brasileiro Antônio Nobre, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), concluiu em seu recente relatório intitulado “O Futuro Climático da Amazônia” que a floresta amazônica apresenta 20% de sua área degradada e outros 20% já desmatados.

         Esses percentuais elevados representam maior risco de que a floresta amazônica comece a falhar em seu importantíssimo papel de regulação do clima na América do Sul.

          O processo de bombeamento natural associado à floresta consiste na retirada de água das regiões mais úmidas do continente e seu transporte gradual, via atmosfera, até as outras regiões mais secas.

           Dessa forma a floresta ajuda a manter o equilíbrio, propiciando melhores condições climáticas naquelas regiões localizadas no interior e, também, ao sul de nosso continente.

           O equilíbrio climático representa um significativo exemplo daquilo que denominamos como um “serviço ambiental” prestado pelas florestas.

           É necessário compreender que as florestas são fontes não apenas de madeiras e minérios, mas, também, oferecem serviços menos visíveis e compreendidos, tais como a extensa biodiversidade e a regulação climática.

           Infelizmente esse frágil ecossistema está em risco em razão de nossa incapacidade de fiscalizar e impedir os processos de degradação da Amazônia.

            Se a degradação da floresta se mantiver nos níveis atuais haverá, em futuro próximo, uma quebra de sua capacidade de resistência.

           Em termos mais técnicos teríamos o rompimento da resiliência da floresta que não mais poderia retornar ao seu ponto de equilíbrio natural. Assim, é possível que alcancemos um ponto de “não retorno” onde os processos de degradação serão autoalimentados, ocasionando o colapso de todo o sistema.

           Todos seremos afetados, em maior ou menor grau, sendo que os impactos mais severos estarão reservados aos países mais pobres que não dispõem de capital ou tecnologia para superar o quadro futuro de dificuldades.

           Os impactos sobre a agricultura ocorrerão em nível mundial, uma vez que o risco de quebras de safras decorre da sinergia entre diversos elementos, tais como:

 1. Redução da área disponível para plantio.

            A disponibilidade física de terras aptas para o plantio deverá diminuir em função da ampliação dos processos de desertificação ou mesmo do alagamento de áreas litorâneas anteriormente usadas na agricultura.

2. Redução da adaptabilidade das espécies em razão das mudanças de temperatura, precipitação, umidade, etc.

           As mudanças climáticas podem ser traduzidas em alterações não apenas na temperatura local, mas também em termos da disponibilidade de água para os cultivos.

           Muitas cultivares de valor econômico são sensíveis às pequenas alterações nos padrões de temperatura e/ou precipitação, reduzindo ou paralisando seus processos de reprodução, germinação e crescimento vegetativo.

3. Surgimento de novas pragas e doenças.

           As alterações climáticas podem propiciar o surgimento de novas pragas, insetos e doenças em áreas onde anteriormente não existiam.

           Assim, uma pequena elevação na temperatura média ou uma mudança nos níveis de umidade local podem facilitar a introdução de insetos como vetores de doenças, reduzindo a produtividade.

           Da mesma forma haveria maior probabilidade para o surgimento de doenças transmitidas por fungos, vírus, nematoides, bactérias e outros.

            Sei que a resistência a esses argumentos é enorme….

           Mas o fato real é que aqui no Brasil o clima JÁ APRESENTA ALTERAÇÕES que nos conduzirão a um quadro de caos socioeconômico se não forem adotadas medidas emergenciais imediatamente.

            No caso específico do Estado de São Paulo acredito no êxito, a médio prazo, de algumas medidas importantes, tais como:

1. Programa de Replantio

            Atualmente é possível verificar, em todas as regiões do país, um processo insustentável de exploração das áreas agricultáveis. Nesse processo de exploração o plantio ocorre até que o trator “molhe suas rodas no rio”!

           Assim, as matas ciliares são destruídas e propiciam o assoreamento de rios e nascentes. O resultado é a seca e a redução da produtividade.

         Acredito que o país deveria estruturar um maciço programa de reflorestamento em todos os estados, de modo a permitir a recuperação ambiental.

          É importante destacar que os reflorestamentos devem ser heterogêneos, com a utilização de espécies nativas, evitando os malefícios dos reflorestamentos homogêneos (ex.: eucalipto, etc.).

2. Educação Ambiental

           O Brasil é um país estranho onde as liberdades e direitos são assimilados na velocidade da luz, enquanto os deveres e obrigações se locomovem no ritmo de um carro de bois.

           Para ilustrar a situação basta verificar que, em plena seca de São Paulo, muitas centenas de pessoas lavam tranquilamente suas calçadas e carros como se fosse uma atividade corriqueira.

            Essas pessoas reclamam da falta d’água em suas torneiras (o que seria um DIREITO fundamental), mas não enxergam que as suas próprias atitudes potencializam os problemas ambientais (o que implica em conhecer e cumprir com seus DEVERES).

          Porque o governo não investe em campanhas educacionais para racionalizar o consumo de água?

         A resposta é simples: os governantes têm receio de que uma campanha educativa com esse foco possa ser confundida pelos eleitores como um RACIONAMENTO com óbvios reflexos negativos nas urnas.

         Então, na visão míope desses políticos despreparados, é melhor garantir a falsa liberdade do consumo irracional ao invés de adotar medidas defensivas e preventivas cujos resultados são sustentáveis e perenes.

            Devemos, entretanto, lembrar que a educação ambiental é um processo cujos impactos positivos costumam ocorrer ao longo das décadas.

            As crianças e jovens de hoje que, bem orientadas e mais conscientes, serão os pais de amanhã.

             Precisamos implantar um ciclo virtuoso no país, não apenas sob o aspecto ambiental, mas também no que diz respeito a outros aspectos da vida nacional, tais como a moralidade, ética, etc.

            Assim, devemos começar ONTEM!!!!

           É imperativo que todos tenhamos consciência das engrenagens ambientais que regulam nosso planeta e de que as menores ações podem, quando adotadas em conjunto, gerar imensos benefícios.

3. Descentralização Econômica

           Ao observarmos a cidade de São Paulo somos induzidos a concluir que há uma enorme concentração populacional que se manifesta de diversas formas:

  • Sobrecarga nos serviços públicos (saúde, educação, saneamento, segurança, habitação, energia, etc.);
  • Aumento dos níveis de poluição em todas as suas modalidades, gerando doenças graves à população;
  • Maiores dificuldades de logística;
  • Aumento de custos; etc.

             Os estados deveriam investir em processo de descentralização econômica, gerando empregos, renda e tributos em outras regiões menos desenvolvidas.

            Reconhecemos que não haveria um decréscimo acentuado no consumo de água pelo conjunto das indústrias, mas o processo de descentralização reduziria o consumo excessivo em regiões específicas (ex.: Cidade de São Paulo e outras capitais de grande porte)

4.  Mecanismos de Comando e Controle 

          Em complementação ao processo de educação ambiental, cujos resultados necessitam de prazos mais dilatados, o governo poderia instituir os denominados mecanismos de “Comando e Controle”, penalizando o consumo excessivo por meio de cobrança de impostos.

         Os percentuais de cobrança deveriam crescer na medida em que fosse caracterizada a reincidência do infrator e os recursos arrecadados seriam necessariamente aplicados em projetos voltados ao controle dos desequilíbrios (ex.: projetos de reflorestamento, etc.).

 CONCLUSÃO

         Os sintomas da crise atual são reflexos de um descompromisso ambiental que vem ocorrendo ao longo de gerações, no Brasil e no mundo como um todo.

          A ideia de que o meio ambiente é um eterno provedor de matérias primas a custos reduzidos é equivocada e induz ao consumo desordenado e excessivo.

         O déficit hídrico pode ser combatido no Brasil com a adoção de um conjunto de medidas de curto e médio prazos, minimizando os reflexos sobre a nossa população.

         O único ingrediente que nos parece estar em falta é a chamada “vontade política”.

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HAIYAN

O nome é pequeno, mas seu significado permanecerá por muitas décadas marcado na memória de milhões de filipinos.

Na semana passada HAIYAN, um enorme e violentíssimo tufão com ventos de mais de 300 km/hora, devastou muitas cidades das Filipinas, causando a morte de mais de 12.000 pessoas e prejuízos de grande monta.

As cenas captadas pelos veículos de comunicação são conhecidas de todos:

  • Perda de vidas;
  • Destruição da infraestrutura local (prédios públicos, rede elétrica, abastecimento de água potável, rede de transporte, segurança, etc.);
  • Ondas de saques e violência nos centros urbanos atingidos;
  • Surgimento de focos de doenças;
  • Comprometimento da biodiversidade e da capacidade de resiliência de nossos ecossistemas[1];
  • Dificuldades de acesso às áreas mais remotas; e outras.

O que poucos destacam é que as terríveis cenas captadas tornam-se, infelizmente, mais comuns em nosso cotidiano.

Os furacões e tufões, perturbações na atmosfera terrestre, vêm ocorrendo com intensidade e frequência crescentes, ou seja, temos mais furacões de grande porte a cada ano.

Em que pese a característica de sazonalidade desses fenômenos e o fato de que sempre existiram, mesmo em épocas muito remotas, não podemos mais afastar a clara associação dessas perturbações atmosféricas da participação humana.

O último relatório do IPCC (Painel Internacional de Mudanças Climáticas, sigla em inglês) traz como conclusões (assustadoras) a certeza de que a ação humana é RESPONSÁVEL pela intensificação do efeito estufa causado pelo acúmulo de gases na atmosfera.

Os denominados gases do efeito estufa (GEE) geram um acúmulo de energia em forma de calor na nossa atmosfera que, em consequência, acabam por causar distúrbios no clima com diversas formas de manifestações:

  • Furacões e tufões de grande magnitude;
  • Intensificação de secas em algumas partes do planeta;
  • Aumento significativo da precipitação em outras áreas da Terra;
  • Elevação do nível dos oceanos;
  • Processo consistente de descongelamento na Antártida, Polo Norte, Groenlândia, Alpes, Andes, etc.

A elevação do percentual de gases do efeito estufa na atmosfera terrestre já supera os recordes conhecidos e seu controle nos parece a cada dia mais difícil e improvável.

O crescimento consistente e inexorável dos GEE agrega mais um complicador em nossa “equação climática”: Na medida em que a temperatura na Terra vai aumentando há a possibilidade do desencadeamento de novos fenômenos físicos que podem tornar a vida ainda mais incerta no futuro.

Falo, por exemplo, da acidificação dos oceanos com o aumento de CO² na atmosfera e os impactos que esse fenômenos pode causar sobre os corais e organismos marinhos em todo o mundo, em especial no que tange à redução no nível de reprodução de muitas espécies.

O bom senso nos induz a ter maiores cuidados com aquilo que não compreendemos integralmente.

Ninguém provoca um Pitt Bull, pois sabe dos riscos que podem ocorrer após um ataque. Mas, incrivelmente, olhamos para essas questões associadas às mudanças climáticas como se fossem meras especulações ou um roteiro para filmes de ficção.

A Organização das Nações Unidas vem alertando para o problema há décadas e promove atualmente a COP-19 (19ª conferência do clima da ONU), em Varsóvia, abrindo diálogos e dando os primeiros passos no debate de pontos polêmicos antes da decisão final sobre o acordo, que acontecerá em Paris daqui a dois anos.

O novo acordo deverá substituir o Protocolo de Kyoto e promover significativas alterações no controle das mudanças climáticas, impondo compromissos  que deverá ser implementados a partir de 2020.

Trata-se de um tempo demasiadamente longo para um desastre anunciado que já mostra seu potencial de destruição.

O aquecimento global não vai simplesmente parar de imediato, mesmo que sejam eliminadas todas as fontes de emissão de gases do efeito estufa.

Ainda que pudéssemos deixar todos os carros nas garagens durante as próximas décadas ou fechar as indústrias mais poluentes o aquecimento global continuaria a avançar por um longo período, tal com um transatlântico que desliga seus motores mas continua a avançar até a parada total.

Quando falamos de mudanças climáticas, falamos de impactos em escala global que não poupam ninguém em nenhum país: todos sofreremos algum tipo de limitação e não importa nosso nível de renda ou a nossa capacidade intelectual e tecnológica.

Para melhor ilustrar esse ponto destacamos alguns dos impactos que podem advir das mudanças climáticas:

  1. 1.     AGRICULTURA

Ao que tudo indica seremos forçados, ao longo das próximas décadas, a desenvolver uma estratégia de adaptação às mudanças climáticas, em especial quanto à produção agrícola.

Entendemos que a produção agrícola é um elemento fundamental e estratégico para garantir a manutenção das relações harmônicas entre os países. Assim, devemos buscar alternativas que possam garantir a adaptação da atividade agrícola e evitar os futuros surtos de fome.

Ao falarmos em produção agrícola devemos ter em mente que a agricultura é a resultante de uma série de elementos que atuam em conjunto, tais como a temperatura, umidade, presença de pragas e doenças, fertilidade dos solos, etc.

Quando ocorrem alterações circunstanciais em alguns desses componentes temos maior risco de redução das safras agrícolas, gerando maior vulnerabilidade alimentar para a população.

Mas o processo de aquecimento global não pode ser comparado a alguma alteração climática eventual, uma vez que atua em uma escala gigantesca em termos de efeitos e riscos.

Todos serão afetados, em maior ou menor grau, mas os impactos mais severos estarão reservados aos países mais pobres que não dispõem de capital ou tecnologia para superar o quadro futuro de dificuldades.

O risco de quebras de safras agrícolas decorre da sinergia entre diversos elementos, tais como:

a)     Redução da área disponível para plantio.

A disponibilidade física de terras aptas para o plantio deverá diminuir em função da ampliação dos processos de desertificação ou mesmo do alagamento de áreas litorâneas anteriormente usadas na agricultura.

b)    Redução da adaptabilidade das espécies em razão das mudanças de temperatura, precipitação, umidade, etc.

As mudanças climáticas podem ser traduzidas em alterações não apenas na temperatura local, mas também em termos da disponibilidade de água para os cultivos.

Muitas cultivares de valor econômico são sensíveis à pequenas alterações nos padrões de temperatura e/ou precipitação, reduzindo ou paralisando seus processos de reprodução, germinação e crescimento vegetativo.

c)     Surgimento de novas pragas e doenças.

As alterações climáticas podem propiciar o surgimento de novas pragas, insetos e doenças em áreas onde anteriormente não existiam[2]

Assim, uma pequena elevação na temperatura média ou uma mudança nos níveis de umidade local podem facilitar a introdução de insetos como vetores de doenças, reduzindo a produtividade.

Da mesma forma haveria maior probabilidade para o surgimento de doenças transmitidas por fungos, vírus, nematoides, bactérias e outros.

Há uma clara tendência a vivermos em um mundo não apenas mais quente, mas faminto

  1. IMPACTOS NO DESLOCAMENTO DE POPULAÇÕES

Obviamente o resultado desse quadro caótico é o acirramento dos conflitos humanos, uma vez que teremos um maior contingente populacional disputando recursos limitados (abrigo, alimentação, água, recursos naturais, etc.).

O processo de aquecimento global não atua em uma escala pontual ou limitada, mas, ao contrário, se traduz em intensas e amplas transformações que atingirão todos os países.

Aqueles países mais ricos e detentores de tecnologia de ponta, em especial no que concerne à geração de alimentos e energia, terão maiores possibilidades de se adaptar aos impactos.

Os países mais pobres, que já vivem um quadro de limitações angustiante, sofrerão ainda mais, sobrecarregando nosso sistema financeiro.  O resultado esperado é o conflito generalizado entre nações na busca de garantias de sobrevivência, com amplos deslocamentos de contingentes populacionais, em especial na África e na Ásia.

2. A DEGRADAÇÃO  DOS  OCEANOS

Os oceanos são imprescindíveis à proteção dos ecossistemas, além de possibilitar a manutenção de nosso planeta em condições adequadas de equilíbrio, estando associados a diversos serviços e benefícios ambientais:

  • Reprodução e desenvolvimento da biodiversidade estratégica com importância para as indústrias de alimentos, cosméticos, corantes, papel, etc.;
  • Produção de oxigênio;
  • Vias de comunicação e transporte;
  • Depuração e reciclagem de contaminantes e produtos químicos derivados das atividades humanas (ex.: vazamento de petróleo, esgotos industriais e resíduos de saneamento básico, dentre outros);
  • Produção de alimentos (15% da proteína animal consumida no mundo);
  • Regulação climática; e
  • Lazer, turismo e outros.

Em que pese a significativa importância dos oceanos é possível observar um contínuo processo de degradação ambiental que ameaça o equilíbrio dos ecossistemas e a manutenção dos serviços e benefícios ambientais supracitados.

Dentre os riscos mais sérios que ameaçam os nossos oceanos podemos destacar a acidificação pela concentração crescente de CO² que destrói os corais e demais áreas de reprodução e alimentação de muitas espécies marinhas.

Com a restrição ao seu processo reprodutivo e de desenvolvimento as espécies enfrentarão redução populacional, ocasionando insegurança alimentar a milhões de pessoas em todo o mundo, em especial naqueles países onde o pescado é, tradicionalmente, a base da alimentação.

Conclusão:

Os impactos do aquecimento global já são uma realidade incontestável e o tempo disponível para encontrarmos soluções negociadas já está bastante comprometido.


[1] A esse respeito sugiro verificar nosso artigo intitulado “Biodiversidade e Resiliência”, publicado em 9/2/2013 no Blogdoquintiere.

[2] A esse respeito sugiro a leitura do meu artigo nesse blog intitulado  “Aquecimento global, mais insetos e doenças”, datado de 8/1/2013.

A Assombração da Eternidade

O filme Tróia foi um grande sucesso do cinema, despertando nosso interesse pela história antiga e a nossa consciência de que a paixão é um forte catalisador do comportamento humano.

O que mais me chama a atenção naquele filme é a sua introdução, na qual o narrador faz a seguinte colocação:

                        “O homem é assombrado pela vastidão da eternidade. Então, perguntamos a nós mesmos:

                         Irão nossos atos ecoar através dos séculos?

                        Muito tempo depois que tivermos partido, vão ouvir nossos nome, vão querer saber quem éramos, com que coragem lutamos, o quanto amamos intensamente?”

Trata-se de uma questão profunda  que nos faz perceber o quanto somos diminutos em nossos pensamentos, angústias, percepções e projetos de vida.

Quem somos afinal?  O que deixaremos de legado às gerações futuras?

Um enorme percentual de nossos contemporâneos passará pela vida sem maiores conquistas, sem acrescentar nada de realmente inovador, sem construir um mundo melhor e mais digno.

Nada de mais nisso: a imortalidade e a construção de um mundo melhor pertencem a poucos de nós. Então, é muito provável que nossos esforços diários não nos levem a sermos lembrados em termos individuais.

Mas o que podemos concluir da nossa participação em termos coletivos?

Será que nossa geração, somada às gerações de nossos pais, filhos e netos, será lembrada pela eternidade?  Será que poderemos, como um conjunto, agregar conquistas para mudar o mundo, para proporcionar uma vida melhor a todos?

Sinceramente acredito que nesse quesito nossas chances de conquistar a eternidade são bem mais consistentes…

Entretanto, penso que nossas conquistas ecoarão pela eternidade como um elemento negativo, uma verdadeira ode à falta de bom senso e descompromisso com as gerações futuras.

Penso especificamente no processo de aquecimento global e nas sérias mudanças climáticas que poderão comprometer de forma irremediável o futuro do Homem, suas conquistas e o próprio planeta.

O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) apresentará em quatro etapas (entre o fim deste mês e outubro de 2014) aquele que já é considerado o diagnóstico mais completo feito até agora sobre o processo de aquecimento global e suas consequências sobre as mudanças climáticas.

O relatório estuda quatro cenários possíveis para as mudanças climáticas até 2100, os seus impactos para o planeta e as formas de enfrentá-los.

O primeiro volume, que será publicado em 27 de setembro, em Estocolmo, confirmará a responsabilidade do ser humano no processo de aquecimento do planeta, a intensificação de certos fenômenos climáticos e a revisão para cima do nível do mar.

O documento, fruto do esforço de 250 cientistas, reforçará o apelo por medidas concretas que possam garantir a elevação das temperaturas ao teto de 2 graus Celsius , uma meta adotada pelos 195 países que negociam sob a égide da ONU, mas que parece cada vez mais difícil de alcançar.

O IPCC é o alicerce sobre o qual são edificadas as estratégias e as políticas que vão garantir um maior controle sobre o processo de aquecimento global e as consequentes mudanças climáticas.

O Relatório do IPCC consolida o conhecimento científico confirmará a realidade das mudanças climáticas, tais como:

  • O aumento da temperatura global, que já alcançou 0,8ºC desde o começo do século XX;
  • A elevação do nível do mar;
  • O derretimento das geleiras o Ártico; e
  • A frequência das ondas de calor.

Al Gore, ambientalista renomado e ex Vice- Presidente dos Estados Unidos afirma que a crise se agravou porque “os eventos meteorológicos extremos vinculados à crise do clima se tornaram muito maciços e frequentes para serem ignorados”.

Ao que tudo indica seremos forçados, ao longo das próximas décadas, a desenvolver uma estratégia de adaptação às mudanças climáticas, em especial quanto à produção agrícola.

Entendemos que a produção agrícola é um elemento fundamental e estratégico para garantir a manutenção das relações harmônicas entre os países. Assim, devemos buscar alternativas que possam garantir a adaptação da atividade agrícola e evitar os futuros surtos de fome.

Ao falarmos em produção agrícola devemos ter em mente que a agricultura é a resultante de uma série de elementos que atuam em conjunto, tais como a temperatura, umidade, presença de pragas e doenças, fertilidade dos solos, etc.

Quando ocorrem alterações circunstanciais em alguns desses componentes temos maior risco de redução das safras agrícolas, gerando maior vulnerabilidade alimentar para a população.

 Mas o processo de aquecimento global não pode ser comparado a alguma alteração climática eventual, uma vez que atua em uma escala gigantesca em termos de efeitos e riscos.

Todos serão afetados, em maior ou menor grau, mas os impactos mais severos estarão reservados aos países mais pobres que não dispõem de capital ou tecnologia para superar o quadro futuro de dificuldades.

O risco de quebras de safras agrícolas decorre da sinergia entre diversos elementos, tais como:

a)     Redução da área disponível para plantio.

 A disponibilidade física de terras aptas para o plantio deverá diminuir em função da ampliação dos processos de desertificação ou mesmo do alagamento de áreas litorâneas anteriormente usadas na agricultura.

 b)    Redução da adaptabilidade das espécies em razão das mudanças de temperatura, precipitação, umidade, etc.

 As mudanças climáticas podem ser traduzidas em alterações não apenas na temperatura local, mas também em termos da disponibilidade de água para os cultivos.

Muitas cultivares de valor econômico são sensíveis à pequenas alterações nos padrões de temperatura e/ou precipitação, reduzindo ou paralisando seus processos de reprodução, germinação e crescimento vegetativo.

 c)     Surgimento de novas pragas e doenças.

 As alterações climáticas podem propiciar o surgimento de novas pragas, insetos e doenças em áreas onde anteriormente não existiam[1]

Assim, uma pequena elevação na temperatura média ou uma mudança nos níveis de umidade local podem facilitar a introdução de insetos como vetores de doenças, reduzindo a produtividade.

Da mesma forma haveria maior probabilidade para o surgimento de doenças transmitidas por fungos, vírus, nematoides, bactérias e outros.

Tendo em vista essas considerações iniciais, como seria a resposta dos nossos principais cultivos frente às mudanças climáticas?

 Em outras palavras o que podemos esperar quanto ao comportamento da agricultura brasileira em um cenário de mudanças climáticas?

 1)     Para as culturas de milho, arroz, feijão, algodão e girassol, haverá um forte impacto na Região Nordeste, com redução significativa das áreas atualmente com baixo risco de produção.

 Duas regiões poderão ser mais atingidas: toda a área correspondente ao agreste nordestino, hoje responsável pela maior parte da produção regional de milho e a região do cerrado nordestino, como sul de Maranhão, sul do Piauí e oeste da Bahia.

 2)     Na cultura da mandioca haverá um acréscimo geral da área de plantio com baixo risco.

 Esse ganho de produção ocorrerá principalmente na Região Sul devido à diminuição de área sujeita a geadas.

 3)     A Amazônia também poderá ser beneficiada pelo crescimento da área de plantio, mas em decorrência da diminuição dos excedentes hídricos (áreas menos sujeitas à inundações e alagamentos).

  4)     Para a cultura da soja as simulações mostram que a Região Sul e os cerrados nordestinos – sul do Maranhão, sul do Piauí e oeste da Bahia – serão fortemente atingidas.

 O impacto poderá ser de até 40% no pior cenário, sendo a causa principal o aumento da deficiência hídrica e o possível impacto dos veranicos mais intensos.

 5)     No caso do café a cultura poderá ser atingida por deficiência hídrica ou por excesso térmico nas regiões tradicionais.

 Os dois maiores produtores de café no Brasil, São Paulo e Minas Gerais, deverão perder condições de plantio em boa parte de seus territórios mas os cenários mostram a possibilidade de incremento de produção nas regiões do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul.

 6)     Os cenários são favoráveis à cultura da cana-de-açúcar.

 As regiões do Sul do Brasil, que hoje possuem limitação por alto risco de geadas, perdem essa característica, principalmente no Rio Grande do Sul, transformando-se, em 10 a 20 anos, regiões de alto potencial produtivo.

 As áreas de alto potencial produtivo atual, como o Centro-Oeste, continuam sendo de baixo risco, porém cada vez mais dependentes de irrigação complementar – cerca de 50 mm no período mais seco – para garantir a produtividade.

 Em todos os casos analisados, a possibilidade de produção de cana-de-açúcar, em regiões de baixo risco climático, aumenta em mais de 100%, com relação à situação de hoje.

 7)     Em termos econômicos, mantidas as características genéticas das plantas cultivadas hoje, e não se fazendo nenhum esforço de adaptação e mitigação, as perdas podem chegar a R$ 7,4 bilhões em 2020 e até R$14 bilhões em 2070.

 Esse cálculo é feito em função das áreas que deixam de ser de baixo risco climático e, em razão do aumento de temperatura, deslocam-se para a classe de alto risco climático.

 8)     A dinâmica climática deverá causar uma migração das culturas adaptadas ao clima tropical para as áreas mais ao sul do país ou mais para as zonas de altitudes maiores, para compensar a diferença climática.

 Poderá haver uma diminuição nas áreas de cultivo de frutas de clima temperado e um possível deslocamento das culturas de café e cana para áreas de maiores latitudes.

 A combinação desses impactos se traduz em maior vulnerabilidade para a população humana e milhares de outras espécies que não terão tempo e condições para sua adaptação ao novo cenário que se avizinha.

 A adaptação das espécies está associada a um conjunto de condicionantes tias como temperatura, umidade, presença/ausência de predadores, alimento em quantidade suficiente, abrigo, etc.

 A elevação da temperatura global traz um inimigo silencioso e do qual pouco se comenta: a proliferação de insetos, que podem atuar como vetores de doenças graves para o Homem (ex.: dengue e malária), além de transmitirem doenças às culturas agrícolas das quais dependemos.

 Os insetos constituem o grupo de animais mais diversificado do planeta e podem ser encontrados em todos os ecossistemas.

 Embora estejam largamente disseminados os insetos enfrentam limitações à sua expansão associadas ao fator climático, ou seja, os gradientes de temperatura impedem que os insetos possam proliferar livremente em algumas regiões/área.

  A temperatura tem influência fundamental na reprodução e sobrevivência dos insetos, com clara manifestação no total de gerações que eclodem durante o ano.

 A maioria dos modelos matemáticos indica que as alterações climáticas podem aumentar a distribuição de doenças transmitidas por vetores. Vejamos alguns exemplos:

a)     Dengue

Uma das projeções mais recentes prevê que até 2085, cerca de 50% a 60% da população mundial — algo em torno de 6 bilhões de pessoas — viverá em áreas de alto risco de transmissão de dengue.

 Em artigo publicado na revista Cadernos de Saúde Pública, elaborado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), pesquisadores da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz) apresentam um estudo que avaliou a relação entre variações climáticas e o risco de dengue na cidade do Rio de Janeiro.

 Os resultados apontaram que, entre os anos de 2001 e 2009, o aumento de 1°C na temperatura mínima em um mês ocasionou o aumento de 45% nos casos de dengue no mês seguinte, elevando o risco de dengue quando a temperatura é superior a 26°C, já que o vetor da doença se desenvolve melhor em temperaturas mais elevadas.

 b)    Cólera

 O mar mais quente também facilita a proliferação de microorganismos, como os zooplânctons, que servem como reservatórios do Vibrio cholerae, a bactéria da cólera.

Os trabalhos desenvolvidos em Bangladesh demonstraram que o aumento da temperatura no Pacífico provocado pelo El Niño tem relação direta com a incidência de epidemias de cólera na região, e que essa influência tem se tornado ainda mais intensa nas últimas décadas.

Estimativas mostram que aumentando em 1ºC a temperatura, o número de micróbios aumenta em até 10 vezes, elevando a probabilidade de disseminação da doença.

 c)     Malária

 De acordo com a Malaria Foundation a doença já é considerada endêmica em 91 países, colocando em risco 40% da população mundial.

 São 500 milhões de casos anuais, sendo que 90% ocorrem em países africanos, ocasionando aproximadamente 2,7 milhões de mortes.  Isso significa que a malária mata, a cada ano, mais do que a AIDS em 15 anos.

 d)    Espécies Vegetais

 As espécies vegetais também sofrerão com o aumento do número de pragas.

 A título de exemplo selecionamos a cochonilha do cafeeiro (Pseudococcus longispinus) que não suporta temperaturas superiores a 35ºC em condições de laboratório, ao passo que a sobrevivência de suas larvas alcançou 80% quando o gradiente de temperatura se manteve em torno de 20 a 25ºC.

 Obviamente o resultado desse quadro caótico é o acirramento dos conflitos humanos, uma vez que teremos um maior contingente populacional disputando recursos limitados (abrigo, alimentação, água, recursos naturais, etc.).

O processo de aquecimento global não atua em uma escala pontual ou limitada, mas, ao contrário, se traduz em intensas e amplas transformações que atingirão todos os países.

Aqueles países mais ricos e detentores de tecnologia de ponta, em especial no que concerne à geração de alimentos e energia, terão maiores possibilidades de se adaptar aos impactos.

Os países mais pobres, que já vivem um quadro de limitações angustiante, sofrerão ainda mais, sobrecarregando nosso sistema financeiro.

CONCLUSÃO

Há uma clara tendência a vivermos em um mundo não apenas mais quente, mas faminto.

O que fazer?

Acredito que o combate ao processo de aquecimento global enseja uma complexa negociação entre países e a concomitante adoção de estratégias globais associadas à:

a)     Pesquisa para desenvolvimento de novas fontes alternativas (limpas) de energia, substituindo gradualmente os combustíveis fósseis;

b)    Redução dos níveis de consumo;

c)     Identificação das áreas mais vulneráveis em termos globais, definindo as ações a serem tomadas para minimizar os impactos;

d)    Investimento maciço em pesquisa agrícola para desenvolvimento de espécies mais resistentes às mudanças climáticas (ex.: seca, solos mais pobres, presença de maior variedade de insetos nocivos, etc.).

 Se não adotarmos medidas consistentes seremos lembrados por toda a Eternidade como sendo a geração que mais contribuiu, apesar das pesquisas e alertas recebidos, com o processo de aquecimento global e destruição de nossa qualidade de vida.

 marceloquintiere@gmail.com


[1] A esse respeito sugiro a leitura do meu artigo nesse blog intitulado  “Aquecimento global, mais insetos e doenças”, datado de 8/1/2013.

PNRS – Usinas de Recuperação Energética (URE)

A Política Nacional de Resíduos Sólidos reúne um conjunto de princípios, objetivos, instrumentos, diretrizes, metas e ações adotadas pelo Governo Federal, isoladamente ou em regime de cooperação com Estados, Distrito Federal, Municípios ou particulares, com vistas à gestão integrada e ao gerenciamento ambientalmente adequado dos resíduos sólidos.

 A PNRS trouxe diversas inovações que poderão aperfeiçoar a gestão dos resíduos sólidos no Brasil, dentre as quais podemos destacar:

  •  Responsabilidade Compartilhada;
  •  Incentivo à Não Geração, Redução, Reutilização e Reciclagem;
  •  Gestão Integrada dos Resíduos Sólidos;
  •  Estímulo à implantação da Coleta Seletiva;
  •  Estímulo à Logística Reversa;
  •  Estímulo à Formação de Consórcios Municipais;
  •  Elaboração dos Planos de Gestão de Resíduos nas Esferas Administrativas;
  •  Elaboração dos Planos de Gerenciamento de Resíduos no âmbito da Iniciativa Privada;
  •  Incentivo à Implantação, Formalização, Aparelhamento e Capacitação de Cooperativas de Catadores de Resíduos;
  •  Estabelecimento de Prazo para Desativação dos Lixões.

 Uma das inovações trazidas pela PNRS está associada à possibilidade de estabelecermos a denominada Recuperação Energética, contemplada em seu § 1º, art. 9º, a seguir transcritos:

 Art. 9o Na gestão e gerenciamento de resíduos sólidos, deve ser observada a seguinte ordem de prioridade: não geração, redução, reutilização, reciclagem, tratamento dos resíduos sólidos e disposição final ambientalmente adequada dos rejeitos.

 § 1o Poderão ser utilizadas tecnologias visando à recuperação energética dos resíduos sólidos urbanos, desde que tenha sido comprovada sua viabilidade técnica e ambiental e com a implantação de programa de monitoramento de emissão de gases tóxicos aprovado pelo órgão ambiental.

 Em outras palavras a PNRS permite a transformação do “lixo” em energia com a utilização de tecnologias tais como a pirólise ou as Usinas de Recuperação Energética (URE).

 A transformação do “lixo” em energia é reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) como uma tecnologia aplicável ao Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), possibilitando a obtenção de Créditos de Carbono.

A ideia é simples de entender: quando o lixo é submetido à queima não há tempo suficiente para sua decomposição, ou seja, as bactérias não têm condições de degradar a matéria orgânica presente, minimizando a produção do metano.

Considerando que o metano é um Gás do Efeito Estufa (GEE) com grande impacto sobre o processo de aquecimento global, a sua eliminação reduz o seu impacto nocivo possibilitando que o projeto de recuperação energética possa auferir ganhos adicionais via concessão dos chamados Créditos de Carbono.

Assim, a Usina de Recuperação Energética pode gerar ganhos financeiros a partir da venda da energia ao sistema elétrico nacional e, também, através do recebimento dos créditos de carbono decorrentes de sua contribuição para a redução das emissões de gás metano para a atmosfera.

A União Europeia e a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) consideram as Usinas de Recuperação Energética como sendo uma tecnologia eficaz na economia de energia, bem como na redução das emissões de gases do efeito estufa.

Atualmente 15% dos resíduos domiciliares gerados no mundo são submetidos ao tratamento via Usinas de Recuperação Energética, o que representa um total de mais de 1 milhão de toneladas diárias de resíduos transformados em energia elétrica.

 A título de exemplo podemos destacar a tonelagem de resíduos sólidos que são processados anualmente por países desenvolvidos como a França e a Alemanha cujo processamento via URE alcança, respectivamente 13,7  e 20,0 milhões de toneladas.

 Na França o número de URE atinge 129 plantas em operação, ao passo que a Alemanha possui 72 plantas e a Itália apresenta 53 unidades.

 No Brasil ainda não temos nenhuma URE em operação, embora já se tenha notícia da construção acelerada de unidade em Barueri (SP), com capacidade para tratar 820 toneladas/dia de resíduos sólidos urbanos, permitindo a geração de 17 megawatts de energia elétrica.

 O processo de transformação dos resíduos sólidos em energia elétrica via URE possui algumas características interessantes:

  • Processa qualquer tipo de lixo, in natura e com alto teor de umidade, sem depender de tratamento prévio.
  • Possui eficiência energética e reduz o volume do lixo em aproximadamente 90%.
  • A temperatura de tratamento dos resíduos é sempre superior a 850°C, o que inibe a formação de furanos e dioxinas.
  • Dentre os resíduos gerados apenas de 1% a 2% são cinzas consideradas perigosas e que devem ser encaminhadas para aterro especial.

 O uso das URE possui vantagens significativas se for comparado ao emprego de Aterros Sanitários (cuja presença ainda é muito reduzida em nosso país):

  • Menor área de operação;
  • Proximidade com os centros geradores de resíduos com menor custo de transporte Gerador – URE;
  • Menor custo ambiental em decorrência da redução na emissão de Gases do Efeito Estufa (GEE) e na produção de chorume, uma vez que não há tempo para decomposição da matéria orgânica presente nos resíduos;
  • Geração de significativos montantes de energia elétrica;
  • Possibilidade de operação continuada ao longo de décadas, uma vez que os resíduos são eliminados ao invés de serem simplesmente acumulados nos aterros sanitários e/ou lixões.

  Conclusão

O tratamento dos resíduos sólidos é um desafio constante para a administração pública, mas representa, por outro lado, um amplo leque de oportunidades com claros ganhos socioeconômicos e ambientais.

 A utilização das URE deveria ser ampliada com o incentivo do Governo Federal, maximizando os ganhos em termos de redução das emissões de metano e os impactos deste sobre o processo de aquecimento global.

 Da mesma forma devemos ponderar que a geração de energia elétrica constitui um dos principais gargalos ao desenvolvimento econômico do país e o aproveitamento dos resíduos sólidos poderia garantir uma oferta firme e contínua de energia, dado o volume produzido diariamente (aproximadamente 210.000 toneladas/dia).

 marceloquintiere@gmail.com

Aquecimento Global e Conflitos Humanos

O aquecimento global e suas consequências em termos de mudanças climáticas constituem um dos temas centrais no debate entre as nações, em especial no que tange aos aspectos político, econômico e ambiental.

O processo de aquecimento global é um fato incontestável e, de acordo com os cientistas de renomados centros internacionais, não será possível obtermos uma redução nos níveis de temperatura nas próximas décadas.

 Esse cenário pessimista está amparado em dois argumentos:

a)     Os países ainda não encontraram um ponto de equilíbrio que contemple a ampla gama de interesses políticos e econômicos existentes, ou seja, ainda não podemos falar de um acordo real e eficaz em escala mundial para redução dos gases do efeito estufa.

As iniciativas anteriores tais como o Protocolo de Kioto ainda enfrentam resistência de países como os EUA, o que dificulta a sua efetiva implantação e a obtenção de resultados mais concretos.

 b)    O processo de aquecimento global possui condições ou “gatilhos” que podem ser disparados a qualquer momento, aprofundando os impactos. Em outras palavras o processo pode ser auto alimentado independentemente de nossas futuras ações ou acordos em nível mundial.

Dentre os impactos mais significativos associados ao processo de aquecimento global podemos destacar:

a)     Mudanças climáticas severas ocasionando secas, inundações e furacões de maior intensidade;

b)    Comprometimento da segurança alimentar em razão das perdas agrícolas significativas, penalizando os países mais pobres da África, Sudeste Asiático, América do Sul, América Central e Caribe[1];

c)     Comprometimento da biodiversidade e da capacidade de resiliência de nossos ecossistemas[2];

d)    Elevação do nível médios dos oceanos;

e)     Perdas de recursos pesqueiros pela acidificação dos oceanos[3].

O somatório desses impactos trará a necessidade de deslocamento de grandes contingentes populacionais em busca de proteção, segurança alimentar e perspectivas de vida.

No que tange à segurança alimentar acredito ser necessário destacar alguns aspectos importantes:

O risco de quebras de safras agrícolas decorre da sinergia entre diversos elementos, tais como:

a)     Redução da área disponível para plantio.

 A disponibilidade física de terras aptas para o plantio deverá diminuir em função da ampliação dos processos de desertificação ou mesmo do alagamento de áreas litorâneas anteriormente usadas na agricultura.

 b)    Redução da adaptabilidade das espécies em razão das mudanças de temperatura, precipitação, umidade, etc.

 As mudanças climáticas podem ser traduzidas em alterações não apenas na temperatura local, mas também em termos da disponibilidade de água para os cultivos.

Muitas cultivares de valor econômico são sensíveis às pequenas alterações nos padrões de temperatura e/ou precipitação, reduzindo ou paralisando seus processos de reprodução, germinação e crescimento vegetativo.

 c)     Surgimento de novas pragas e doenças.

 As alterações climáticas podem propiciar o surgimento de novas pragas, insetos e doenças em áreas onde anteriormente não existiam.

Assim, uma pequena elevação na temperatura média ou uma mudança nos níveis de umidade local podem facilitar a introdução de insetos como vetores de doenças, reduzindo a produtividade.

Da mesma forma haveria maior probabilidade para o surgimento de doenças transmitidas por fungos, vírus, nematoides, bactérias e outros.

 Obviamente o resultado desse quadro caótico é o acirramento dos conflitos humanos, uma vez que teremos um maior contingente populacional disputando recursos limitados (abrigo, alimentação, água, recursos naturais, etc.).

O processo de aquecimento global não atua em uma escala pontual ou limitada, mas, ao contrário, se traduz em intensas e amplas transformações que atingirão todos os países.

Aqueles países mais ricos e detentores de tecnologia de ponta, em especial no que concerne à geração de alimentos e energia, terão maiores possibilidades de se adaptar aos impactos.

Os países mais pobres, que já vivem um quadro de limitações angustiante, sofrerão ainda mais, sobrecarregando nosso sistema financeiro.

Há uma clara tendência a vivermos em um mundo não apenas mais quente, mas faminto.

O que fazer?

Acredito que em um primeiro momento devemos nos mobilizar para limitar o aquecimento global, postergando os seus impactos.  Essa meta pode ser alcançada com a adoção de estratégias globais associadas à:

a)     Pesquisa para desenvolvimento de novas fontes alternativas (limpas) de energia, substituindo gradualmente os combustíveis fósseis;

b)    Redução dos níveis de consumo;

c)     Identificação das áreas mais vulneráveis em termos globais, definindo as ações a serem tomadas para minimizar os impactos;

d)    Investimento maciço em pesquisa agrícola para desenvolvimento de espécies mais resistentes às mudanças climáticas (ex.: seca, solos mais pobres, presença de maior variedade de insetos nocivos, etc.).

  CONCLUSÃO

As mudanças climáticas estão associadas ao aquecimento global, um processo tido como irreversível em curto prazo, o que implica na necessidade urgente de adotarmos políticas eficazes de proteção.

O breve resumo dos impactos que poderão advir do aquecimento global permite verificar que nossa agricultura será fortemente afetada, com grande repercussão econômica e social.

Muitas de nossas áreas produtivas serão suprimidas, quer pela seca intensificada ou pela elevação de alguns centímetros no nível dos oceanos, e não há certeza quanto à possibilidade de que sejam substituídas por novas áreas alternativas.

A exploração de novas áreas para garantir a produção de alimentos nos obriga a uma grande inversão de recursos financeiros vinculados à complexa infraestrutura em termos de oferta de energia, estradas, silos, etc.

 Uma excelente linha de atuação seria o investimento em biotecnologia com vistas a desenvolver novas cultivares com maior resistência à elevação de temperatura e alterações em termos de umidade, ação de insetos, etc.

 No caso brasileiro caberia ao Governo Federal intensificar o apoio à EMBRAPA, uma instituição de excelência reconhecida mundialmente pelos avanços alcançados na pesquisa agrícola.

            marceloquintiere@gmail.com


[1]  A esse respeito sugiro verificar nosso artigo intitulado “Aquecimento Global: Mais Insetos e Doenças”, publicado em 8/1/2013 no Blogdoquintiere.

[2] A esse respeito sugiro verificar nosso artigo intitulado “Biodiversidade e Resiliência”, publicado em 9/2/2013 no Blogdoquintiere.

[3] A esse respeito sugiro verificar nosso artigo intitulado “Oceanos Ameaçados” e “Oceanos e Riscos Ambientais”, publicados, respectivamente em 29/10/2012 e 1/11/2012 no Blogdoquintiere.

O Mundo sem Vacas?

Na semana passada uma notícia do mundo tecnológico circulou pela mídia com grande impacto: cientistas desenvolveram carne artificial a partir de células – tronco.

O grupo da Universidade de Maastricht na Holanda desenvolveu o hambúrguer ao longo de cinco anos usando células do músculo do pescoço de duas vacas. – um projeto que custou quase 250 mil euros (R$ 762,5 mil).

As células foram colocadas numa solução de nutrientes para se transformar em tecido muscular que, em seguida, deu origem a pequenos filamentos de carne.

Eventualmente a produção de carne em laboratório poderá ajudar a alimentar o mundo e a combater as mudanças climáticas ao longo das próximas décadas.

O link entre a pecuária e o aquecimento global está associado à produção de metano durante o processo de digestão do rebanho bovino.

A cada dia os milhões de animais criados nas fazendas de todo o mundo lançam na atmosfera o metano (CH4), um gás do efeito estufa com um potencial muito mais nocivo do que o gás carbônico (CO²) e que contribui fortemente para o aquecimento global.

Os futurólogos já visualizam um futuro próximo onde as enormes fazendas de gado serão substituídas por fábricas de proteína sintética, com vantagens sociais, econômicas e ambientais bastante significativas.

Sob o ponto de vista social teríamos a utilização das áreas destinadas à pecuária (milhões de hectares em todo o mundo) destinadas à agricultura básica voltada à produção de alimentos tais como grãos, frutas, hortaliças, etc.

A agricultura é reconhecidamente mais intensiva em tecnologia e mão de obra do que a pecuária (ainda mais se considerarmos o aspecto extensivo da pecuária em muitos países), possibilitando a inserção de maior número de trabalhadores no mercado.

Além disso, a carne produzida in vitro teria maior condições de controle e oferecer melhor qualidade sanitária, eliminando o risco de disseminação de doenças graves como a “vaca louca”, aftosa, teníase, brucelose, tuberculose, etc.

A questão econômica também merece considerações na medida em que haverá uma profunda modificação na cadeia produtiva da carne .
De forma resumida não teríamos que adquirir enormes áreas para implantação das fazendas de gado, eliminando diversas atividades tais como:

• Derrubada de florestas nativas;
• Operações destinadas ao plantio da pastagem (destoca, aração, adubação, gradeação e plantio);
• Colocação de quilômetros de cercas;
• Produção de sementes de gramíneas cujas variedades sejam mais adequadas às diversas condições climáticas;
• Adubação periódica e tratos culturais para manutenção da qualidade dos pastos (aplicação de grandes quantidades de agrotóxicos, etc.);
• Rotação de pastos;
• Necessidade de construção de silos para estocar as gramíneas naqueles países com inverno mais rigoroso;
• Transporte do gado para abate;
• Construção dos abatedouros e frigoríficos; etc.

Quanto ao enfoque ambiental as mudanças previstas são tremendamente impactantes e podem auxiliar na melhoria das condições de vida do planeta, em especial se considerarmos os seguintes aspectos:

• Menores emissões de metano à atmosfera, reduzindo o seu reflexo sobre o aquecimento global;
• Redução no uso de agrotóxicos;
• Diminuição da contaminação de solo e água;
• Manutenção da vegetação nativa nas áreas que seriam alcançadas pela expansão da pecuária nas zonas de fronteira;
• Proteção às florestas e redução no ritmo de degradação da biodiversidade; etc.

Evidentemente não se imagina a extinção total de nossos rebanhos, uma vez que outras indústrias, tais como os curtumes , também são dependentes da pecuária.

Penso que o uso da tecnologia de ponta poderá nos trazer o grande benefício de PENSAR sobre as nossas opções de produção em ternos sociais, econômicos e ambientais, inserindo novos parâmetros de análise.

Será que precisamos realmente de áreas tão amplas para a atividade pecuária?

A expansão da atividade pecuária em zonas de fronteira é viável e recomendada, mesmo sob o forte risco ambiental que representa (eliminação de florestas nativas e degradação da biodiversidade)?

A terra não deveria ser utilizada de forma mais racional e rentável, inclusive sob o aspecto de fornecer oportunidades para todos?

Enfim: vejo com bons olhos o surgimento de novas linhas de pesquisa e considero que a melhor solução para nossos problemas ambientais passa pela racionalização de nossas atividades econômicas.

Para finalizar informo aos amantes do churrasco tradicional que a nova tecnologia ainda precisa superar problemas técnicos importantes na medida em que a carne produzida in vitro é branca pela ausência de sangue.

Aquecimento Global: Mitigar ou Adaptar?

Ao longo das últimas décadas os principais centros de pesquisa ao redor do mundo concluíram que o planeta vem enfrentando um processo gradual de aquecimento em razão das contínuas alterações na composição da nossa atmosfera.
A partir do acúmulo dos denominados gases do Efeito Estufa (CO², Metano e Óxidos de Nitrogênio, por exemplo) a atmosfera passou a concentrar mais calor, o que se traduz em significativas alterações e riscos para os ecossistemas, em especial as Mudanças Climáticas.
De acordo com o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) a origem do acúmulo dos gases do efeito estufa está vinculada claramente às atividades humanas, em especial as indústrias, a queima crescente de combustíveis fósseis, queimadas na Amazônia, e outras.
Ainda de acordo com as conclusões do IPCC o processo de aquecimento global continuará por algumas dezenas de anos até que seja possível verificar uma tendência à reversão, ou seja, mesmo que seja possível interromper a emissão de gases estufa para a atmosfera ainda haverá aquecimento.

Se o processo de aquecimento global continuará por mais algumas décadas é forçoso concluir que os impactos que se acumulam atualmente serão ainda mais intensos no futuro, o que se traduz em maiores riscos para os ecossistemas (ex.: secas, inundações, tempestades, comprometimento da biodiversidade, descongelamento, elevação do nível dos oceanos, etc.).
Assim, resta saber qual seria a melhor alternativa para fazer frente às mudanças climáticas que nos ameaçam, ou seja, qual o melhor caminho a ser adotado.
De modo geral podemos destacar duas opções: a Mitigação e a Adaptação.

Inicialmente devemos destacam que nenhuma das duas alternativas é isenta de impactos, ou seja, em ambas haverá custos envolvidos e algum nível de perda para a sociedade e suas relações de produção e consumo.
A estratégia denominada MITIGAÇÃO se traduz em um conjunto de medidas que, adotadas hoje, contribuirão para minimizar os impactos futuros.
Um exemplo evidente consistiria na redução das quantidades de gases do efeito estufa que lançamos na atmosfera. Com menores volumes de CO² e metano teríamos menor propensão ao aquecimento global.
Em outros termos poderíamos comparar a mitigação com um “freio” no processo de aquecimento global.
A estratégia denominada ADAPTAÇÃO se traduz em um conjunto de medidas que poderão ser adotadas futuramente com vistas a adaptar nosso modo de vida à realidade de um mundo em transformação pelas mudanças climáticas.
Um exemplo de adaptação seria a construção de barragens para conter a elevação do nível dos oceanos nas áreas mais susceptíveis a alagamentos; ou poderíamos pensar na estruturação de amplos programas voltados à garantia do fornecimento de água e alimentos nas áreas atingidas pelos eventos climáticos extremos no futuro, tais como furacões ou secas intensas.
Em outros termos poderíamos comparar a adaptação à instalação de um alarme contra roubo após a primeira ocorrência.
Agora que já nos dedicamos a conceituar e exemplificar as duas estratégias resta a questão sobre qual das duas alternativas seria a mais adequada. Em outras palavras: conhecendo o processo de aquecimento global e seus terríveis impactos qual o melhor caminho a seguir?

Na realidade há um “trade off” entre a MITIGAÇÃO e a ADAPTAÇÃO que passam a funcionar como uma gangorra: na medida em que privilegiamos uma alternativa a outra passa a receber menor destaque (recursos).

Embora as duas alternativas envolvam custos financeiros e impliquem em algum nível de perda para a sociedade devemos destacar alguns aspectos muito importantes que nos ajudarão de definir a melhor alternativa a seguir.

Essa ponderação entre Mitigação e Adaptação representa um aspecto extremamente importante, uma vez que a escolha que fazemos HOJE repercutirá por MUITAS DÉCADAS em termos de efeitos e possibilidades de garantir nossos níveis de qualidade de vida.
No caso da Mitigação temos um problema grave e difícil de resolver.
Não sabemos valorar os benefícios reais e efetivos que serão alcançados com a redução de determinado volume de gases do efeito estufa lançados na atmosfera.

Em outros termos não sabemos com absoluta certeza os benefícios que serão obtidos com a redução de X toneladas diárias de CO² lançadas à atmosfera a cada ano sobre a elevação dos oceanos, o nível de descongelamento, as inundações, secas intensas, ondas de calor, destruição da biodiversidade, acidificação dos oceanos, etc.
Sabemos que há uma interligação entre a concentração de CO² atmosférico e a elevação da temperatura e, por consequência, com todos os eventos listados anteriormente, mas é extremamente difícil atribuirmos um valor econômico aos benefícios futuros que poderiam ocorrer após a redução do CO² na atmosfera.

Um exemplo: se for possível reduzir a concentração de CO² na atmosfera para níveis existentes em 1970 a temperatura cairá de imediato ou a redução se verificará apenas após 10 ou 20 anos?
Em caso de ocorrer uma redução na temperatura do planeta poderemos evitar a ocorrência de grandes tempestades e furacões tais como o Katrina? Qual a margem de segurança quanto a essa questão?
Qual o ganho econômico que poderíamos observar em um mundo com menor ocorrência de secas intensas, descongelamentos e furacões? Um bilhão de dólares ao ano?
Assim, chegamos à questão central da Mitigação:
Vale a pena, em termos financeiros, investir “X” bilhões de dólares para reduzir os gases do efeito estufa na atmosfera?

É razoável modificarmos todo o processo produtivo atual, inclusive com a transição para outras formas de energia limpa (solar e eólica), a um custo extremamente elevado se não podemos sequer quantificar os benefícios futuros?

Muitos formuladores de políticas econômicas (inclusive aqueles de países ricos) argumentam que seria melhor esperar os efeitos e atuar pontualmente na medida em que fossem identificados os efeitos nocivos do aquecimento global.

Nesse caso partiríamos para uma estratégia mais centrada na ADAPTAÇÃO aos impactos.
A estratégia da Adaptação possui a grande vantagem de possibilitar a alocação de recursos econômicos nos locais onde são mais necessários e urgentes (crises ambientais tais como furacões, secas, etc.).

Na Adaptação podemos ajustar os efeitos das mudanças climáticas e sabemos com maior certeza quanto custará cada uma das ações desenvolvidas (combate à fome, logística para salvamentos, construção de barragens, remoção de pessoas das áreas atingidas, etc.).
Entretanto essa alternativa também apresenta seríssimos problemas!

Em primeiro lugar devemos considerar que o processo de aquecimento global tende a se auto alimentar na medida em que a temperatura se eleva. Em outras palavras a elevação da temperatura pode precipitar novos fenômenos climáticos cujos impactos sobre o meio ambiente sequer são conhecidos na sua real profundidade.
Sendo assim, o risco de enfrentarmos novos e maiores impactos seria maior e mais concreto.
Outro problema de apostarmos as nossas fichas exclusivamente nas técnicas de Adaptação é que não há recursos financeiros, logísticos ou tecnológicos para enfrentarmos todas as diversas manifestações associadas às mudanças climáticas a um só tempo em todos os locais.

A questão da escassez de recursos financeiros é inquestionável e pode ser observada a partir da dificuldade dos países em superar os impactos da crise econômica mundial iniciada em 2008.
Simplesmente não há recursos para todos a um só tempo. Podemos enviar ajuda humanitária par um país como a Somália em razão de uma seca intensa ou para o Haiti após um grande terremoto, mas não podemos atender às demandas de 60 ou 80 países a um só tempo!
Na falta de recursos suficientes teríamos de optar entre quais países ou regiões salvar no caso da ocorrência de eventos climáticos extremos.

Do seu ponto de vista qual país deveria ser objeto de uma ação humanitária imediata, intensa e eficaz:
(a) Etiópia, enfrentando secas intensas;
(b) Bangladesh, envolvida com o deslocamento de milhões de pessoas pela elevação do nível dos oceanos;
(c) Haiti, com a passagem de um furacão categoria F5;
(d) França, com uma onda de calor de grandes proporções como aquela ocorrida em 2003 que matou mais de 35.000 pessoas;
(e) Estados Unidos, com a perda de grandes áreas de plantio de grãos em decorrência de secas intensas.

Como se verifica essas questões envolvem considerações de cunho não apenas econômico, mas, acima de tudo, ético e moral.
Você gostaria de ser Deus a ponto de decidir quem receberia os escassos recursos financeiros para sobreviver aos impactos das mudanças climáticas? Acho que não…
Outro problema associado à alternativa da Adaptação é o fato de não termos certeza quanto à adequação das medidas que serão adotadas.

Conclusão

Devemos ter em mente que nossa capacidade de Adaptação é FINITA!

Ou seja:
a) A área a ser socorrida é, de fato, aquela onde os impactos são mais agudos?
b) Temos recursos financeiros e humanos suficientes para atuar pelo tempo necessário?
c) A logística a ser utilizada foi afetada pelos impactos das mudanças climática (ex.: grandes furacões e enchentes destruindo estradas e ferrovias);
d) Temos capacidade tecnológica para minimizar os impactos?
e) Onde devemos alocar nossos recursos e energia para obtenção dos melhores resultados?
f) Quem sofre e quem paga por essas escolhas?
g) A Adaptação é o paraquedas dos países ricos?

Na realidade devemos pensar sempre nas duas estratégias de forma complementar, mas alocar nossos esforços inicialmente na Mitigação para, nos futuros casos de emergência (que certamente ocorrerão), introduzir as medidas de Adaptação onde se fizerem necessárias.
A única certeza quanto ao futuro é que o grau de incerteza está crescendo.

marceloquintiere@gmail.com