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Impactos Ambientais – A Cadeia Produtiva da Carne

Toda e qualquer atividade econômica possui estreita vinculação com o meio ambiente.

 A associação entre a atividade econômica e o meio ambiente pode ser observada nas seguintes dimensões:

  •  Aumento da demanda sobre bens e serviços ambientais (ex.: água, solo, oceanos, biodiversidade, etc.);
  •  Geração de resíduos e/ou processos poluentes (ex.: indústria de produtos químicos, resíduos da construção civil, etc.);
  •  Produção de Passivos Ambientais que podem vir a comprometer o meio ambiente (ex.: barragens de resíduos químicos, tanques em postos de combustíveis, etc.).

 A minha intenção é elaborar uma análise acerca de alguns segmentos econômicos relevantes, destacando o processo econômico sob o ponto de vista ambiental, os impactos sobre o meio ambiente e as medidas corretivas que devemos adotar para minimizar os problemas detectados.

 Neste artigo analisaremos a Cadeia Produtiva da Carne

Desde os tempos imemoriais o consumo de carne fortaleceu os laços entre o Homem primitivo e seu grupo social. Durante o longo processo de evolução da nossa sociedade passamos por diversos estágios para conquistar nossa segurança alimentar

Inicialmente contávamos com a caça rudimentar, posteriormente substituída pela criação de animais em cativeiro e, mais recentemente, podemos desenvolver experimentos associados à engenharia genética para aumentar a resistência às doenças e a propensão ao ganho de peso.

Assim, podemos afirmar que o nosso churrasco dos finais de semana está garantido pela conjunção de alguns componentes importantes:

  • O extraordinário crescimento dos rebanhos ao longo das últimas décadas;
  • A contínua pesquisa agropecuária voltada ao aprimoramento das espécies quanto à precocidade, maior propensão ao ganho de peso e maior resistência às doenças; e
  • O investimento maciço em infraestrutura e logística de abastecimento (abatedouros, frigoríficos, agroindústrias diversas, transporte intermodal, empresas atacadistas, empresas varejistas, etc.).

Ao longo das últimas décadas o Brasil estruturou uma gigantesca cadeia produtiva da carne capaz de garantir empregos, renda, tributos e volumes crescentes na produção de alimentos a um preço (ainda) razoavelmente acessível, beneficiando amplas camadas da população.

O sucesso foi tão expressivo que o Brasil assumiu em 2008 a posição de maior exportador mundial de carne bovina.

Embora o sucesso seja inegável há uma pergunta ainda nos aflige: o que estamos realmente comendo?

Não falo apenas quanto à identificação do tipo de carne (aves, bovinos, suínos, ovelhas, etc.) ou do tipo de corte (asa, peito, lombo, pernil ou filé).

Nosso interesse é verificar alguns impactos ambientais associados à cadeia produtiva da carne de modo a inserir essas externalidades nas análises que são realizadas quanto à viabilidade do segmento no Brasil

Quais são os impactos ambientais associados à cadeia produtiva da carne?

Inicialmente devemos considerar que a cadeia produtiva da carne engloba uma série de atividades vinculadas não apenas no setor primário da economia, mas que repercutem nos setores industrial e de serviços.

Devemos observar que, ao tratar dos impactos ambientais da atividade pecuária, precisamos levar em consideração as etapas “dentro das fazendas” e as etapas “dentro das agroindústrias”, bem como os impactos decorrentes daquelas etapas associadas ao setor de serviços, tais como o transporte marítimo, etc.

No âmbito das atividades agropecuárias podemos destacar alguns impactos relevantes, tanto na esfera ambiental quanto no campo social:

  • Desmatamento

No Brasil ainda convivemos com um considerável percentual de fazendas que utilizam pecuária extensiva, ocupando áreas muito extensas de pastagens com baixa capacidade de suporte (1,5 a 2,0 animais por hectare).

Em países mais avançados os rebanhos são continuamente aprimorados a partir de pesquisas voltadas ao melhoramento genético com o objetivo de propiciar maior ganho de peso, maior resistência às doenças e maior precocidade.

Assim, o crescimento do rebanho naquelas regiões com menor emprego da tecnologia de ponta está associado à abertura de novas áreas, gerando um processo de desmatamento intenso e insustentável.

Com o processo de desmatamento surgem os problemas ambientais já conhecidos: erosão, perda da biodiversidade, comprometimento das nascentes, assoreamento de rios, etc.

  •  Comprometimento da Biodiversidade

O plantio de grandes áreas com uma só cultura em detrimento do ecossistema nativo afeta a biodiversidade e favorece o surgimento de pragas e doenças.

Há que se destacar que essas pragas e doenças não se manifestavam em termos econômicos anteriormente, o que pode ser explicado em razão do equilíbrio biológico existente no ecossistema original.

Na medida em que alteramos a biodiversidade alguns predadores são eliminados da cadeia alimentar e o ecossistema local fica desequilibrado, com a ampliação da população de algumas pragas e insetos.

A solução mais comum e rápida consiste em aplicar maciças doses de agrotóxicos nas áreas afetadas, tais como inseticidas, herbicidas, fungicidas, etc.

  • Uso equivocado de adubação química

O uso da adubação química deve ser conduzido em conformidade com as reais necessidades das pastagens, evitando a aplicação excessiva de nutrientes, o que pode vir a prejudicar a fertilidade do solo, comprometer a biodiversidade e contaminar rios e águas subterrâneas.

A questão dos agrotóxicos é muito séria.

A Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO) desenvolveu um dossiê bastante detalhado acerca do uso indiscriminado dos agrotóxicos e dos efeitos decorrentes para os ecossistemas e saúde humana, dentre os quais podemos destacar:

a) Nos últimos três anos o Brasil vem ocupando o lugar de maior consumidor de agrotóxicos no mundo, alguns deles já proibidos em outros países.

b) Em 2010, o Brasil representou 19% do mercado mundial de agrotóxicos, à frente dos EUA, que representou 17%.

c) As maiores concentrações de utilização de agrotóxicos coincidem com as regiões de maior intensidade de monoculturas de soja, milho, cana, cítricos, algodão e arroz.

d) Na última safra o mercado nacional de venda de agrotóxicos movimentou 936 mil toneladas de produtos.

e) A quantidade de fertilizantes químicos por hectare chama a atenção na soja (200 kg/ha), no milho (100 kg/ha) e no algodão (500 kg/ha)

No âmbito da agroindústria temos, também, alguns impactos ambientais que merecem uma avaliação mais criteriosa, dentre os quais destacamos:

  • Consumo e Contaminação da água

As atividades econômicas dependem da utilização da água, seja nos seus processos produtivos (resfriamento de máquinas, sistemas de refrigeração de ambientes, composição final de produtos como cervejas e refrigerantes, esgotamento de resíduos, etc.) ou para a simples limpeza das instalações.

O crescimento das atividades industriais ocasionou maior consumo de água e o comprometimento crescente dos níveis de qualidade daquele recurso natural.

Devemos considerar que muitos processos industriais geram resíduos com grande potencial degradador sobre o meio ambiente e, quando descartados de forma equivocada e ilegal nos rios e demais corpos hídricos, podem ocasionar impactos irreversíveis.

Ao longo das últimas décadas a maior conscientização da sociedade quanto à poluição industrial e ao uso racional dos recursos obrigou as indústrias a desenvolver processos de reutilização da água em seus processos produtivos, inclusive no que concerne ao tratamento dos resíduos antes do descarte.

Na agroindústria em especial temos o processamento de produtos vegetais e animais com a geração de resíduos que devem ser tratados.

A título de exemplo destacamos a indústria do couro, um dos componentes da cadeia produtiva da carne, com a participação de centenas de empresas e elevado potencial poluidor.

Para cada 1.000kg de pele bovina temos, em média, 250 kg de couros acabados e 600 kg de resíduos sólidos que representam um grande potencial poluidor, tais como:

  • Gorduras,
  • Restos de pele
  • Tecido muscular
  • Sangue
  • Pelos
  • Produtos químicos (soda cáustica, ácidos, fungicidas, solventes, sais, corantes, óleos, resinas, tintas, etc.).

A indústria do curtume apresenta um elevado consumo de água, em média 30 m³ para cada tonelada de pele processada, o que pode contribuir para o desequilíbrio hídrico em alguns casos.

Além do consumo de água temos de considerar o seu descarte em condições insatisfatórias aumentando a poluição hídrica e os impactos sobre os ecossistemas.

Os impactos mais comuns observados são:

  • Odor desagradável;
  • Contaminação de águas superficiais e subterrâneas em razão da carga orgânica dos efluentes;
  • Contaminação do solo;
  • Aumento da DBO (Demanda Bioquímica de Oxigênio) e da DQO (Demanda Química de Oxigênio), comprometendo a biodiversidade local;
  • Envenenamento dos peixes pela elevada carga de matéria orgânica e produtos químicos;
  • Atração de vetores de doenças como ratos, insetos, etc.

No âmbito do setor de serviços temos outros impactos ambientais que devem ser contemplados em nossas análises, dentre os quais destacamos:

  • Transporte com a utilização de diversos modais (trens, caminhões, navios, etc.) e o consumo de combustíveis fósseis, acelerando o processo de aquecimento global e a própria contaminação dos ecossistemas.
  • Geração de grandes volumes de resíduos sólidos pós-consumo, em especial restos de alimentos e embalagens que devem ser encaminhados à destinação final ambientalmente sustentável (reciclagem ou queima para geração de energia) em conformidade com a Lei n.º 12.305/2010 (Política Nacional de Resíduos Sólidos).

Evidentemente não temos a intenção de contemplar todos os impactos gerados pela cadeia produtiva da carne neste documento, dada sua extensão e complexidade.

Os impactos são numerosos e severos, inclusive alcançando outras esferas além das questões de cunho ambiental.

Como exemplo podemos destacar a preocupante questão associada ao trabalho escravo e ao trabalho infantil em muitas fazendas do interior cujo acesso é bastante difícil, limitando a atuação da fiscalização governamental.

Conclusão

A cadeia produtiva da carne representa uma conquista nacional e está amparada no trabalho e dedicação de pesquisadores, empresários e trabalhadores ao longo de muitos anos.

Da mesma forma devemos considerar que a cadeia produtiva da carne constitui uma garantia estratégica quanto a dois aspectos:

a)     Segurança Alimentar

b)    Fonte de Superávit Comercial.

Embora o segmento seja muito importante e representativo no âmbito econômico e social não podemos desconsiderar a possibilidade de contínuo aperfeiçoamento de suas atividades, limitando os impactos negativos.

Nesse sentido entendemos necessário avaliar a cadeia produtiva da carne em sua integralidade, inclusive no que tange à inserção da temática ambiental em nossas análises de viabilidade de projetos e políticas governamentais para o segmento.

marceloquintiere@gmail.com

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Impactos Ambientais – Curtumes

Depois de muitos quilômetros de árdua caminhada pelas ruas de Brasília o meu sapato social não resistiu e me brindou com um pequeno furo.

Entre o reforma duvidosa na esquina e a felicidade do consumo imediato confesso que sucumbi à tentação e parti contente em busca de um novo par de sapatos de couro. Enquanto testava as opções de modelo passei a observar o movimento da sapataria e os demais consumidores.

A loja estava lotada e oferecia dezenas de produtos tais como carteiras, cintos, sapatos, maletas, sandálias e outros.  Imediatamente lembrei-me das dezenas de bois que contribuíram com aquela euforia de consumo.

Passei a questionar, então, os impactos ambientais da indústria do couro.

Sabemos que toda e qualquer atividade econômica possui estreita vinculação com o meio ambiente.

A associação entre a atividade econômica e o meio ambiente pode ser observada nas seguintes dimensões:

  • Aumento da demanda sobre bens e serviços ambientais (ex.: água, solo, oceanos, biodiversidade, etc.);
  • Geração de resíduos e/ou processos poluentes (ex.: indústria de produtos químicos, resíduos da construção civil, etc.);
  • Produção de Passivos Ambientais que podem vir a comprometer o meio ambiente (ex.: barragens de resíduos químicos, tanques em postos de combustíveis, etc.).

Este artigo analisará a indústria do couro, destacando o processo industrial sob o ponto de vista ambiental, os impactos sobre o meio ambiente e as medidas corretivas que podem ser adotadas para minimizar os problemas detectados.

A Importância do Setor

De acordo com dados da FAO relativos ao ano de 2010 a participação brasileira no mercado mundial de couros alcançou aproximadamente 14%, indicando a importância do setor sob o ponto de vista socioeconômico.

O Ministério do Trabalho apontava um total de 749 estabelecimentos voltados às atividades de curtimento e outras preparações de couro, concentrados nos estados do Rio Grande do Sul e de São Paulo com 30% e 21,2%, respectivamente.

Em termos da geração de empregos o setor de couros, aqui entendido como curtimento e outras operações, era responsável por 39.400 empregos em 2010, ainda de acordo com os dados oficiais do Ministério do Trabalho, sendo que mais da metade das vagas estão concentradas nos estados do Rio Grande do Sul (34,8%) e de São Paulo (17,5%).

O setor foi responsável pela geração de US$ 2 bilhões em exportações no exercício de 2010, o que significou aproximadamente 0,8% do total de exportações do país. De acordo com os dados oficiais da SECEX os maiores importadores do nosso produto são: Itália, China e EUA.

Se considerarmos a indústria de curtume dentro de uma perspectiva associada ao setor calçadista os números são inda mais representativos, com movimento de US$ 21 bilhões, mais de 10.000 indústrias e geração de mais de 500.000 empregos.

Impactos Ambientais Potenciais

A indústria do curtume tem como objetivo transformar a pele dos animais em couro, sendo considerada muito poluente, o que obriga à elaboração do Estudo de Impacto Ambiental (EIA), conforme estabelece a Resolução CONAMA n.º 237/97.

Para fins didáticos podemos dividir a produção do couro em três (3) etapas:

a)     Ribeira:

  •  Objetiva limpar as peles;
  • Elimina as partes que não serão utilizadas;
  • Prepara a pele para receber os produtos químicos nas fases de curtimento e acabamento;
  • Utiliza produtos tais como: cal, sulfeto de sódio, cloreto de sódio, aminoácidos;
  • Grande consumo de água gerando elevada produção de efluentes líquidos;

 b)    Curtimento:

  •  Transforma a pele em couro (mais estável e não putrescível);
  • Pode usar produtos minerais (sulfato de cromo), vegetais (taninos) ou sintéticos (formol);
  • As águas residuais são escuras e ácidas em razão da utilização de tanino e sais.

 c)     Acabamento:

  •  Complementa a etapa de curtimento;
  • Confere ao couro propriedades de cor, resistência, maciez, impermeabilidade, elasticidade, etc.
  • Dá o aspecto final ao produto.

Para cada 1.000kg de pele temos, em média, 250 kg de couros acabados e 600 kg de resíduos sólidos que representam um grande potencial poluidor, tais como:

  •  Gorduras,
  • Restos de pele
  • Tecido muscular
  • Sangue
  • Pelos
  • Produtos químicos (soda cáustica, ácidos, fungicidas, solventes, sais, corantes, óleos, resinas, tintas, etc.).

 A indústria do curtume apresenta um elevado consumo de água, em média 30 m³ para cada tonelada de pele processada, o que pode contribuir para o desequilíbrio hídrico em alguns casos.

 Além do consumo de água temos de considerar o seu descarte em condições insatisfatórias aumentando a poluição hídrica e os impactos sobre os ecossistemas.

 Os impactos mais comuns observados são:

  •  Odor desagradável;
  • Contaminação de águas superficiais e subterrâneas em razão da carga orgânica dos efluentes;
  • Contaminação do solo;
  • Aumento da DBO (Demanda Bioquímica de Oxigênio) e da DQO (Demanda Química de Oxigênio), comprometendo a biodiversidade local;
  • Envenenamento dos peixes pela elevada carga de matéria orgânica e produtos químicos;
  • Atração de vetores de doenças como ratos, insetos, etc.

 Conclusão

O potencial poluidor de um curtume com capacidade para processar 3000 peles/dia é equivalente àquele gerado por uma cidade com população de 85.000 habitantes.

Os efluentes líquidos devem ser tratados em diversas etapas para remoção do cromo e demais componentes orgânicos, de modo a promover o seu enquadramento nas normas ambientais.

Os curtumes devem, também, buscar alternativas voltadas à redução do volume de água a ser empregada, evitando, na medida do possível, o uso de temperaturas elevadas no processo de ribeira.

Os efluentes gasosos (amônia e gás sulfídrico) devem ser removidos com o emprego de soluções depuradoras.

O uso do cromo requer grande cuidado no manuseio e descarte, uma vez que possui propriedades cancerígenas, devendo ser recuperado para reutilização uma vez que esse procedimento não afeta a qualidade do couro.

 Bibliografia Consultada

Banco do Nordeste do Brasil Manual de Impactos Ambientais – Orientações Básicas sobre Aspectos ambientais de Atividades Produtivas. Fortaleza, 1999.

GANEM, Roseli S. Curtumes: aspectos Ambientais. Biblioteca Digital da Câmara dos Deputados. Brasília – 2007.

PACHECO, J.W.F. Curtumes. São Paulo: CETESB. 2005. Série P+L