Arquivo da categoria: Energia Alternativa

NÃO EXISTE ALMOÇO GRÁTIS

            Venho trabalhando com a área ambiental ao longo dos últimos 27 anos , em especial no desenvolvimento de livros técnicos, palestras e projetos.

            Um aspecto positivo que pude verificar foi o aumento da participação popular nas questões associadas ao meio ambiente, um tema a cada dia mais importante e mais presente no cotidiano das populações, indústrias e governos.

            Os temas tais como a proteção da biodiversidade, a preservação da qualidade da água, o aquecimento global e mudanças climáticas saíram do contexto das grandes universidades e centros de pesquisa para ganhar o mundo.

            Entretanto, um aspecto me preocupa: a mídia sempre destaca as novas tecnologias e processos inovadores como sendo respostas adequadas e corretas para todos os males e, pior, não se dá nenhum destaque quanto aos aspectos negativos associados àquelas tecnologias.

            No mercado financeiro há uma máxima que diz o seguinte:

            “Não há almoço grátis!”

            Isso significa que sempre há um custo para tudo o que fazemos e que alguém, em algum tempo e lugar, pagará a conta.

            Podemos aplicar essa máxima financeira a um processo d efusão entre empresas, à compra de um ativo financeiro (ações, dólar ou ouro) ou a um novo processo tecnológico.

            Não importa….alguém sempre pagará a fatura.

            Vejamos alguns exemplos mais associados à temática ambiental:

a)     A Produção de Álcool.

       Quando o Proálcool foi criado em 1985 nosso objetivo era a redução da dependência do petróleo importado, cujo preço atingia patamares muito elevados em decorrência da regulação de cotas de extração elaborada e imposta pela OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo).

       O resultado foi, de fato, alcançado e nosso país reduziu a dependência do petróleo, mas (e aqui surge a conta do nosso almoço) os danos ambientais são consideráveis, em especial quando pensamos na abertura de imensas áreas para o plantio de cana-de-açúcar, na poluição atmosférica e doenças respiratórias geradas pela queima da palha da cana e, também, nos problemas causados pela ação do vinhoto despejados nos rios durante os primeiros anos do Proálcool.

b)    A Substituição do vidro pelo Plástico

        Após a segunda Grande guerra Mundial a tecnologia evoluiu significativamente, inclusive com a criação de novos medicamentos tais como a penicilina, etc.

        O plástico surgiu nesse período e foi amplamente anunciado pela mídia como um substituto ideal para o vidro nas embalagens. Dizia-se que a utilização do plástico era mais racional, pois seu custo era menor, possuía maior resistência ao impacto, poderia assumir formas desejadas mais facilmente e o seu peso seria menor do que o vidro, facilitando a logística de transporte.

         Em poucos anos o plástico assumiu uma posição de destaque no setor de embalagens.

         A “conta do almoço” foi apresentada após algumas décadas de uso e descarte irracional: atualmente nossos oceanos se encontram bastante comprometidos por imensas ilhas formadas pelas embalagens plásticas descartadas.

         Há um claro comprometimento da fauna e flora dos oceanos e, em alguns casos, já se pode dizer que os danos são irreversíveis[1].  A conta será salgada se considerarmos que muitos países dependem dos recursos pesqueiros para sua alimentação e fonte de renda.

c)     A Queima de Combustíveis Fósseis

         O avanço tecnológico associado à queima de combustíveis fósseis, tais como o carvão, o petróleo e o gás, possibilitou alavancar o desenvolvimento econômico e social, gerando riquezas inimagináveis.

          Após alguns séculos verifica-se a alteração da nossa atmosfera pelo acúmulo dos chamados Gases do Efeito Estufa (GEE), o que potencializa o processo de aquecimento global e as ameaças vinculadas às mudanças climáticas severas.

          Obviamente a “conta do almoço” nesse caso poderá fechar o nosso restaurante.

d)    Os Telefones Celulares

        Os celulares são aplaudidos em todo o mundo como um instrumento divino que aproxima as pessoas, além de potencializarem novos mercados de comunicação e de comércio virtual.

         O problema é que os celulares utilizam baterias que contém metais pesados tais como o cádmio, o lítio, etc.  Todos esses metais podem gerar danos irreversíveis à saúde humana e ao meio ambiente, em especial no que concerne à poluição do solo e das águas subterrâneas.

          É um custo que precisa ser considerado por todos nós, inclusive quando analisamos em êxtase os novos modelos oferecidos no mercado.

 e)     As Fontes Alternativas de Energia

         Em função do processo de aquecimento global e das mudanças climáticas associadas, muitos países passaram a desenvolver estudos voltados à produção de “energia limpa”.

           Assim, bilhões de dólares foram investidos para desenvolver tecnologias mais racionais e eficazes para o aproveitamento da energia solar, energia eólica, biocombustíveis, etc.

          A mídia internacional procura apresentar as novas tecnologias como sendo um processo mágico, quase divino, com impactos exclusivamente positivos.  Nesse contexto os governantes deveriam mudar toda a matriz energética de seus países para garantir a produção contínua e segura de energia a custo reduzido.

         Mas será que as fontes alternativas de energia são totalmente limpas?  Não há geração de resíduos ou de impactos ambientais?

           Para responder a essas questões basta verificar os impactos ambientais associados à produção das turbinas de energia eólica ou à produção de baterias para os novos carros elétricos.

           É evidente que os processos de mineração de metais para as baterias ou as instalações industriais necessárias para a produção de bens (turbinas, carros, etc) também podem gerar outros impactos nocivos ao meio ambiente.

f)  O Pesticida DDT

            O desenvolvimento agrícola observado ao longo do último século está fortemente associado ao surgimento de pesticidas que, de início, garantiram a redução de pragas e doenças nas mais diversas lavouras.

             O retorno negativo, ou seja, o “almoço a ser pago” surgiu após alguns anos.  Os pesquisadores descobriram que o DDT, um dos pesticidas mais aplicados à época, diminuía a espessura da casca dos ovos e influía na reprodução de muitas espécies de aves.

               Além disso, muitos produtos químicos afetam a vida de insetos polinizadores, reduzindo drasticamente a reprodução de espécies vegetais de grande importância econômica.

               A doutora Rachel Carson escreveu um best seller ambiental em 1962 denominado “Primavera Silenciosa”, no qual destaca os danos ambientais associados ao uso inadequado dos agrotóxicos.  É um livro que todos deveriam ler.

           Conclusão

            Esse artigo destaca apenas alguns exemplos mais conhecidos de impactos ambientais associados àquelas “soluções mágicas” do passado.

            Não devemos ser contrários à tecnologia ou ao desenvolvimento de novos produtos e processos industriais, mas precisamos alertar quanto à necessidade de avaliar as soluções de forma mais isenta e menos apaixonada.

            É necessário conhecer o processo de produção, desde a fase de planejamento e aquisição de matéria prima até o descarte dos produtos na fase pós-consumo, ou seja, precisamos nos acostumar a analisar nossas opções em termos mais amplos.

            Quando insistimos em exaltar apenas o “lado bom da maçã”, existente em cada projeto inovador, podemos incorrer em erros graves no futuro, pois SEMPRE haverá um lado podre a ser considerado.

            Os novos produtos e processos tecnológicos não devem ser considerados como uma solução milagrosa ou o Santo Graal da tecnologia.  Ao contrário: devem ser desenvolvidos, analisados e avaliados corretamente  em seus aspectos positivos e negativos.

            Em síntese: nem sempre o que reluz é ouro….pode ser cádmio, lítio ou mesmo as imensas ilhas de plástico que ameaçam as espécies marinhas.

             Este artigo é uma homenagem à minha mãe, Dona Marina de Miranda Ribeiro Quintiere, que completa 75 anos hoje e que foi a grande responsável pelo despertar do meu interesse pela área ambiental.

marceloquintiere@gmail.com


[1] A esse respeito sugiro verificar os meus artigos intitulados “Oceanos Ameaçados”  e “Oceanos e Riscos Ambientais” publicados no Blogdoquintiere em 29/10/2012 e 1/11/2012, respectivamente.

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PNRS – Usinas de Recuperação Energética (URE)

A Política Nacional de Resíduos Sólidos reúne um conjunto de princípios, objetivos, instrumentos, diretrizes, metas e ações adotadas pelo Governo Federal, isoladamente ou em regime de cooperação com Estados, Distrito Federal, Municípios ou particulares, com vistas à gestão integrada e ao gerenciamento ambientalmente adequado dos resíduos sólidos.

 A PNRS trouxe diversas inovações que poderão aperfeiçoar a gestão dos resíduos sólidos no Brasil, dentre as quais podemos destacar:

  •  Responsabilidade Compartilhada;
  •  Incentivo à Não Geração, Redução, Reutilização e Reciclagem;
  •  Gestão Integrada dos Resíduos Sólidos;
  •  Estímulo à implantação da Coleta Seletiva;
  •  Estímulo à Logística Reversa;
  •  Estímulo à Formação de Consórcios Municipais;
  •  Elaboração dos Planos de Gestão de Resíduos nas Esferas Administrativas;
  •  Elaboração dos Planos de Gerenciamento de Resíduos no âmbito da Iniciativa Privada;
  •  Incentivo à Implantação, Formalização, Aparelhamento e Capacitação de Cooperativas de Catadores de Resíduos;
  •  Estabelecimento de Prazo para Desativação dos Lixões.

 Uma das inovações trazidas pela PNRS está associada à possibilidade de estabelecermos a denominada Recuperação Energética, contemplada em seu § 1º, art. 9º, a seguir transcritos:

 Art. 9o Na gestão e gerenciamento de resíduos sólidos, deve ser observada a seguinte ordem de prioridade: não geração, redução, reutilização, reciclagem, tratamento dos resíduos sólidos e disposição final ambientalmente adequada dos rejeitos.

 § 1o Poderão ser utilizadas tecnologias visando à recuperação energética dos resíduos sólidos urbanos, desde que tenha sido comprovada sua viabilidade técnica e ambiental e com a implantação de programa de monitoramento de emissão de gases tóxicos aprovado pelo órgão ambiental.

 Em outras palavras a PNRS permite a transformação do “lixo” em energia com a utilização de tecnologias tais como a pirólise ou as Usinas de Recuperação Energética (URE).

 A transformação do “lixo” em energia é reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) como uma tecnologia aplicável ao Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL), possibilitando a obtenção de Créditos de Carbono.

A ideia é simples de entender: quando o lixo é submetido à queima não há tempo suficiente para sua decomposição, ou seja, as bactérias não têm condições de degradar a matéria orgânica presente, minimizando a produção do metano.

Considerando que o metano é um Gás do Efeito Estufa (GEE) com grande impacto sobre o processo de aquecimento global, a sua eliminação reduz o seu impacto nocivo possibilitando que o projeto de recuperação energética possa auferir ganhos adicionais via concessão dos chamados Créditos de Carbono.

Assim, a Usina de Recuperação Energética pode gerar ganhos financeiros a partir da venda da energia ao sistema elétrico nacional e, também, através do recebimento dos créditos de carbono decorrentes de sua contribuição para a redução das emissões de gás metano para a atmosfera.

A União Europeia e a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) consideram as Usinas de Recuperação Energética como sendo uma tecnologia eficaz na economia de energia, bem como na redução das emissões de gases do efeito estufa.

Atualmente 15% dos resíduos domiciliares gerados no mundo são submetidos ao tratamento via Usinas de Recuperação Energética, o que representa um total de mais de 1 milhão de toneladas diárias de resíduos transformados em energia elétrica.

 A título de exemplo podemos destacar a tonelagem de resíduos sólidos que são processados anualmente por países desenvolvidos como a França e a Alemanha cujo processamento via URE alcança, respectivamente 13,7  e 20,0 milhões de toneladas.

 Na França o número de URE atinge 129 plantas em operação, ao passo que a Alemanha possui 72 plantas e a Itália apresenta 53 unidades.

 No Brasil ainda não temos nenhuma URE em operação, embora já se tenha notícia da construção acelerada de unidade em Barueri (SP), com capacidade para tratar 820 toneladas/dia de resíduos sólidos urbanos, permitindo a geração de 17 megawatts de energia elétrica.

 O processo de transformação dos resíduos sólidos em energia elétrica via URE possui algumas características interessantes:

  • Processa qualquer tipo de lixo, in natura e com alto teor de umidade, sem depender de tratamento prévio.
  • Possui eficiência energética e reduz o volume do lixo em aproximadamente 90%.
  • A temperatura de tratamento dos resíduos é sempre superior a 850°C, o que inibe a formação de furanos e dioxinas.
  • Dentre os resíduos gerados apenas de 1% a 2% são cinzas consideradas perigosas e que devem ser encaminhadas para aterro especial.

 O uso das URE possui vantagens significativas se for comparado ao emprego de Aterros Sanitários (cuja presença ainda é muito reduzida em nosso país):

  • Menor área de operação;
  • Proximidade com os centros geradores de resíduos com menor custo de transporte Gerador – URE;
  • Menor custo ambiental em decorrência da redução na emissão de Gases do Efeito Estufa (GEE) e na produção de chorume, uma vez que não há tempo para decomposição da matéria orgânica presente nos resíduos;
  • Geração de significativos montantes de energia elétrica;
  • Possibilidade de operação continuada ao longo de décadas, uma vez que os resíduos são eliminados ao invés de serem simplesmente acumulados nos aterros sanitários e/ou lixões.

  Conclusão

O tratamento dos resíduos sólidos é um desafio constante para a administração pública, mas representa, por outro lado, um amplo leque de oportunidades com claros ganhos socioeconômicos e ambientais.

 A utilização das URE deveria ser ampliada com o incentivo do Governo Federal, maximizando os ganhos em termos de redução das emissões de metano e os impactos deste sobre o processo de aquecimento global.

 Da mesma forma devemos ponderar que a geração de energia elétrica constitui um dos principais gargalos ao desenvolvimento econômico do país e o aproveitamento dos resíduos sólidos poderia garantir uma oferta firme e contínua de energia, dado o volume produzido diariamente (aproximadamente 210.000 toneladas/dia).

 marceloquintiere@gmail.com

Termelétricas e Fontes Limpas

Aquecimento Global e Reflexos na Matriz energética

ENERGIA: GERAÇÃO DOMÉSTICA

A oferta de energia elétrica é um elemento vital no mundo moderno, propiciando desenvolvimento e evolução.

 O crescimento da população mundial, hoje já superando 7 bilhões de pessoas, aliado à necessidade de crescimento econômico para manutenção dos padrões de qualidade de vida, torna a oferta de energia uma questão estratégica para muitos países.

As fontes de energia mais comuns são os denominados combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás natural em especial) que intensificam o processo de aquecimento global com suas emissões de fases do efeito estufa, o que ocasiona consideráveis impactos sobre os ecossistemas (mudanças climáticas, surgimento de doenças, comprometimento da biodiversidade, etc.).

As alternativas englobam esforços em dois grandes campos:

a)     Racionalização do uso de energia com máquinas e equipamentos mais modernos e menos intensivos em combustíveis. Veja o exemplo dos carros e aparelhos eletrodomésticos cujo consumo vem sendo aprimorado ao longo dos tempos.

b)    Desenvolvimento de fontes alternativas, tais como a energia solar, eólica, biomassa, etc.

Nesse artigo procuraremos abordar a questão da energia solar, destacando a sua importância, potenciais e o que vem sendo desenvolvido em outros países para estimular a geração de energia a partir dessa nova fonte alternativa.

A importância da energia solar como fonte alternativa pode ser melhor compreendida se considerarmos a disparidade que existe entre o total da energia que recebemos do sol a cada hora e o nosso consumo anual.

Uma hora de energia solar que incide sobre o nosso planeta pode suprir o nosso consumo anual.  Parece uma ilusão contábil: uma hora de sol suprindo um ano de consumo de energia elétrica…

Considerando um potencial tão elevado e os diversos problemas associados às fontes convencionais (aquecimento global) que  exigem soluções imediatas, seria de se esperar a adoção maciça da energia solar.

Alguns países desenvolvidos estão, de fato, desenvolvendo esforços no sentido de ampliar a utilização da energia solar.

No final de 2009, a capacidade instalada acumulada de sistemas fotovoltaicos era de aproximadamente 23 GW. Em 2011, mais de 69 GW estão instalados no mundo, podendo produzir 85 TWh de eletricidade a cada ano.

Esse volume de energia é suficiente para abastecer a necessidade anual de mais de 20 milhões de casas.” (EPIA – Global Market Outlook for Photovoltaics until 2016 – maio de 2012, p. 11.)

A União Europeia responde pela maior fatia na produção global de energia elétrica baseada em tecnologia fotovoltaica sendo a Alemanha e a Itália os maiores atores nesta indústria.

Para efeito de comparação, a Alemanha, em 2010, adicionou mais produção fotovoltaica em sua matriz elétrica que o mundo todo no ano anterior  (Global Status Report em Energia Renovável da Renewable Energy Policy Network for the 21st Century).

De acordo com os dados da German Solar Industry Association (BSW Solar), a geração de eletricidade a partir da fonte solar fotovoltaica atendeu a demanda de mais de 3,4 milhões de domicílios no país em 2010, produzindo 12 mil GWh ou mais de 2% do total de eletricidade gerada no país.

O resultado em termos de “economia de CO²” foi a redução do volume de emissões estimada em 6,2 milhões de toneladas, representando um crescimento de 78% em relação aos resultados obtidos em 2009.

E o Brasil?  Onde estamos quanto ao uso da energia solar?

A participação desta fonte de energia ainda é praticamente inexistente por aqui, embora sejamos um dos países com maior incidência de radiação solar, apresentando áreas extensas onde há mais de 300 dias de sol a cada ano!

Não parece um paradoxo?  Tanta oferta de energia gratuita associada a uma utilização quase que inexistente…

A energia solar fotovoltaica (aquela que possibilita a geração de energia elétrica a partir da energia solar) apresenta condicionantes que a tornam única frente às demais alternativas:

a)     Gratuita;

b)    Não gera emissões de gases estufa para a atmosfera, reduzindo os impactos sobre o aquecimento global (trata-se de uma fonte de energia LIMPA);

c)     Produção em expansão;

d)    Tecnologia em materiais mais eficazes em franco desenvolvimento;

e)     Custo decrescente por unidade de energia produzida, em especial quando levamos em consideração novos produtos e processos de produção, disposição, comercialização, financiamento e instalação.

Há resistências no Brasil quanto à utilização da energia como fonte alternativa, principalmente por conta de o preço estimado ser ainda elevado relativamente ao de fontes renováveis como eólicas e mesmo biomassa.

O que necessitamos é promover uma ampliação da demanda pelos equipamentos de geração de energia solar.  Com o incremento desse novo mercado consumidor os preços tenderão a cair e haverá maior interesse por parte dos fabricantes.

A telefonia celular passou por um processo semelhante: os preços muito elevados do início foram sendo gradualmente reduzidos na medida em que havia um mercado crescente de consumidores.

Assim, ao longo de poucos anos passamos a usar aparelhos gratuitos e com tecnologia embarcada surpreendente que acabaram por substituir os antigos aparelhos que mais se assemelhavam a tijolos.

Como poderíamos ampliar o uso da energia solar no Brasil, aproveitando as nossas vantagens competitivas em termos de clima?

Como poderíamos criar uma demanda suficientemente forte e consistente para consolidar a energia solar como uma realidade, poupando nossas usinas hidrelétricas e as demais fontes associadas aos combustíveis fósseis.

A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) elencou alguns objetivos gerais a serem buscados pelos projetos de energia solar:

  •  Facilitar a inserção da geração solar fotovoltaica na matriz energética brasileira;
  •  Viabilizar economicamente a produção, instalação e monitoramento da geração solar fotovoltaica para injeção de energia elétrica nos sistemas de distribuição e/ou transmissão;
  • Incentivar o desenvolvimento no país de toda a cadeia produtiva da indústria solar fotovoltaica com a nacionalização da tecnologia empregada;
  • Fomentar o treinamento e a capacitação de técnicos especializados neste tema em universidades, escolas técnicas e empresas;
  •  Estimular a redução de custos da geração solar fotovoltaica com vistas a promover a sua competição com as demais fontes de energia; e
  • Propor e justificar aperfeiçoamentos regulatórios e/ou desonerações tributárias que favoreçam a viabilidade econômica da geração solar fotovoltaica, assim como o aumento da segurança e da confiabilidade do suprimento de energia.

Os resultados, felizmente, começam a surgir!

Recentemente o governo federal publicou a Resolução Normativa n.º 482/2012 da ANEEL que regulamenta a micro e a mini produção de energia elétrica.

Em outras palavras a Resolução da ANEEL permite aos proprietários de residências, comércio e indústria a produção de sua própria energia.

 Há uma novidade ainda mais interessante:

As concessionárias de energia elétrica deverão adequar seus medidores a um modelo que permita que a energia gerada a partir da micro e mini produção individual e que não for consumida no local possa ser enviada à rede pública.

Com esse procedimento o consumidor individual poderá se transformar em um micro produtor de energia, reduzir seus custos e, eventualmente, disponibilizar seus excedentes para que sejam utilizados por outros consumidores.

De acordo com a Resolução da ANEEL a disponibilização dos excedentes de energia não utilizados propiciarão a criação de créditos para o consumidor nas suas próximas faturas.

Essa medida me parece um acerto inquestionável do governo federal na medida em que promoverá:

 a)     A criação de um mercado interno que demandará máquinas e equipamentos de energia solar, reduzindo os custos ao longo dos anos;

 b)    A substituição parcial de fontes tradicionais associadas aos combustíveis fósseis e às usinas hidrelétricas, aliviando a pressão da demanda.

 c)    Maior oferta de energia limpa, reduzindo os riscos de incremento no processo de aquecimento global;

 d)    Atendimento às populações rurais, cooperativas de produtores e demais consumidores que hoje se encontram mais distantes das redes de distribuição a um custo menor.

 e)     Diversificação de nossa matriz energética, uma questão estratégica para o desenvolvimento do país.

  marceloquintiere@gmail.com

 Bibliografia consultada

EPIA – Global Market Outlook for Photovoltaics until 2016 – maio de 2012, p. 11.

Global Status Report em Energia Renovável da Renewable Energy Policy Network for the 21st Century.

Energia: Fontes Alternativas

Em 2001 o Brasil passou pela denominada crise energética, obrigando o governo a determinar cortes na demanda das indústrias e famílias.

As principais causas daquela crise foram a falta de chuvas em volume adequado para encher os reservatórios das principais usinas hidrelétricas e, também, a falta de investimentos consistentes em linhas de transmissão, o que impediu a interligação do sistema elétrico nacional.

As consequências foram dramáticas com a queda da produção industrial e fragilização do governo Fernando Henrique Cardoso.

Ultrapassada a crise energética o Brasil desenvolveu diversos mecanismos de defesa para o setor elétrico, garantindo maior segurança quanto à geração e oferta de energia necessária ao desenvolvimento do país, dentre as quais se destacam:

  • Implantação de usinas termelétricas movidas a carvão mineral, óleo diesel ou gás natural;
  • Investimentos em linhas de transmissão que possibilitaram a interligação do sistema elétrico nacional, de modo que a eventual redução da oferta de energia em uma região possa ser compensada com o total gerado nas demais regiões;
  • Criação da EPE (Empresa de Pesquisa Energética), entidade responsável pelo planejamento do setor elétrico;
  • Criação da ONS;
  • Retomada das obras para a Usina Nuclear de Angra III;
  • Leilões de parques eólicos objetivando a oferta de energia alternativa a custos competitivos;
  • Incentivos à adoção de energias alternativas a partir do Programa de Incentivo à Energia Alternativa (PROINFA), de forma a assegurar subsídios para implantação competitiva de parques eólicos e de energia solar.

Nossa matriz energética é considerada uma das mais limpas e sustentáveis do mundo, apresentando um percentual de 78 a 82% proveniente de usinas hidrelétricas.

De fato, o Brasil possui extrema vantagem competitiva no setor energético, o que pode ser comprovado pela existência de rios de grande porte, excelente regime de ventos em boa porcentagem de nossa zona costeira e níveis de radiação solar que alcançam, em algumas regiões como o Nordeste, mais de 300 dias de sol a cada ano.

Além disso, não podemos desconsiderar as imensas jazidas de petróleo e gás natural associadas ao Pré-Sal e o significativo potencial de geração de energia a partir da biomassa.

Com a presença de tantas vantagens seria de se esperar que nosso país fosse um oásis em meio a um mundo sedento de energia.

Entretanto, a realidade apresenta alguns problemas para o Brasil no que concerne à composição de sua matriz energética, conforme se verifica na tabela a seguir que compara a situação atual com aquela vigente em 2001 quando enfrentamos o denominado “apagão”.

 Tabela n.º01: A Composição da Matriz Energética Brasileira (em %)

Fonte Energética

2001

2012

Hidráulica

89,7

77,6

Nuclear

4,3

1,7

Térmicas (carvão, gás e óleo)

6,0

13,9

Eólica

1,7

Outras

5,1

Fonte: ONS

Uma rápida análise das informações contidas na tabela permite-nos alcançar algumas conclusões:

  • A participação das usinas hidrelétrica apresentou uma redução significativa de 12% na composição de nossa matriz energética ao longo de 11 anos;

 Essa redução está associada à morosidade na construção das novas UHE, em especial na Região Norte, em razão de questões ambientais (ex.: Belo Monte).

  •  A participação percentual das termelétricas apresentou um incremento superior a 100% em 11 anos, saltando de 6,0% para 13,9%.

 Esse resultado faz parte da política do Governo Federal de incentivar a construção das térmicas como um elemento estratégico que possa compensar as eventuais ausências de chuvas.

Assim, quando o país atravessar um período mais longo de estiagens as usinas termelétricas serão acionadas de modo a aliviar o impacto da demanda sobre as hidrelétricas, permitindo o acúmulo de água em níveis mais seguros.

As termelétricas funcionariam, assim, como o estepe de um carro sendo acionadas em casos de emergência.

  •  Ao longo do período de análise a energia eólica passou a apresentar uma participação mais efetiva em nossa matriz, alcançando 1,7%.

 A energia eólica é considerada uma das fontes mais limpas para geração de energia elétrica e nosso país possui um potencial bastante elevado de ventos, em especial nas áreas costeiras, o que potencializa a opção por esta fonte.

Devemos considerar que esta opção energética vem apresentando sucessivos ganhos em termos de eficiência e eficácia ao longo dos últimos anos, o que reduziu os seus custos e tornou sua implantação/operação mais competitivas.

  •  As demais fontes, em especial a biomassa, energia solar, xisto betuminoso, e outras, saltaram para uma participação percentual superior a 5% em nossa matriz, o que demonstra o esforço consistente que vem sendo desenvolvido pelo governo para encontrar alternativas que garantam nossa segurança energética.

Diante desse quadro de transformações estruturais alguns problemas devem ser observados:

  • A geração de energia pelas termelétricas deverá alcançar um patamar de 15 a 20% em nossa matriz energética, o que representa um percentual ainda baixo se comparado com países como os EUA e a China nos quais a utilização de combustíveis fósseis chega a mais de 60% da matriz.
  •  A opção pelo uso de termelétricas representa um custo financeiro mais elevado, conforme a tabela a seguir:

 Tabela n.º02: Custos de geração por fonte

Fonte Utilizada

Custos (R$/quilowatt/hora)

Termelétrica a óleo diesel

193

Nuclear

177

Termelétrica a carvão

171

Termelétrica a gás natural

155

Eólica

137

Hidrelétrica

116

Fonte: EPE

 A opção pelas térmicas apresenta um custo ambiental mais elevado, em especial se considerarmos alguns aspectos da sua operação:

  • Maior dependência de combustíveis fósseis não renováveis, tais como o gás natural, o carvão mineral e o óleo diesel;
  • Maior emissão de CO² para a atmosfera, contribuindo para o efeito estufa e o consequente processo de aquecimento global;
  • Maior emissão de SO² (dióxido de enxofre), com a geração de doenças respiratórias graves;
  • Geração de passivos ambientais de grande porte, em especial quando associadas às atividades de grupos mineradores na exploração das jazidas de carvão mineral.
  • Os custos associados à geração de energia em hidrelétricas tende a sofrer elevações ao longo do tempo em razão das seguintes condicionantes:
  • Os potenciais de aproveitamento mais significativos já estão em fase de operação ou em implantação, restando opções mais distantes em termos geográficos.

Assim, teremos de assumir maiores custos financeiros e ambientais em função da necessidade de construir novas linhas de transmissão, além das questões envolvendo o meio ambiente, tribos indígenas, etc.

  • A construção de grandes represas para usinas hidrelétricas foi substituída pelas denominadas usinas a “fio d’água” após pressão do movimento ambientalista que buscava reduzir os impactos ambientais.

Assim, não podemos mais contar com a garantia dos grandes volumes estocados em usinas como Tucuruí e Itaipu que, anteriormente possibilitavam o funcionamento das usinas por até um ano em regime de estiagens.

Isso significa que, na ocorrência de grandes estiagens, as usinas a fio d’água sofrerão impactos mais severos com maior rapidez, uma vez que não dispõem de volumes estocados.

Conclusão

Não há alternativa energética totalmente dissociada de impactos ambientais, seja na sua implantação ou na sua operação.

As condições e características do Brasil possibilitam a utilização de um poderoso mix de fontes de combustíveis que pode garantir nosso desenvolvimento socioeconômico com um impacto ambiental ainda reduzido se comparado àquele gerados em outros países.

A melhor opção em termos das combinações entre as fontes dependerá das condições climáticas (estiagens, etc.) presentes no momento e devemos compreender que cada mudança será acompanhada necessariamente por alterações de custos financeiros e inclusão de novos impactos ambientais.

As fontes alternativas, em especial a energia eólica e a energia solar, devem ser incentivadas de forma consistente e crescente em razão das condições climáticas vigentes no Brasil.

Isso significa que o eventual custo mais elevado associado a essas novas fontes deverá ser assumido pelo Estado (ex.: subsídios, etc.) como forma de incentivar a pesquisa e a futura redução de preços finais ao longo dos anos.

Este processo já ocorreu com a opção pela energia eólica ao longo da última década na qual, a partir de incentivos como o PROINFA, foi possível a realização de pesquisas e a obtenção de equipamentos mais eficazes e eficientes, o que tornou esta fonte alternativa mais competitiva.

Quanto à energia solar entendo que nosso país deveria investir maciçamente em pesquisa de materiais e tecnologia de modo a garantir uma redução dos custos e a maior competitividade desta fonte energética.

É de se destacar, ainda, que pequenas centrais de energia fotovoltaica podem transformar regiões ainda pobres e carentes como o Nordeste, inserindo amplos contingentes populacionais no esforço produtivo.

Uma pequena área de poucos hectares pode vir a fornecer energia suficiente para grandes regiões ou cidades, ainda mais se considerarmos que haveria garantia de abastecimento em razão da elevada porcentagem de horas de insolação/dia ao longo de todo o ano (mais de 300 dias de sol/ano em algumas regiões).

 marceloquintiere@gmail.com