Arquivo da categoria: Aquífero Guarani

O Aquífero Guarani

A água, recurso de importância estratégica no mundo atual, constitui uma vantagem competitiva do Mercosul frente aos demais países e blocos econômicos, uma vez que os seus países membros detém grandes bacias hidrográficas como a Bacia Amazônica, a Bacia do Paraguai e a Bacia do Paraná.

Além disso, a região é aquinhoada com a presença do denominado Aqüífero Guarani, o maior manancial de água doce subterrânea transfronteiriço do mundo, com capacidade de sustentar o consumo regional por centenas de anos.

Embora o Mercosul detenha uma considerável riqueza natural que pode garantir seu desenvolvimento econômico e social, não devemos desconsiderar a existência de graves problemas ambientais na região, em especial aqueles cujos impactos são transfronteiriços, afetando mais de um país ao mesmo tempo.

A existência desses problemas pode comprometer não apenas o ritmo de crescimento de nossas economias, mas a própria sustentabilidade dos processos econômicos.

Os problemas ambientais demandam a urgente adoção de medidas saneadoras por parte dos países envolvidos, dentre as quais a compatibilização da legislação ambiental, sob o risco de fragilizar o processo de integração econômica iniciado no século passado.

Dentre os problemas transfronteiriços de maior significância no âmbito do Mercosul temos a preservação e uso sustentável do Aquífero Guarani.

 A QUESTÃO  DA  ÁGUA  DOCE  E  O  SISTEMA AQÜÍFERO  GUARANI

Cerca de 70% da superfície da Terra encontra-se coberta pelas águas sendo que uma parcela equivalente a 97,5% do total constitui-se de água salgada e apenas 2,5% em água doce.

Do total do volume de água doce do planeta  apenas cerca de 30,2% pode ser utilizada para sustento e manutenção da vida vegetal e animal, uma vez que devemos considerar que os 69,8% restantes encontram-se nas calotas polares, geleiras e solos gelados.

Em outras palavras, de toda a água existente no mundo, a parcela disponível para nosso consumo imediato a baixo custo corresponde a 0, 008% do total.

Além da carência de água doce há que se destacar o contínuo processo de degradação dos padrões de qualidade em função das atividades econômicas tais como indústrias, agricultura intensiva em fertilizantes, deposição irregular de lixo urbano, derrames de petróleo e esgoto lançado livremente nos cursos d’água.

Assim, a disponibilidade de água em todos os continentes tende a diminuir cada vez mais, demonstrando a real necessidade de se rever o sistema de consumo e a solução do problema de disponibilidade em curto prazo.

O Sistema Aquífero Guarani é um dos maiores mananciais de água doce subterrânea transfronteiriço do mundo, atendendo aos quatro países membros do Mercosul: Argentina (19%), Brasil (70%), Paraguai (6%) e Uruguai (5%).

O Aqüífero Guarani é considerado um reservatório econômico com grande impacto social, passível de atender ao consumo humano na região, em razão de uma combinação rara e benéfica de alguns condicionantes, dentre os quais destacamos:

i) água com nível de qualidade satisfatório, podendo ser consumidas, em geral, sem necessidade de serem previamente tratadas, tendo em vista os mecanismos de filtração e autodepuração bio-geoquímica que ocorrem no subsolo;

ii) boa proteção contra os agentes de poluição que afetam rapidamente as águas dos rios e outros mananciais de água de superfície;

iii) possibilidade de captação nos locais onde ocorrem as demandas.

Embora o Sistema Aqüífero Guarani seja um recurso natural estratégico para os quatro países do Mercosul, suas águas estão sob ameaça em razão das pressões antrópicas, seja pela presença dos grandes centros urbanos, de indústrias poluidoras, de projetos agrícolas intensivos em agrotóxicos, seja pela extração excessiva de água.

Esta combinação de elementos, todos vinculados ao desenvolvimento regional, constitui forte pressão antrópica que poderá comprometer a preservação e o uso racional do Aqüífero Guarani.

Em outros termos, o crescimento econômico e social observado nesta imensa região pode ocasionar uma séria limitação à utilização futura daquele manancial. É urgente, portanto, a adoção de medidas para identificar e mapear os riscos potenciais, bem como definir as alternativas que possam garantir a sua proteção e o uso racional dos recursos.

Considerando os problemas associados ao comprometimento das águas do SAG e sua extração excessiva, entendemos necessário identificar os usos que se fazem do Aqüífero nos quatro países membros do Mercosul.

No caso específico do Brasil vemos que o Aqüífero Guarani integra o território de oito Estados ( RS, SP, PR, GO, MG, SC, MS e MT).

A área contemplada coincide com aqueles estados nos quais temos uma significativa concentração de população, indústrias e atividades de agroindústria, além de extensas áreas de expansão da fronteira agrícola para plantio intensivo de grãos (soja, milho e algodão), atividades associadas à maior demanda de água e aos processos poluidores.

No Brasil existem mais de 2000 poços que utilizam as águas do Aqüífero nas suas áreas de recarga objetivando apoiar ações tais como o abastecimento de populações (70%),  atividades industriais (25%), irrigação (2%) e recreação nas diversas estâncias hidrotermais (3%).

A combinação desses usos leva, em alguns casos, a uma extração excessiva, fato que deve ser monitorado e controlado.

Verifica-se que a participação brasileira no consumo dos recursos é bem superior ao somatório dos outros três países membros do Mercosul.

Esta situação ocasiona um desequilíbrio danoso, uma vez que os recursos pertencem igualmente aos países e devem ser utilizados de forma sustentável de modo que o consumo excessivo de um não se reflita na impossibilidade de uso pelos demais.

 As Áreas de Maior Vulnerabilidade do Aqüífero Guarani  –  Os Afloramentos

A vulnerabilidade de um aqüífero é um conceito qualitativo que está associado ao nível de proteção natural frente às ameaças potenciais de contaminação.

As formações rochosas dos aqüíferos estabelecerão o nível de permeabilidade natural, ou seja, se os contaminantes terão maior ou menor dificuldade em alcançar as reservas hídricas do aqüífero.

O SAG possui como uma de suas características mais notáveis o fato de que suas águas subterrâneas encontram-se confinadas por uma formação geológica de basalto, que, sendo impermeável, minimiza o risco de eventuais processos de contaminação.

Entretanto, a área do Aqüífero Guarani não é protegida de forma contínua.

Algumas áreas do SAG apresentam os denominados afloramentos, formações litológicas similares a fraturas na rocha, ou verdadeiras “portas de entrada”,  que podem vir a facilitar eventuais contaminações.

No caso brasileiro as áreas de afloramento coincidem com aquelas de grande concentração populacional, especialmente no que se refere ao Estado de São Paulo, maior número de indústrias e uma agricultura intensiva, sem desconsiderar a presença de dezenas de municípios onde o lixo urbano é ainda disposto nos denominados “lixões”.

CONCLUSÃO

O SAG representa um recurso estratégico de extrema importância, necessário ao desenvolvimento dos países do Mercosul na medida em que garante a manutenção dos processos econômicos nos países membros.

Sendo o aqüífero um recurso natural, as EFS dos países membros do Mercosul deverão desenvolver ações que garantam a sua preservação e o uso racional, impedindo que as atuais pressões antrópicas impeçam sua utilização futura.

Uma questão importante a ser ponderada é que a área do AG apresenta-se compartilhada pelos quatro países membros do Mercosul, ou seja, de nada adiantará a adoção de medidas voltadas à preservação do aqüífero se estas não fossem tomadas em conjunto pelos países envolvidos.

marceloquintiere@gmail.com

MQuintiere@twitter.com

Anúncios