Arquivo da categoria: Economia Verde

NÃO EXISTE ALMOÇO GRÁTIS

            Venho trabalhando com a área ambiental ao longo dos últimos 27 anos , em especial no desenvolvimento de livros técnicos, palestras e projetos.

            Um aspecto positivo que pude verificar foi o aumento da participação popular nas questões associadas ao meio ambiente, um tema a cada dia mais importante e mais presente no cotidiano das populações, indústrias e governos.

            Os temas tais como a proteção da biodiversidade, a preservação da qualidade da água, o aquecimento global e mudanças climáticas saíram do contexto das grandes universidades e centros de pesquisa para ganhar o mundo.

            Entretanto, um aspecto me preocupa: a mídia sempre destaca as novas tecnologias e processos inovadores como sendo respostas adequadas e corretas para todos os males e, pior, não se dá nenhum destaque quanto aos aspectos negativos associados àquelas tecnologias.

            No mercado financeiro há uma máxima que diz o seguinte:

            “Não há almoço grátis!”

            Isso significa que sempre há um custo para tudo o que fazemos e que alguém, em algum tempo e lugar, pagará a conta.

            Podemos aplicar essa máxima financeira a um processo d efusão entre empresas, à compra de um ativo financeiro (ações, dólar ou ouro) ou a um novo processo tecnológico.

            Não importa….alguém sempre pagará a fatura.

            Vejamos alguns exemplos mais associados à temática ambiental:

a)     A Produção de Álcool.

       Quando o Proálcool foi criado em 1985 nosso objetivo era a redução da dependência do petróleo importado, cujo preço atingia patamares muito elevados em decorrência da regulação de cotas de extração elaborada e imposta pela OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo).

       O resultado foi, de fato, alcançado e nosso país reduziu a dependência do petróleo, mas (e aqui surge a conta do nosso almoço) os danos ambientais são consideráveis, em especial quando pensamos na abertura de imensas áreas para o plantio de cana-de-açúcar, na poluição atmosférica e doenças respiratórias geradas pela queima da palha da cana e, também, nos problemas causados pela ação do vinhoto despejados nos rios durante os primeiros anos do Proálcool.

b)    A Substituição do vidro pelo Plástico

        Após a segunda Grande guerra Mundial a tecnologia evoluiu significativamente, inclusive com a criação de novos medicamentos tais como a penicilina, etc.

        O plástico surgiu nesse período e foi amplamente anunciado pela mídia como um substituto ideal para o vidro nas embalagens. Dizia-se que a utilização do plástico era mais racional, pois seu custo era menor, possuía maior resistência ao impacto, poderia assumir formas desejadas mais facilmente e o seu peso seria menor do que o vidro, facilitando a logística de transporte.

         Em poucos anos o plástico assumiu uma posição de destaque no setor de embalagens.

         A “conta do almoço” foi apresentada após algumas décadas de uso e descarte irracional: atualmente nossos oceanos se encontram bastante comprometidos por imensas ilhas formadas pelas embalagens plásticas descartadas.

         Há um claro comprometimento da fauna e flora dos oceanos e, em alguns casos, já se pode dizer que os danos são irreversíveis[1].  A conta será salgada se considerarmos que muitos países dependem dos recursos pesqueiros para sua alimentação e fonte de renda.

c)     A Queima de Combustíveis Fósseis

         O avanço tecnológico associado à queima de combustíveis fósseis, tais como o carvão, o petróleo e o gás, possibilitou alavancar o desenvolvimento econômico e social, gerando riquezas inimagináveis.

          Após alguns séculos verifica-se a alteração da nossa atmosfera pelo acúmulo dos chamados Gases do Efeito Estufa (GEE), o que potencializa o processo de aquecimento global e as ameaças vinculadas às mudanças climáticas severas.

          Obviamente a “conta do almoço” nesse caso poderá fechar o nosso restaurante.

d)    Os Telefones Celulares

        Os celulares são aplaudidos em todo o mundo como um instrumento divino que aproxima as pessoas, além de potencializarem novos mercados de comunicação e de comércio virtual.

         O problema é que os celulares utilizam baterias que contém metais pesados tais como o cádmio, o lítio, etc.  Todos esses metais podem gerar danos irreversíveis à saúde humana e ao meio ambiente, em especial no que concerne à poluição do solo e das águas subterrâneas.

          É um custo que precisa ser considerado por todos nós, inclusive quando analisamos em êxtase os novos modelos oferecidos no mercado.

 e)     As Fontes Alternativas de Energia

         Em função do processo de aquecimento global e das mudanças climáticas associadas, muitos países passaram a desenvolver estudos voltados à produção de “energia limpa”.

           Assim, bilhões de dólares foram investidos para desenvolver tecnologias mais racionais e eficazes para o aproveitamento da energia solar, energia eólica, biocombustíveis, etc.

          A mídia internacional procura apresentar as novas tecnologias como sendo um processo mágico, quase divino, com impactos exclusivamente positivos.  Nesse contexto os governantes deveriam mudar toda a matriz energética de seus países para garantir a produção contínua e segura de energia a custo reduzido.

         Mas será que as fontes alternativas de energia são totalmente limpas?  Não há geração de resíduos ou de impactos ambientais?

           Para responder a essas questões basta verificar os impactos ambientais associados à produção das turbinas de energia eólica ou à produção de baterias para os novos carros elétricos.

           É evidente que os processos de mineração de metais para as baterias ou as instalações industriais necessárias para a produção de bens (turbinas, carros, etc) também podem gerar outros impactos nocivos ao meio ambiente.

f)  O Pesticida DDT

            O desenvolvimento agrícola observado ao longo do último século está fortemente associado ao surgimento de pesticidas que, de início, garantiram a redução de pragas e doenças nas mais diversas lavouras.

             O retorno negativo, ou seja, o “almoço a ser pago” surgiu após alguns anos.  Os pesquisadores descobriram que o DDT, um dos pesticidas mais aplicados à época, diminuía a espessura da casca dos ovos e influía na reprodução de muitas espécies de aves.

               Além disso, muitos produtos químicos afetam a vida de insetos polinizadores, reduzindo drasticamente a reprodução de espécies vegetais de grande importância econômica.

               A doutora Rachel Carson escreveu um best seller ambiental em 1962 denominado “Primavera Silenciosa”, no qual destaca os danos ambientais associados ao uso inadequado dos agrotóxicos.  É um livro que todos deveriam ler.

           Conclusão

            Esse artigo destaca apenas alguns exemplos mais conhecidos de impactos ambientais associados àquelas “soluções mágicas” do passado.

            Não devemos ser contrários à tecnologia ou ao desenvolvimento de novos produtos e processos industriais, mas precisamos alertar quanto à necessidade de avaliar as soluções de forma mais isenta e menos apaixonada.

            É necessário conhecer o processo de produção, desde a fase de planejamento e aquisição de matéria prima até o descarte dos produtos na fase pós-consumo, ou seja, precisamos nos acostumar a analisar nossas opções em termos mais amplos.

            Quando insistimos em exaltar apenas o “lado bom da maçã”, existente em cada projeto inovador, podemos incorrer em erros graves no futuro, pois SEMPRE haverá um lado podre a ser considerado.

            Os novos produtos e processos tecnológicos não devem ser considerados como uma solução milagrosa ou o Santo Graal da tecnologia.  Ao contrário: devem ser desenvolvidos, analisados e avaliados corretamente  em seus aspectos positivos e negativos.

            Em síntese: nem sempre o que reluz é ouro….pode ser cádmio, lítio ou mesmo as imensas ilhas de plástico que ameaçam as espécies marinhas.

             Este artigo é uma homenagem à minha mãe, Dona Marina de Miranda Ribeiro Quintiere, que completa 75 anos hoje e que foi a grande responsável pelo despertar do meu interesse pela área ambiental.

marceloquintiere@gmail.com


[1] A esse respeito sugiro verificar os meus artigos intitulados “Oceanos Ameaçados”  e “Oceanos e Riscos Ambientais” publicados no Blogdoquintiere em 29/10/2012 e 1/11/2012, respectivamente.

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PECUÁRIA E DESMATAMENTO

Já ouvimos muitas coisas sobre o processo de desmatamento na Região Amazônica, suas origens, os reflexos no comprometimento da biodiversidade, degradação dos ecossistemas, etc.

De fato, o discurso internacional aponta o processo de desmatamento daquela imensa área como sendo um impacto ambiental em escala mundial perpetrado pelo Brasil, via queimadas e corte ilegal, em detrimento dos interesses das demais nações civilizadas.

De acordo com expressivo percentual de pesquisadores, representantes da mídia e do meio político internacional o Brasil deveria assumir maior responsabilidade no sentido de frear o ritmo do desmatamento, contribuindo para a preservação das espécies ameaçadas, bem como para a manutenção dos diversos serviços ambientais associados à floresta.

Uma floresta do porte da Floresta Amazônica é responsável pela prestação de serviços ambientais importantíssimos à humanidade e ao meio ambiente, dentre os quais podemos destacar:

  • Manutenção dos ciclos hidrológicos da bacia hidrográfica, regulando períodos de seca e/ou de cheias;
  • Regulação climática;
  • Preservação na qualidade da água;
  • Proteção da biodiversidade;
  • Redução do risco de erosão do solo;
  • Reserva estratégica da biodiversidade para futura produção de fármacos, alimentos, madeiras, essências, resinas, cosméticos, etc., inclusive com o apoio da biotecnologia;
  • Absorção de imensas quantidades de CO², minimizando o efeito estufa; e outros.

Evidentemente o processo de desenvolvimento da Região Amazônica não pode ocorrer de forma dissociada da temática ambiental, sob o risco de comprometer os citados serviços ambientais prestados de forma gratuita.

Assim, os projetos de exploração econômica devem ser planejados e conduzidos com a observância do Princípio da Precaução, uma vez que ainda conhecemos muito pouco acerca dos processos biológicos e das riquezas existentes naquela região.

Entretanto, a realidade é bastante distinta daquilo que seria o esperado em termos de Desenvolvimento Sustentável da região.

Como exemplo podemos destacar o forte vínculo existente entre a atividade pecuária desenvolvida na Amazônia e o processo de desmatamento.

O Ministério Público Federal desenvolveu em 2009 um amplo estudo por meio da Procuradoria da República no Estado do Pará, intitulado “Panorama das Questões Agrárias e Socioambientais no Pará”, sendo que algumas das informações ali contidas merecem destaque:

  • De acordo com o Instituto do Homem e do Meio Ambiente (Imazon) 78% do desmatamento na Amazônia aconteceu em razão da necessidade de abrir novos espaços para a pecuária;
  • Os casos de desmatamento mais recente estavam, à época dos trabalhos, concentrados nos municípios com os maiores rebanhos;
  • Os maiores frigoríficos nacionais possuem instalações de grande porte exatamente naqueles municípios onde ocorreram os níveis mais elevados de desmatamento, inclusive acompanhando o denominado “Arco do Desmatamento”;
  • À época dos trabalhos o IMAZON detectou que, de um total de 220 mil propriedades rurais do Estado do Pará, apenas 69 possuíam licenças ambientais para operar.
  • A questão fundiária era caótica no Estado do Pará, com irregularidades em mais de 6100 títulos de terra registrados em cartórios. O somatório das áreas vinculadas aos títulos de propriedade apontava um acréscimo de praticamente 110 mil hectares ou 86% da área original total do estado;
  • De acordo com a comissão Pastoral da Terra foram libertados, entre 1995 e 2008, aproximadamente 10.700 trabalhadores que trabalhavam em condições equivalentes a escravos no Estado do Pará;
  • Das 44 fazendas paraenses que constavam da listagem do trabalho escravo 38 eram pecuárias;
  • Havia uma fazenda localizada em área indígena e outras 20 não respeitavam a legislação ambiental; etc.

Ressalte-se que todos os dados apresentados acima estão associados especificamente ao Estado do Pará, ou seja, a situação real é certamente muito pior e complexa se considerarmos todos os demais estados da Amazônia Legal.

Um aspecto interessante também apontado no documento do MPF/PA é a disparidade de custos existente entre  “Aumentar a produtividade de um hectare de pastagem” e “Derrubar um hectare de floresta para implantação de pastagem”.

Derrubar a floresta é uma atividade com custo 33% menor (considerando os dados econômicos vigentes em 2009, segundo o trabalho do MPF/PA) do que recuperar a produtividade agrícola de uma área equivalente!

Por quê?  Como funciona esse mecanismo?

O custo médio da terra na Região Amazônica é significativamente menor do que aquele encontrado nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, embora seja perceptível uma redução gradual dessa diferença de custos ao longo dos últimos anos.

Assim, os grandes empresários do setor pecuário passaram a adquirir enormes áreas para implantar seus projetos pecuários, inclusive com o apoio e incentivo dos governos militares que procuravam integrar e proteger o território nacional.

O primeiro passo consistia na derrubada indiscriminada da vegetação com o uso do denominado “correntão”, procedimento onde dois tratores ligados por correntes colocam abaixo todas as árvores em seu caminho.

As madeiras nobres eram retiradas para venda à madeireiras enquanto as demais eram transformadas em carvão vegetal ou simplesmente dispostos no campo na forma de leiras.

O solo remanescente, invariavelmente rico em matéria orgânica e, por isso mesmo, bastante fértil, dispensava a adubação química periódica nos primeiros anos de atividade dos empreendimentos.

Mas a natureza cobra seus custos pelos impactos sofridos…

 Sabemos que o solo da Região Amazônica sofre impactos severos quando a floresta é suprimida, sendo submetido a um processo intenso de degradação com a rápida perda da sua fertilidade inicial.

O solo da floresta é rico em matéria orgânica e se mantém assim graças à própria floresta que sustenta…

Na realidade temos um complexo sistema solo – planta cujo equilíbrio pode ser facilmente deslocado a partir do corte intensivo da cobertura vegetal.

Quando o solo começa a apresentar sinais de exaustão em seus níveis de fertilidade o pecuarista enfrenta um dilema: manter o nível de fertilidade do solo ou partir para abertura de novas áreas.

O custo para manter os níveis de produtividade é elevado em razão das grandes distâncias e dos problemas de logística da região.

Assim, a aplicação da adubação química e a execução dos demais tratos culturais não são capazes de competir com a oferta de novas terras mais afastadas e baratas.

Dessa forma o pecuarista atua como um enorme gafanhoto, desistindo de investir na manutenção da produtividade de suas terras degradadas, pois é financeiramente mais rentável adquirir novas áreas e repetir o processo.

A esse respeito desenvolvi uma proposta para reduzir ou dificultar a perpetuação desse processo com a utilização de um banco imagens de satélite.

A ideia central é que cada pecuarista seja identificado de acordo com o estado em que deixou suas propriedades, acumulando pontos positivos ou negativos em um cadastro quando desejar adquirir novas terras.[1]

Se o pecuarista degradou excessivamente as suas terras acumularia pontos negativos em um cadastro e seria obrigado a arcar com os custos de recuperação antes que fosse autorizado a adquirir novas propriedades.

Aquele pecuarista que conseguiu manter bons níveis de produtividade sem degradar o solo teria vantagens quando da aquisição de novas áreas, inclusive com acesso facilitado às linhas de crédito para custeio ou aquisição de máquinas e equipamentos, redução de impostos incidentes, prioridade na implantação de benfeitorias ou infraestrutura pública, etc.

Mas a questão é ainda mais complexa…

Como podemos fiscalizar uma área gigantesca, aproximadamente a metade do nosso território, onde atuam milhares de empreendimentos com os mais diversos níveis de tecnologia e geração de impactos ambientais?

O MPF/PA desenvolveu um trabalho interessante a esse respeito, realizando uma análise em toda a cadeia produtiva da carne no Estado do Pará que envolveu diversos atores: órgãos de fiscalização ambiental, Secretaria da Fazenda Estadual, Ministério da Agricultura, frigoríficos, curtumes, indústrias de calçado, varejistas e BNDES.

A atuação na cadeia produtiva é mais racional, barata e eficaz do que se fizéssemos a fiscalização junto aos empreendimentos agropecuários que atuam “na ponta” do processo, minimizando os problemas decorrentes da falta de infraestrutura e logística na região.

A partir do trabalho junto à cadeia produtiva foi possível firmar os Termos de Ajuste de Conduta (TAC), obrigando a uma alteração nos procedimentos até então vigentes para a comercialização da carne e demais produtos (couro, etc.).

Alguns resultados devem ser destacados:

  • O frigorífico Marfrig compromete-se a não mais adquirir gado daquelas fazendas que desmatam a Amazônia;
  • A Nike e a Timberland, grandes fabricantes de calçados anunciaram que não utilizariam couro oriundo da Amazônia sem que houvesse garantia de origem e cumprimento das normas legais;
  • O BNDES ampliou as exigências para concessão de créditos ao setor, obrigando a verificação da regularidade socioambiental das agropecuárias;
  • Foi desenvolvido um sistema para promover o rastreamento do gado no Estado do Pará com o uso de monitoramento por satélite;
  • Os frigoríficos que atuam na região celebraram Termos de Ajuste de Conduta (TAC) com o Ministério Público Federal.

O processo de fiscalização a partir da cadeia produtiva é interessante e pode gerar bons resultados, inclusive junto a outros segmentos, tais como as madeireiras e o corte ilegal de árvores na região.

  marceloquintiere@gmail.com


[1]  Sugiro a leitura de minha matéria “Proposta aos Ruralistas”, postada neste blog em 29/12/2012.

O Presidente da Nestlé e a Cobrança pela ÁGUA

O Presidente da Nestlé e a Cobrança pela ÁGUA

De tempos em tempos o mundo é invadido por teses e ideias estapafúrdias que procuram impor novos cenários socioeconômicos onde alguns poucos ganham (em geral multinacionais) em detrimento de bilhões de pessoas (em geral os mais pobres).

Como exemplos podemos citar o controle progressivo de empresas como a Monsanto sobre o segmento da produção de sementes selecionadas sob o pretexto de amparar e proteger a pesquisa em biotecnologia, ou mesmo a tentativa de calar a imprensa e o Ministério Público em alguns países sob a justificativa de que é necessário proteger o cidadão contra os excessos praticados.

Recentemente tivemos acesso à posição defendida pelo Presidente do Grupo Nestlé, o senhor Peter Brabeck-Letmathe, no sentido de que “A água não é um direito. Deveria ter um valor de mercado e ser privatizada”.

Para melhor defender o seu ponto de vista o Presidente da Nestlé esclarece que a água de consumo deveria ser privatizada objetivando que, enquanto sociedade, pudéssemos tomar consciência da sua importância, reduzindo o desperdício que se verifica atualmente.

Em sua opinião, a água deveria ser tratada como qualquer outro bem alimentício e ter um valor de mercado que viesse estabelecido pela lei da oferta e da procura.

Fiquei muito curioso com essa ideia e procurei saber mais.

O que representa a Nestlé? Que empresa é essa?

A Nestlé, fundada em 1866, é uma gigante multinacional suíça e algumas informações gerenciais chamam atenção:

  • Atua nos seguintes segmentos: alimentos infantis, água engarrafada, cereais, achocolatados, café, comida congelada, sorvetes, alimentos para animais, sucos, compostos nutricionais, nutrição para desportistas, produtos para controle de peso, e outros.
  • Opera nos cinco continentes em 120 países;
  • Possui 280.000 empregados (dados de 2010);
  • Valor de mercado de aproximadamente U$S 205 bilhões (2010);
  • Faturamento U$S 89 bilhões (2011);
  • Resultado em 2011: Prejuízo de U$S 89 bilhões;
  • Líder mundial na venda de água engarrafada, um segmento que representa considerável parcela da sua receita total.

Esse breve resumo permite verificar que a Nestlé constitui um grupo econômico muito grande e seus interesses são extremamente diversificados.

Podemos dizer também que a empresa trouxe benefícios inquestionáveis no que concerne à segurança e qualidade de seus produtos ao consumidor.

Entretanto, em que pese os benefícios associados à empresa, não posso concordar com a manifestação do seu presidente quando defende que a água não é um direito e que a sua privatização garantiria a redução de desperdícios.

Concordo que há considerável desperdício de água em muitos países (inclusive o Brasil) e que a qualidade deste recurso natural vem sendo reduzida a cada ano em razão de problemas tais como:

  • A poluição industrial;
  • A contaminação pelo lançamento de esgoto não tratado;
  • A extração excessiva das águas subterrâneas;
  • O uso irracional de agrotóxicos, e outros.

Entendo que os problemas citados podem ser combatidos com a aplicação de sanções aos infratores, muitos dos quais são empresas e indústrias de grande porte, e principalmente com o investimento em educação ambiental.

A conscientização do Homem é um processo árduo que exige tempo e dedicação, mas seus resultados são PERENES.

O Homem pode, a partir de sua conscientização, mudar seus hábitos de consumo em busca de maior sustentabilidade, atuando como verdadeiro agente indutor de novas mudanças a partir do seu exemplo.

Além disso, acredito que a posição do presidente da Nestlé tem foco prioritário na questão econômica (o que garantiria maiores lucros para sua empresa) e não garante mudanças de comportamento.

Ao contrário: a limitação de acesso à água já representa uma triste realidade em países pobres da África e do sudeste asiático e não se verifica nenhuma mudança concreta para evitar o desperdício…

No Brasil também enfrentamos problemas semelhantes em regiões tais como o Semiárido.

Estamos falando de bilhões de seres humanos que não terão nenhuma facilidade adicional quanto o acesso à água caso a ideia apresentada venha a ser adotada por parte de seus governos (a maioria dos quais exemplos de inépcia e corrupção).

Impor limitações econômicas ao acesso à água significa ampliar a miséria, a fome, o êxodo rural, a marginalização do Homem nos grandes centros urbanos, a sobrecarga dos serviços públicos, além de comprometer o processo de desenvolvimento dos países mais pobres.

Parece-me um preço muito elevado a ser socializado por toda uma sociedade (em particular nos países mais pobres) para garantir os lucros de multinacionais como a Nestlé.

A água não possui produtos substitutos e sua demanda é inelástica, ou seja, é um produto imprescindível na medida em que um ser humano não pode sobreviver mais do que alguns poucos dias sem acesso ao recurso.

Dominar um mercado desse tamanho, em escala global e atuando sobre um produto único e insubstituível, deve ser mesmo uma imensa tentação.

Uma tentação tão grande que leva o senhor presidente da Nestlé a qualificar como extremistas as ONGs que sustentam que a água deveria ser um direito fundamental.

Ora, todos sabemos que a água é sinônimo de VIDA em todos os países, povos e religiões, independentemente dos aspectos econômicos ou políticos.  Logo, não há extremismo na defesa de sua importância.

Diante daquela declaração tão insensível veiculada na mídia (WWW.ecoagencia.com.br na edição de 24/4/2013) procurei mais informações acerca do senhor Presidente da Nestlé e preferi as “informações oficiais” contidas no site da empresa na Internet.

Descobri algumas informações interessantes:

  • Nascido na Áustria em 1944;
  • Economista;
  • Fala alemão, inglês, francês e espanhol;
  • Foi vice-presidente do Credit Suisse e da L’Oréal; e
  • Membro da diretoria da Exxon.

Um currículo de peso certamente construído com muito esforço, dedicação e competência e que, até mesmo em função disso, deveria ser um passaporte para o bom senso…

As ideias equivocadas e estapafúrdias são, em geral, condenadas ao ostracismo, enquanto que outras, infelizmente, encontram terreno fértil junto a governos corruptos e legisladores ineptos.

O senhor Presidente da Nestlé deveria compreender bem essas questões, pois nasceu em pleno 1944 quando a humanidade presenciava um mundo arrasado pela guerra e miséria impostas por outro austríaco de ideias absurdas chamado Adolf…..Adolf Hitler.

A Nestlé poderia usar melhor sua reconhecida competência no sentido de apoiar projetos de educação ambiental destinados à proteção do meio ambiente e preservação dos recursos naturais.

Outra alternativa seria bancar projetos de engenharia destinados a aumentar a eficácia na gestão de recursos hídricos em países mais pobres, diminuindo o desperdício e os níveis de poluição.

Enfim…existem outras alternativas interessantes para tratamento dos recursos hídricos que podem gerar benefícios a curto prazo para todos os atores envolvidos, inclusive uma multinacional do porte da Nestlé.

Sou engenheiro, escritor e ambientalista, condições conquistadas também com muito esforço, mas não tenho a visibilidade garantida por uma empresa multinacional como a Nestlé.

Minhas palavras terão eco? Não sei…

Pretendo fazer a minha parte:

1) Discutir tecnicamente a questão da cobrança pelo consumo de água;

2) Defender aqueles que não têm voz nem conhecimento técnico; e

3) Fazer um boicote aos produtos da Nestlé, pois com esse tipo de gente o prejuízo ao bolso fala mais alto do que quaisquer argumentos.

marceloquintiere@gmail.com

Combustíveis Fósseis: A Nova Fronteira de Risco

Não existe atividade econômica desconectada no meio ambiente.

A associação entre a atividade econômica e o meio ambiente pode ser observada nas seguintes dimensões:

  • Aumento da demanda sobre bens e serviços ambientais (ex.: água, solo, oceanos, biodiversidade, etc.);
  •  Geração de resíduos e/ou processos poluentes (ex.: indústria de produtos químicos, resíduos da construção civil, etc.);
  •  Produção de Passivos Ambientais que podem vir a comprometer o meio ambiente (ex.: barragens de resíduos químicos, tanques em postos de combustíveis, etc.).

A indústria de combustíveis fósseis não constitui uma exceção.  Ao contrário: poucas atividades econômicas possuem um potencial de impacto ambiental, social e econômico tão abrangente.

Quais os tipos de empresa associados à indústria dos combustíveis fósseis?

Em primeiro plano temos as empresas petrolíferas, muitas das quais listadas entre os maiores conglomerados industriais em escala mundial.

Essas empresas são responsáveis pelas etapas de pesquisa, prospecção, transporte, refino e distribuição de petróleo, gás e seus derivados por todo o planeta.

Além da sua contribuição direta para o aquecimento global e mudanças climáticas, há, ainda, o impacto indireto associado aos setores de transporte e demais processos econômicos que utilizam os seus produtos (ex.: fertilizantes, indústria petroquímica, plásticos, etc.).

Depois devemos considerar as mineradoras de carvão, combustível utilizado desde os primórdios da Revolução Industrial e responsável pela emissão de CO² em larga escala.

Em que pese a enorme importância do setor para o crescimento socioeconômico dos países a indústria dos combustíveis fósseis possui forte impacto ambiental que pode ser resumido da seguinte forma:

  • Emissões diretas e indiretas de CO², alimentando o efeito estufa e o aquecimento global, gerando, em consequência, as mudanças climáticas que poderão afetar nosso planeta de modo irreversível;
  •  Depleção acelerada de recursos não renováveis (petróleo, gás e carvão mineral), contribuindo para um futuro desequilíbrio de preços e instabilidade econômica dada a forte dependência que ainda apresentamos frente aos citados combustíveis;
  •  Geração de passivos ambientais decorrentes de suas atividades e, principalmente, dos eventuais acidentes em sua cadeia produtiva (ex.: rompimento de tubulações como no caso da plataforma da BP no golfo do México, afundamento de grandes petroleiros como o Exxon Valdez e Prestige, etc.).

Em recente artigo publicado no jornal britânico The Guardian o mundo pode estar caminhando para uma gravíssima crise econômica na medida em que os mercados de ações inflam uma bolha de investimento em combustíveis fósseis da ordem de trilhões de dólares.

A chamada “bolha de carbono” é o resultado de um excesso de valorização das reservas de petróleo, carvão e gás que estão nas mãos das empresas de combustíveis fósseis.

De acordo com o relatório de Nicholas Stern, professor da London School of Economics, e o centro Carbon Tracker pelo menos dois terços das reservas de combustíveis fósseis terão de permanecer sob o solo se o mundo quiser alcançar as metas existentes, acordadas internacionalmente, para evitar o agravamento das mudanças climáticas.

O relatório calcula que as reservas mundiais de combustíveis fósseis equivalem a 2,86 bilhões de toneladas de dióxido de carbono, mas que apenas 31% poderiam ser queimadas para manter uma chance de 80% do aumento da temperatura terrestre não exceder 2 graus Celsius.  

As conclusões do relatório de Stern são apoiadas por organizações bancárias de grande porte, tais como o HSBC, Citi, Standard and Poors e a Agência Internacional de Energia.

O Banco da Inglaterra reconheceu que, na medida em que as nações combatam o aquecimento global, haverá o risco de um colapso no valor dos ativos de petróleo, gás e carvão ocasionando um risco sistêmico para a economia.

Como isso funciona?

Em primeiro lugar devemos partir da premissa de que o planeta pode entrar em colapso com o agravamento do processo de aquecimento global.

A partir dessa premissa devemos buscar a redução dos fatores de risco, dentre os quais o cumprimento (e até mesmo a ampliação) dos acordos internacionais para controle das emissões dos gases do efeito estufa.

Se os acordos internacionais para controle climático forem mantidos e cumpridos, as reservas existentes não poderão ser queimadas e serão inúteis – levando a perdas financeiras maciças, uma vez que as grandes empresas do setor de combustíveis fósseis estão muito endividadas e utilizam o preço internacional de suas reservas como garantia dos empréstimos.

Se essas empresas passarem a sofrer limitações em suas atividades de exploração, além de eventuais impedimentos quanto à utilização de suas reservas teremos maior risco de desequilíbrios na cadeia produtiva.

As citadas medidas limitantes (novas explorações e uso efetivo das reservas já identificadas) garantirão, em parte, o controle sobre o aquecimento global, mas condenarão as empresas a uma severa crise de endividamento, pois suas reservas perderão valor e não mais poderão ser aceitas como garantia de empréstimos.

De acordo com a matéria veiculada pelo jornal The Guardian o banco HSBC alertou que 40-60% da capitalização de mercado das empresas de petróleo e gás associados à denominada bolha de carbono, na qual as 200 maiores empresas de combustíveis fósseis acumulam uma dívida de 1,5 trilhão de dólares.

É uma dívida capaz de desequilibrar os frágeis ajustes financeiros atuais, contribuindo para acelerar e aprofundar ainda mais a atual econômica mundial.

Conclusão:

Em uma linguagem popular estamos nos aproximando de uma situação na qual estaremos “entre a cruz e a espada”, ou seja, a proteção do planeta contra os riscos de uma crise climática severa nos forçará a adotar medidas que podem ocasionar a ruptura definitiva do equilíbrio econômico.

Entendo que o risco de acirramento da crise econômica atual é gravíssimo e nossa recuperação se dará ao longo de décadas.

Em que pese as consequências socioeconômicas da crise, não podemos desconsiderar a necessidade de adicionar a questão dos combustíveis fósseis à equação.

Em outras palavras: esse novo componente da equação econômica mundial é grave o suficiente para não ser desconsiderado ou mesmo “esquecido” pelos nossos formuladores de políticas econômicas.

Uma saída interessante e racional seria a composição de alguns elementos chave:

  • O investimento maciço em energias alternativas (solar e eólica);
  • O desenvolvimento de uma economia mais limpa, com menos resíduos e menor dependência dos recursos naturais (solo, água, biodiversidade e combustíveis fósseis);
  • Educação ambiental voltada para nossa adaptação e convívio sob uma economia em transformação;
  • Estímulo ao consumo racional, evitando o desperdício e a sobrecarga dos ecossistemas.

 As duzentas maiores empresas do setor de combustíveis fósseis gastaram U$ 670 bilhões para encontrar e explorar novos recursos, um montante equivalente a 1% do PIB global.

Essa montanha de recursos poderia ser utilizada para o fortalecimento das fontes alternativas (e limpas) de energia.

 As empresas do setor deveriam considerar a seguinte mudança de paradigma: não são apenas empresas de petróleo, gás e carvão, mas sim empresas de energia.

Os tempos mudaram e devemos aproveitar as oportunidades para uma correta adequação aos novos tempos.

Esse artigo me faz recordar de outro ensinamento simples e básico que recebi há mais de 25 anos:

“Economia e meio ambiente sempre caminham entrelaçados…”

 marceloquintiere@gmail.com

2013 – O Ano da Cooperação pela Água

Cerca de 70% da superfície da Terra encontra-se coberta pelas águas sendo que uma parcela equivalente a 97,5% do total constitui-se de água salgada e apenas 2,5% de água doce.

Do total da água doce do planeta apenas cerca de 30,2% pode ser utilizada de modo imediato para sustento e manutenção da vida vegetal e animal, uma vez que devemos considerar que os 69,8% restantes encontram-se nas calotas polares, geleiras e solos gelados.

Em outras palavras, de toda a água existente no mundo, a parcela disponível para nosso consumo imediato a baixo custo corresponde a 0,8% do total.

Além da carência de água doce há que se destacar o contínuo processo de degradação dos padrões de qualidade em função das atividades econômicas tais como indústrias, agricultura intensiva em fertilizantes e agrotóxicos, deposição irregular de lixo urbano, derrames de petróleo e crescentes volumes de esgoto lançados livremente nos cursos d’água.

Devemos considerar, ainda, que nossa população já superou 7 bilhões de pessoas e que suas demandas e usos (em especial a agricultura e as indústrias) consomem volumes imensos de água.

Vejamos o caso da agricultura, a principal atividade humana no que tange ao uso (e desperdício) dos recursos hídricos, responsável por 69% do consumo anual. Estudo divulgado pela Agência Nacional de Águas (ANA) aponta que a irrigação  consome 986,4 mil litros de água por segundo no Brasil.

A prática de irrigação é responsável por 69% do consumo total de água no Brasil, sendo que a maior parte das áreas irrigadas está concentrada nas bacias do Paraná (no Centro-Sul), Atlântico Sul (de SP ao RS) e São Francisco (DF, GO, MG, BA, PE, AL e SE).

Embora a agricultura irrigada permita a ocorrência de safras durante um período mais amplo durante o ano, maximizando o retorno econômico das terras e dos investimentos realizados, há que se destacar que o desperdício ainda é muito elevado, com o uso de sistemas arcaicos, tais como a irrigação por “inundação”, muito utilizada no sudeste asiático e no Rio Grande do Sul para plantio de arroz.

O consumo nas cidades corresponde a 10% do total e o consumo industrial é de 7%. A tabela a seguir fornece uma ideia do consumo de água em algumas atividades industriais:

Tipo de Indústria

Consumo de Água

Têxtil 1000 m³ por tonelada de tecido
Papel 250 m³ por tonelada de papel
Curtume 55 m³ por tonelada de couro
Fábricas de Conserva 20 m³ por tonelada de conserva
Fábricas de Sabão 2 m³ por tonelada de sabão

Dados da ONU indicam que aproximadamente 1 bilhão de pessoas não dispõem de água em quantidade suficiente e que, até o ano de 2035, 5,5 bilhões de seres humanos viverão em áreas com limitações na oferta de água.

Assim, a disponibilidade de água dentro dos padrões de qualidade tende a diminuir cada vez mais em todos os continentes, demonstrando a real necessidade de se rever o sistema de consumo e a solução do problema de disponibilidade em curto prazo.

Seria correto esperar um comportamento mais racional quanto ao uso deste recurso tão precioso e escasso?

Aparentemente sim, mas a prática é muito diferente.

A distribuição e uso da água não seguem padrões necessariamente racionais, o que permite um elevado percentual de desperdício, acentuando ainda mais os futuros conflitos de uso.

Atualmente já se verificam problemas associados ao conflito de uso, elevando cada vez mais a água à categoria de recurso estratégico essencial ao desenvolvimento socioeconômico dos países. O Oriente Médio e a África despontam como áreas onde a crise pelo acesso, distribuição e uso dos recursos hídricos assumem proporções mais graves.

A tabela a seguir destaca algumas bacias hidrográficas onde já se verifica a ocorrência de conflitos de uso entre países:

Bacia Hidrográfica Países Envolvidos
Rio Mekong China, Camboja, Laos, Tailândia   e Vietnam
Rio Jordão Israel e Jordânia
Rios Tigre e Eufrates Turquia, Israel e Síria.
Rio Ganges Índia e Bangladesh

Os conflitos de uso tendem a sofrer considerável acirramento em decorrência das mudanças climáticas que se verificam a partir do aquecimento global.  De acordo com o Painel Internacional sobre Mudanças Climáticas (IPCC) o aquecimento global afetará a disponibilidade de água de diversas bacias hidrográficas.

A título de exemplo estima-se que a Bacia do São Francisco, da qual dependem aproximadamente 20 milhões de pessoas, sofrerá uma redução da disponibilidade de suas águas da ordem de 18 a 23%.  O conflito de uso entre os diversos usuários tende a assumir contornos ainda mais graves.

Diante desse quadro preocupante a Organização das Nações Unidas (ONU) indicou, através de Resolução de sua Assembleia Geral, o ano de 2013 como sendo o Ano Internacional para a Cooperação pela Água.

O objetivo dessa ação da ONU é promover uma maior interação entre nações e debater os desafios do manejo da água, em especial no que concerne às reservas e fontes transfronteiriças, compartilhadas por países vizinhos.

Algumas ações podem ser desenvolvidas para minimizar os problemas da gestão dos recursos hídricos:

  •  Redução no lançamento de efluentes tóxicos, domésticos ou industriais, sem tratamento adequado;
  • Recuperação da mata ciliar, evitando erosões e assoreamento de rios;
  • Desenvolvimento de estratégias e técnicas construtivas voltadas à minimizar a impermeabilização dos solos nos centros urbanos (ilhas de calor);
  • Racionalização na exploração dos aquíferos estratégicos;
  • Campanhas intensivas de educação ambiental destinadas a combater o desperdício,
  • Desenvolvimento de métodos e processos produtivos mais racionais no setor industrial, evitando o desperdício e a degradação da qualidade da água;
  • Implantação de política e mecanismos adequados para ações de saneamento básico;
  • Estruturação de mecanismos internacionais para dirimir conflitos de uso entre as nações.

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A Beleza e a Especulação Imobiliária

Recentemente li uma matéria interessante que associava a beleza de uma praia e a especulação imobiliária.

A praia, que se chama Cox’s Bazar, é realmente bonita e se iguala àquelas existentes no nordeste brasileiro ou em Cancun.

Duas outras características saltam aos olhos: a praia  tem 125 quilômetros ininterruptos de extensão e está localizada em um país ainda considerado pobre: Bangladesh.

Bangladesh tem uma população considerável (142 milhões de habitantes), uma densidade populacional elevada (mais de 1.000 habitantes/km²) e um PIB estimado em 113 bilhões de dólares, o que nos leva a uma PIB per capita de apenas 640 dólares.

Dentre as atividades econômicas se destacam a agricultura (arroz, batata, frutas tropicais, juta e chá) e a indústria têxtil, o turismo e a construção naval.

Os investimentos estrangeiros crescem como em boa parte dos países em desenvolvimento, provavelmente atraídos pelo baixo custo da mão de obra local e pelas carências e lacunas existentes.

O governo de Bangladesh deseja transformar Cox’s Bazar em um destino turístico de classe internacional, atraindo investimentos, turistas e bilhões de dólares anuais.

Como sempre ocorre a ideia parece bastante interessante a priori, mas os riscos ambientais não podem ser desconsiderados.

A construção de centenas de empreendimentos de médio e grande porte poderão ocasionar impactos nocivos ao meio ambiente.

Os impactos são potencializados pela construção de centenas de empreendimentos desprovidos de licença ambiental, a maioria erguida muito próxima (ou dentro) da faixa de areia.

São hotéis, resorts, restaurantes e marinas que geram os seguintes impactos:

  • Extração crescente de madeira das florestas vizinhas para as construções;
  • Deslizamentos de terra e morte de pessoas;
  • Destruição de áreas de corais para fabricação de souvenir;
  • Geração excessiva de lixo sólido e esgoto;
  • Crescimento populacional;
  • Sobrecarga para os serviços de saneamento, limpeza urbana, tratamento de água e oferta de energia.;
  • Comprometimento da biodiversidade local; etc.

Esse tipo de problema ocorre também no Brasil.

Assim que uma praia é “descoberta” e passa à condição de point turístico temos sua rápida degradação.  Em poucos anos todas as belezas naturais que deram origem ao crescimento socioeconômico desaparecem e os turistas partem para novas alternativas.

Como exemplo concreto destacamos algumas praias de Florianópolis, tais como Campeche, Armação, Ingleses, Canasvieiras e outras, nas quais a especulação imobiliária e o crescimento desordenado alimentaram sua degradação.

Em poucos anos dezenas de imóveis foram construídos à beira mar, alguns dentro da própria faixa de areia, e os ecossistemas entraram em processo de colapso e destruição.

A título de exemplo podemos citar a praia de Jurerê Internacional, também em Florianópolis, planejada de forma racional e transformada em polo de atração de milhares de turistas a cada ano.

Trata-se de um empreendimento com impacto ambiental mais reduzido, com tratamento do esgoto, campanhas de conscientização dos turistas, regras rígidas para ocupação e construção, etc.

Em síntese: é possível explorar as belezas naturais e manter o seu potencial atrativo durante décadas, desde que sejam observados cuidados mínimos com a proteção dos ecossistemas.

Não defendemos a paralisação dos investimentos, apenas defendemos a maior racionalidade nos investimentos para não matarmos a “galinha dos ovos de ouro”.

Entendemos que o crescimento socioeconômico constitui uma necessidade básica das nações (em especial aquelas mais pobres), mas é necessário que seja alcançado de forma segura e planejada.

Devemos conciliar o crescimento com a proteção dos ecossistemas evitando romper a sua capacidade de recuperação (resiliência). Na verdade deveríamos estudar com maior detalhe as reais condições de suporte de cada ecossistema ANTES de autorizarmos a construção / ocupação.

Infelizmente essa preocupação ambiental não costuma encontrar eco junto às autoridades municipais, mais interessadas no ganho financeiro rápido e na geração de empregos.

Assim, se você considera necessário desenvolver sem degradar o meio ambiente, assuma uma postura mais crítica em relação aos “incríveis” lançamentos imobiliários e procure cobrar das autoridades locais o seguinte:

  • Projeto urbanístico;
  • Processo de licenciamento ambiental, inclusive com as necessárias audiências públicas;
  • Cuidados ou projetos que devem ser inseridos, tais como a educação ambiental, a proteção de ecossistemas nativos, a economia de água, o tratamento de esgotos e resíduos sólidos, etc.
  • Criação de lei municipal que obrigue a destinação de parcela do valor dos imóveis para aplicação em projetos ambientais (uma forma de compensação pelos danos ambientais gerados).
  • Proibição da extração de corais;
  • Projetos para proteção de matas nativas, áreas de dunas e/ou mangues, etc.

Faça a sua parte e permita que seus netos usufruam dos bens e serviços ambientais.

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O Reino de Bushlândia – Uma Fábula Ambiental

           Nossa história começa no distante Reino de Bushlândia, o mais rico que jamais existiu.

            Bushlândia estava situado em uma grande ilha no meio do Oceano Atlântico e era conhecido pela enorme riqueza em minérios, petróleo e terras férteis.

            Durante séculos o reino investiu grandes somas de dinheiro no desenvolvimento de tecnologias sofisticadas e detinha os melhores e mais capacitados centros de pesquisa do mundo. Aquela política acertada trouxe mais riqueza e concentração de poder.

            A vida em Bushlândia passou a ser o sinônimo da prosperidade.

            Entretanto, os súditos de Bushlândia passaram a desenvolver hábitos estranhos ao longo das últimas décadas:

  • podiam gastar seus salários e assumir grandes dívidas sem pensar nas consequências, pois, como todos sabiam, Deus era Bushlandês;
  • todos usavam carros com potentes motores V-8, aqueles que consomem muita gasolina e poluem a atmosfera;
  • os eletrodomésticos, móveis e roupas eram trocados incessantemente em uma verdadeira corrida consumista. Se algum aparelho quebrava era trocado de imediato, pois as oficinas de reparos já não existiam mais.

           Mas o hábito mais estranho em Bushlândia era o churrasco diário. Havia tanto dinheiro e tanta carne disponíveis que os súditos faziam churrascos três vezes ao dia: manhã, tarde e noite.

            Para saciar a sua fome os súditos sacrificavam milhões de cabeças de gado e extraíam milhões de toneladas de carvão. Mas aquela festança gastronômica trazia um problema de relacionamento com os demais reinos existentes na periferia de Bushlândia.

           Esses reinos eram muito pobres e a maioria das suas casas era construída de madeira.

           O vento forte da região sempre soprava as brasas dos churrascos para as outras ilhas e causava imensos incêndios, o que dificultava ainda mais a vida sofrida naqueles reinos mais pobres.

           E não adiantava reclamar, pois as respostas eram sempre as mesmas:

  • “O vento é muito fraco para levar as brasas até os outros reinos;”
  • “Temos o direito de comer, pois sentimos mais fome do que as outras pessoas”;
  • “Se não comermos o gado todos os dias haverá um desequilíbrio ambiental”;
  • “As brasas são, na realidade, pequenos meteoros que insistem em cair no mesmo lugar”;
  • “Nossos cientistas ainda estão analisando a questão;”

            E aquele comportamento egoísta e arrogante perdurou durante muitos e muitos anos apesar dos esforços mundiais para convencer o governo de Bushlândia.

            Um dia o merecido castigo veio dos céus: o vento mudou de direção e as brasas produzidas naqueles milhões de churrascos caíram sobre o Reino de Bushlândia!

            Os focos de incêndio rapidamente tomaram os campos e o gado foi dizimado em poucas horas.  Os serviços do reino entraram em colapso, pois não havia condição para atender a tantas emergências ao mesmo tempo.

             Muitas pessoas morreram de fome e as indústrias foram fechadas por falta de demanda. Em poucas semanas a riqueza existente foi destruída e Bushlândia nunca mais se recuperou.

             Escrevo essa fábula ambiental como um alerta ao comportamento equivocado assumido pelos Estados Unidos quanto às questões ambientais.

             Até poucos anos atrás, enquanto o mundo buscava soluções para o aquecimento global, os americanos insistiam na tese de que ainda não havia uma certeza científica acerca do problema.

             Enquanto o mundo observava os primeiros sinais associados às mudanças climáticas os EUA preferiram manter seus níveis de consumo, inclusive no que concerne ao uso insustentável dos recursos naturais, sob o argumento de que precisavam proteger a sua economia.

            Sabemos que a capacidade de suporte dos ecossistemas é FINITA, ou seja, uma vez rompido o nível de resiliência a recuperação ambiental será muito mais lenta ou até mesmo inviável.

            A resiliência é fruto de uma combinação de muitos fatores cuja sinergia ainda é desconhecida, ou seja, não temos absoluta certeza do comportamento que será assumido pelo ecossistema afetado por um grande impacto ambiental.

           Além disso, a resiliência sempre é diferente para ecossistemas distintos: para cada conjunto de fatores e para cada tipo de ecossistema teremos comportamentos distintos cujos resultados finais não são conhecidos.

           Diante desse quadro de incerteza não seria mais prudente agir com maior precaução e menos arrogância?

          Os EUA são responsáveis por grande parcela da poluição atmosférica em escala mundial, mas parecem desconectados da realidade. Tal comportamento foi observado quando os americanos se negaram a assumir sua responsabilidade pelo controle das emissões estabelecidas no Tratado de Kioto.

           O resultado (ou castigo como preferem alguns) vem aos poucos, tal como uma torneira que lentamente enche um balde…

           O primeiro exemplo veio em 2005 com o furacão Katrina, causando centenas de mortes e bilhões de dólares em prejuízos.

           Nessa semana a tempestade tropical Sandy atingiu grande parte da costa leste, em especial a cidade de Nova York, um dos ícones do consumo mundial.

            De acordo com os dados preliminares do governo americano os impactos são os seguintes:

  •  Mais de 100 mortos nos EUA e 67  no Caribe;
  • 700 mil casas e 8,0 milhões de americanos sem energia elétrica;
  • Incêndio de grandes proporções, destruindo mais de 60 edifícios e casas em NY;
  • Aeroportos e metrôs fechados;
  • 15.000 voos cancelados;
  • Pontes e túneis bloqueados;
  • Usinas de energia elétrica fechadas
  • Áreas em Nova York submersas com até três metros de água do mar;
  • Perdas de US$ 20 bilhões apenas com o pagamento de seguros;
  • Perdas totais de até US$ 50 bilhões

           Esse tipo de fenômeno não pode ser imputado a uma mera coincidência ou à ira divina.

          Ao contrário: tempestades tropicais e furacões dessa magnitude continuarão a ocorrer de forma crescente (em número e intensidade) na medida em que o aquecimento global fugir de controle.

           Os furacões sempre existiram, mas sua frequência e intensidade vêm crescendo a cada ano, assim como os prejuízos econômicos e as perdas de vidas humanas.

           Quanto aos EUA continuaremos aguardando demonstrações de bom senso e uma alteração de rumo em sua política econômica de forma a evitarmos um desfecho trágico.

           As propostas são conhecidas e indicam um caminho mais racional a seguir, o que envolveria o controle das fontes poluidoras, a redução nas emissões, o incentivo ao uso de energias renováveis, redução na dependência de combustíveis fósseis, etc.

           Mas, acima de tudo, seria interessante que os americanos tentassem responder a uma questão das mais complexas:

           Qual é o preço da arrogância?

           Afinal, ninguém suporta um vizinho como o Reino de Bushlândia.

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