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As Embalagens Tetra Pak

Quando as embalagens do tipo Tetra Pak, também conhecidas como Longa Vida, foram apresentadas ao mercado consumidor suas vantagens logo se tornaram evidentes.

O novo conceito de embalagem garantia maior proteção contra contaminações por micro-organismos e estava amparado em uma tecnologia revolucionária desenvolvida na década de 50 pelo sueco Ruben Rausing.

A embalagem desenvolvida era composta por camadas sobrepostas de plástico, alumínio e papel que, além de garantir maior proteção, ainda possibilitavam a conservação do produto.

Ao retiramos um pequeno pedaço da embalagem constatamos que é composta, na realidade, por seis (6) camadas que se sobrepõem da seguinte forma:

  •  As duas camadas internas são de plástico e têm a função de proteger o produto, evitando o contato deste com as outras camadas;
  •  A terceira camada é feita de alumínio e sua função consiste em evitar a passagem da luz e do oxigênio, o que permite maior proteção contra processos de oxidação;
  •  A quarta camada é de plástico;
  •  A quinta camada é feita de papel e possui uma função estrutural, conferindo sustentação às demais camadas, além de possibilitar a impressão de dados referentes ao produto (conteúdo, valor nutricional, nome da empresa, composição química, modo de preparo, etc.);
  •  A sexta e última camada utiliza novamente o plástico e sua função é proteger a camada de papel e as informações impressas.

O uso dessa sequência de camadas permite que o produto seja conservado fechado por longos períodos sem que haja riscos de contaminação, inclusive sem a necessidade de contar com um ambiente refrigerado.

As vantagens eram tão evidentes que em pouco tempo a embalagem conquistou o mercado internacional.  Atualmente é possível encontrarmos as caixinhas tetra pak sendo usadas para armazenar sucos, vinhos, leite, molho de tomate, água de coco e diversos outros produtos.

Entretanto, a nova embalagem apresentava um problema que só foi detectado quando a sua produção já enchia os aterros sanitários de todo o mundo: a ausência de alternativas que possibilitassem a sua reciclagem, promovendo a separação das suas camadas após o descarte.

Assim, não havia interesse econômico em promover a reciclagem de milhões de embalagens e uma quantidade significativa de plástico e alumínio, produtos com elevado valor agregado, acabava sendo desperdiçada.

Esse problema foi superado com o esforço dos pesquisadores e técnicos de uma empresa de engenharia ambiental chamada TSL que, após dez anos de trabalho em parceria com o Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo (IPT), desenvolveu uma tecnologia que utiliza o plasma, considerado como o quarto estágio da matéria, capaz de fazer a separação das camadas de plástico, alumínio e papel.

A aplicação dessa tecnologia para reciclagem total de embalagens cartonadas em escala industrial envolveu um investimento de R$ 35 milhões, feito através de parceria entre as empresas Tetra Pak, Klabin e TSL Engenharia Ambiental na criação da empresa EET Brasil Alumínio e Parafina Ltda.

O investimento das três empresas inclui o desenvolvimento do projeto e uma planta exclusiva de reciclagem, localizada em Piracicaba, interior de São Paulo, e com capacidade para processar seis mil toneladas de plástico e alumínio por ano.

A planta, voltada exclusivamente, para o beneficiamento do polietileno e do alumínio presentes na embalagem cartonada, popularmente chamada de Longa Vida, utiliza um Reator Térmico que separa o alumínio e o plástico que compõem essa embalagem.

Este reator, através do controle de temperatura e atmosfera, permite a volatilização dos hidrocarbonetos do polietileno, permitindo sua recuperação, através da captura dos voláteis em tanques de condensação. O alumínio passa pelo reator sem sofrer nenhuma reação química, ele apenas é fracionado sob a forma de flakes.

O processo revoluciona o modelo atual de reciclagem dessas embalagens, representando mais uma opção que permite a completa separação dos três componentes da embalagem que voltam para a cadeia produtiva como matéria-prima.

A participação das empresas no processo de reciclagem é a seguinte:

1) A Tetra Pak é responsável pela organização do sistema de coletas das aparas, através de cooperativas de catadores, mantendo um vínculo estreito com todos os elos da cadeia, fomentando trabalhos de desenvolvimento por toda a cadeia de valor, como por exemplo: investindo no nosso processo;

  2) A Klabin compra as aparas destas cooperativas e as processa em sua planta em Piracicaba (SP) de forma a reciclar as fibras de celulose, que serão usadas como matéria-prima para produção de papelão.

3) A EET compra o PA gerado nas operações da Klabin e faz o processamento com o uso do reator de plasma, obtendo a separação das camadas de alumínio e de plástico que serão posteriormente vendidas.

A previsão é que sejam processadas 6  mil toneladas de plástico e alumínio por ano, o equivalente a 24 mil toneladas de embalagens inteiras.

Esse projeto representa um avanço considerável em termos de logística reversa, conforme disposto na Política Nacional dos Resíduos Sólidos (Lei n.º 12.305/2010).

Das 500 toneladas/mês de polietileno e alumínio são produzidas 200 toneladas de matéria-prima para a indústria de plástico, 125 toneladas de Cera de Polietileno (parafina), 125 toneladas de compostos parafínicos (óleos e graxas) e 50 toneladas de flakes de alumínio.

Com isso, espera-se estimular as cooperativas e centrais de triagem a recolherem o material, tornando a reciclagem das caixas longa vida um bom negócio para todos.

O processo desenvolvido inteiramente no Brasil possui, além dos ganhos financeiros da reciclagem, outras vantagens que merecem destaque:

  •  Reduz a sobrecarga nos aterros sanitários;
  • Para cada kg de produto processado na EET,  160 caixinhas longa vida deixam de ir para os aterros sanitários ou lixões, onde permaneceriam por longo período, uma vez que a sua natural degradação é muito lenta, principalmente da fração de polietileno.
  •  Não emite poluentes;
  •  Benefício à comunidade com a geração de trabalho, emprego e renda.

Conclusão

Esse projeto constitui um excelente exemplo de tecnologia inovadora e do enorme potencial econômico associado à gestão de resíduos sólidos no Brasil.

Não poderíamos deixar de mencionar que novos empreendimentos no segmento da gestão dos resíduos sólidos tendem a surgir com maior frequência, além de atraírem maiores volumes de capital financeiro, inclusive internacional.

A explicação é simples: a publicação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS – Lei n.º 12.305/2010) garantiu um mercado de milhões de toneladas anuais de resíduos sólidos.

Em outras palavras o Brasil passa a oferecer enormes volumes de resíduos que, segundo a lei, devem ser tratados de forma ambientalmente sustentável.

Assim, os grupos nacionais e estrangeiros especializados na gestão dos resíduos passam a dispor de uma economia de escala considerável, além da obrigatoriedade legal imposta aos gestores para solucionar o problema dos resíduos sólidos em suas esferas de atuação.

marceloquintiere@gmail.com

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A PNRS e As Embalagens

As embalagens constituem um percentual significativo de tudo aquilo que descartamos no processo de consumo, seja em peso ou em volume.

Os exemplos mais comuns são as embalagens de refrigerante, óleos lubrificantes, agrotóxicos, e outros que, além do volume e do peso, empregam materiais nocivos ao meio ambiente.

As garrafas do tipo PET, cuja degradação é bastante lenta, estão se transformando gradualmente em um grave problema ambiental na medida em que são descartadas aos milhões em esgotos a céu aberto, lixões, rios, lagos, etc.

Atualmente é possível observar a formação de imensas ilhas nos oceanos Pacífico e Atlântico constituídas pelo descarte de milhares toneladas de resíduos plásticos a cada ano.

Esse material plástico é degradado lentamente e acaba por comprometer a cadeia alimentar, representando risco de graves prejuízos aos ecossistemas.

A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS – Lei n.º 12.305/2010) contempla a questão das embalagens sob o prisma ambiental, estabelecendo que a sua produção deva utilizar materiais do tipo reutilizável (ex.: garrafas de vidro) ou, caso não seja tecnicamente possível efetuar a sua reutilização, que sejam produzidas com material reciclável.

“Art. 32.  As embalagens devem ser fabricadas com materiais que propiciem a reutilização ou a reciclagem.”

A reutilização é um processo sustentável que demanda menos energia, água e matéria prima.

Um exemplo bastante conhecido são as garrafas de vidro de refrigerante que retornam aos fabricantes para limpeza e posterior reutilização em novo ciclo produtivo.

Segundo informações veiculadas pelas empresas engarrafadoras de refrigerantes uma garrafa de vidro pode ser reutilizada por até 15 vezes com custos mínimos associados à coleta, transporte e limpeza.

Entretanto, em muitos casos o processo de reutilização não é tecnicamente viável, o que implica dizer que o resíduo gerado pós-consumo deverá ser destinado aos processos de reciclagem.

Nesse grupo encontramos as latinhas de alumínio que não podem ser simplesmente reutilizadas após o uso, uma vez que estão amassadas e sem o lacre, ou seja, não adiantaria efetuar a limpeza das latinhas coletadas e colocá-las novamente no ciclo de produção da empresa.

O caminho mais adequado é a reciclagem na qual as latinhas são coletadas, comprimidas em fardos e enviadas às siderúrgicas especializadas, onde serão derretidas e transformadas em chapas de metal para posterior utilização, inclusive pelas fábricas de cerveja e refrigerantes.

A reciclagem envolve custos financeiros mais elevados do que a reutilização, em especial no que concerne à necessidade de uso de energia elétrica para derretimento e homogeneização do produto, ou seja, trata-se de um processo industrial de maior complexidade.

Quais as vantagens associadas ao processo de reciclagem?

A reciclagem possui algumas vantagens frente aos processos primários de produção, dentre as quais destacamos:

  • Maior racionalidade na utilização de minérios e outros recursos naturais;
  • Economia de energia elétrica;
  • Redução no consumo industrial de água;
  • Aumento da vida útil dos aterros sanitários;
  • Diminuição das áreas degradadas pela extração do minério;
  • Diminuição da poluição industrial;
  • Geração de empregos em setores industriais e de prestação de serviços;
  • Supressão de etapas do processo produtivo tradicional.

Vejamos o caso específico da produção de alumínio.

As empresas mineradoras empregam somas consideráveis de recursos para encontrar as jazidas de bauxita das quais será extraído o alumínio metálico.

O processo padrão envolve inicialmente as etapas típicas de uma atividade mineradora, tais como a pesquisa, lavra e beneficiamento da bauxita.

Após encontrar uma jazida de bauxita com viabilidade econômica a empresa mineradora assume os custos associados à lavra e transporte do material até as plantas industriais.

Devemos observar que uma indústria desse porte torna-se viável quando há economia de escala, ou seja, o processamento de enormes volumes de bauxita.

Assim, quando mencionamos o transporte da bauxita minerada estamos considerando volumes da ordem de milhões de tonelada a cada ano, o que torna necessário o investimento em logística, inclusive no que concerne à construção de ferrovias e posterior interligação de modais de transporte (ferrovia – porto).

Nas plantas industriais de grande porte a bauxita será processada para obtenção da alumina e, posteriormente, do alumínio metálico.

Esse processo tradicional exige grandes investimentos na formação de mão de obra qualificada, na aquisição de máquinas e equipamentos sofisticados, bem como na oferta firme de energia elétrica (ex.: Usina de Tucuruí no Estado do Pará).

Os custos deste processo são elevados e sua logística é bastante complexa, justificando o emprego da reciclagem como alternativa, uma vez que esta não exige as etapas de pesquisa mineral, lavra e beneficiamento, bem como diversas operações industriais.

Na reciclagem as indústrias processam matéria prima que já se encontra na forma de alumínio.

Essa diferença de custos explica o enorme percentual de reciclagem atingido pelas latinhas de alumínio em todo o mundo, superando a faixa de 98% no Brasil, o que representa um êxito expressivo em termos de logística reversa.

O uso da reutilização e da reciclagem contribuirão para a redução do consumo de diversas matérias-primas  que seriam empregadas em novas embalagens, minimizando os custos financeiros atrelados à logística de distribuição e ao consumo de energia elétrica.

A PNRS vai mais além no tratamento da questão das embalagens ao estabelecer que as mesmas devam ser projetadas em sintonia com as reais necessidades de proteção e comercialização do produto.

“Art. 32.  

            § 1o  Cabe aos respectivos responsáveis assegurar que as embalagens sejam: 

I – restritas em volume e peso às dimensões requeridas à proteção do conteúdo e à comercialização do produto.” 

 Se observarmos nosso carrinho de compras do supermercado veremos que em muitos casos, os produtos adquiridos são comercializados em embalagens desproporcionais aos seus volumes.

É o caso, por exemplo, das embalagens de cereais que apresentam um significativo espaço vazio sem nenhuma necessidade.

Em outras palavras: ao consumirmos uma caixa de cereais estamos comprando uma embalagem excessivamente grande.

As empresas de embalagem precisam reconhecer o mundo em transformação no qual estão inseridas.

É necessário um ajuste das indústrias e das agências de marketing de modo a racionalizar o processo de fabricação e promover o convencimento dos consumidores, adequando a necessidade de proteção dos produtos às embalagens mais apropriadas ambientalmente.

Da mesma forma o setor produtivo deve promover mudanças no hábito dos consumidores, estimulando a reutilização e reciclagem das embalagens através da logística reversa.

É o que está ocorrendo no mercado das cervejas!

Até recentemente as indústrias de cerveja fabricavam garrafas de vidro que não retornavam ao ciclo produtivo, ou seja, o consumidor pagava pela embalagem, mas ela não era encaminhada à reutilização ou à reciclagem.

Não havia essa preocupação.  Após a publicação da PNRS já observamos alterações no segmento industrial.

Atualmente as mesmas fábricas de cerveja informam que as garrafas de vidro vazias poderão ser trocadas (sem custo para o consumidor) por embalagens cheias.  Assim, as indústrias cumprem a PNRS no tocante ao estímulo à reutilização, reduzindo seus custos de produção.

O mais interessante dessa mudança de hábitos é que, na prática, estamos ressuscitando um comportamento que era praticado nas décadas de 60 e 70.  Lembro de que, quando criança, era comum levarmos as garrafas de refrigerante vazias (chamadas de “cascos”) para trocar por novas garrafas.

Todo processo produtivo é passível de aperfeiçoamento, em especial se adotarmos o nosso bom senso.

marceloquintiere@gmail.com      MQuintiere@twitter.com