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Oceanos e Riscos Ambientais

          Ao observarmos o oceano temos a sensação de que suas dimensões são infinitas e que não há risco ou ameaça que possa causar danos ambientais de maior impacto ou persistência ao longo do tempo.

            A sensação descrita está a cada dia mais distante da realidade: os oceanos correm riscos consideráveis e, SENDO FINITOS, são passíveis de entrar em uma situação de colapso.

            Assim, o primeiro aspecto que devemos destacar está associado às dimensões “infinitas” dos oceanos: na realidade temos dimensões finitas e, portanto, passíveis de alterações causadas pela ação humana.

            Se compararmos o planeta Terra com uma maçã veremos que o “oceano infinito” seria menos espesso do que a casca daquela maçã.

           Essa comparação pode parecer estranha diante da escala de tempo e espaço à qual estamos mais habituados, mas a questão é que os oceanos congregam ecossistemas distintos e frágeis, devendo ser objeto de contínua preocupação.

          Embora as dimensões dos oceanos sejam mais reduzidas do que pensamos, o mesmo não se pode afirmar com relação aos impactos ambientais crescentes que promovemos.

          Nesse artigo apresentaremos um breve resumo de alguns impactos severos que implicam em grandes riscos para os ecossistemas marinhos, bem como suas origens e  interfaces mais relevantes.

a)     A Introdução de Espécies Exóticas

          O comércio marítimo internacional é uma das atividades econômicas que atualmente apresenta crescimento mais significativo: são centenas de bilhões de dólares sendo transportados em milhares de embarcações de todos os modelos e dimensões.

          Além do risco vinculado aos eventuais acidentes (ex.: petroleiros) devemos considerar o comércio marítimo como sendo um forte mecanismo de propagação de espécies entre os diversos ecossistemas, o que se traduz em riscos de desequilíbrios ambientais.

         O exemplo mais comum está atrelado à contaminação pela chamada água de lastro, mecanismo de segurança presente nas embarcações de maior porte cuja função consiste em aumentar a estabilidade durante a navegação.

        O mecanismo é simples: os tanques internos do navio recebem água no porto de origem para aumentar o peso e garantir maior estabilidade.  Quando o navio chega ao seu destino a água de lastro é retirada.

        O problema é que a água transportada contém milhões de ovos, larvas, protozoários e pequenos animais que serão levados para outros ecossistemas. Se o novo habitat não apresentar limitações ao desenvolvimento, tais como a temperatura, acidez e inimigos naturais, os novos organismos crescerão até constituir um impacto ambiental relevante.

         No Brasil enfrentamos o problema da introdução do mexilhão dourado com considerável prejuízo econômico.

 b)    Contaminação por substâncias Tóxicas

        Ao longo do processo de desenvolvimento econômico o homem criou milhões de produtos e compostos químicos que, em muitos casos, acabam sendo descartados nos oceanos.

       Vejamos o caso dos agrotóxicos (fertilizantes químicos, fungicidas, inseticidas, bactericidas, herbicidas e outros) cujo emprego vem crescendo de forma vertiginosa[1].  O emprego excessivo desses produtos, aliado às práticas inadequadas de proteção do solo, ocasionam desperdícios, contaminação dos solos e recursos hídricos e a contaminação dos oceanos.

        A presença de contaminantes químicos pode reduzir a capacidade de dispersão de larvas de animais marinhos e influenciar o ritmo de crescimento de indivíduos em algumas espécies, limitando as suas possibilidades de reprodução e perpetuação em outros ecossistemas.

       As substâncias tóxicas possuem, além do seu impacto local, outros problemas que devem ser destacados:

 1)     A possibilidade de que sejam transportadas pela ação das correntes oceânicas, contaminando outras áreas mais distantes. Assim, um produto químico tóxico pode afetar uma grande área dos oceanos.

            Como exemplo podemos destacar a contaminação decorrente de acidentes com a indústria petrolífera (BP no Golfo do México, Araucária no Paraná, Afundamento da Plataforma P-36 da Petrobrás, etc.) nos quais ocorre a rápida ampliação da área afetada pela ação das correntes e do vento, disseminando a poluição.

 2)     A capacidade de alguns contaminantes em penetrar na cadeia alimentar, afetando todos os organismos em diferentes níveis tróficos.

           O exemplo mais destacado é o denominado Mal de Minamata, associado à contaminação por mercúrio.  O metal sofre transformações bioquímicas e passa à forma de metil-mercúrio, comprometendo a cadeia alimentar e contaminando crustáceos, peixes e o próprio homem.

           A esse respeito devemos recordar que o mercúrio é bioacumulativo, ou seja, o ser humano não tem capacidade de excretá-lo para reduzir o nível de sua presença no organismo.

 3)     A persistência nos ecossistemas, ou seja, a capacidade de permanecer ativo como um contaminante ao longo de amplo período de tempo (as Bifenilas Policloradas – PCB podem permanecer ativas por períodos de 70 a 110 anos).

          Assim, um acidente com substâncias químicas tóxicas de caráter mais persistente pode se traduzir em um impacto que será sentido ao longo de décadas, prejudicando atividades econômicas e o próprio desenvolvimento dos ecossistemas afetados.

 c)     Plásticos

            O uso de plásticos em suas diversas composições teve início no século XIX e atualmente alcança a cifra de aproximadamente 300 milhões de toneladas anuais.

            Esse crescimento vertiginoso é fruto das vantagens que os consumidores e o ciclo econômico associam ao produto, em especial o seu baixo custo, durabilidade,  peso específico reduzido, durabilidade e versatilidade.

           Em que pese o conjunto de vantagens os plásticos são elementos perigosos quando presentes nos oceanos, quando podem ser ingeridos pelos animais e causar intoxicações, doenças e limitações à locomoção, alimentação, respiração e reprodução.

            Além desses aspectos o plástico pode ser decomposto pela ação da água do mar, liberando, ao longo de muitos anos, seus componentes tóxicos.

          Atualmente é possível observar grandes “ilhas” com dezenas de quilômetros quadrados composta por plásticos, dificultando a navegação e, pior, comprometendo o equilíbrio ecológico dos ecossistemas.

 d)    Processo de Acidificação

         Um dos principais serviços ambientais prestados gratuitamente pelos oceanos é a absorção de gases atmosféricos, o que contribui para a ciclagem de elementos e a manutenção do equilíbrio ambiental.

          O dióxido de carbono (CO²) é um gás estufa presente em volumes crescentes na atmosfera e reconhecido como um dos principais geradores do denominado aquecimento global.

           Os oceanos absorvem o CO², limitando sua participação no aquecimento global, mas há um custo ambiental significativo associado ao processo de acidificação.

           O CO² combinado com a água produz ácido carbônico e contribuirá com o aumento do pH dos oceanos comprometendo formações tais como os corais e as demais espécies com exoesqueletos de carbonatos que serão gradualmente corroídos.

           Os corais ocupam apenas um centésimo da área dos oceanos, mas possuem uma enorme importância para a manutenção dos ecossistemas, uma vez que pelo menos a metade das espécies de peixes marinhos dependem deles, em algum momento de sua vida, seja para abrigo, reprodução ou alimento.

            Estima-se que 10% dos corais já estejam degradados de modo irreversível e outros 60% correm risco de seguir o mesmo caminho.

           Assim, um ambiente mais ácido poderá afetar a cadeia alimentar e os processos reprodutivos de muitas espécies, gerando desequilíbrios ambientais como a redução de algumas espécies e a proliferação de outras.

 e)     Aquecimento dos Oceanos

          O aquecimento global é um fato incontestável, ocasionando diversos impactos socioeconômicos e ambientais. Desde a década de 50 a temperatura média da superfície dos oceanos aumentou em 0,4º C.

           No caso específico dos oceanos o aquecimento se traduz em alterações importantes, tais como:

  •  A diminuição da circulação de nutrientes entre as diferentes camadas de profundidade;
  • Redução na concentração de oxigênio nas camadas superiores, comprometendo a sobrevivência de espécies que se concentram naqueles nichos;
  • Redução das populações de fitoplâncton, responsáveis pela metade da produção de oxigênio;
  • Comprometimento dos corais, etc.

            O conjunto dessas agressões aos oceanos pode provocar alterações em cadeia a ponto de, em um nível mais extremo, promoverem uma sinergia negativa com o surgimento de novos impactos ainda mais danosos.

            Assim, é necessário adotar medidas concretas para proteger os oceanos, dentre as quais podemos destacar:

  •  A criação de novas unidades de conservação destinadas à proteção dos ecossistemas marinhos e costeiros;
  • A ampliação de pesquisas relativas  aos ecossistemas marinhos;
  • Identificar e limitar os diversos impactos/ameaças aos ecossistemas como, por exemplo:
    • Coibir a pesca predatória;
    • Reduzir a sobrecarga de poluentes e substâncias tóxicas lançadas nos oceanos;
    • Promover o tratamento do esgoto doméstico e industrial, impedindo o seu lançamento in natura nos oceanos;
    • Reduzir a introdução de organismos exóticos a partir da água de lastro;
    • Incentivar a racionalização e aumento de eficiência da indústria  pesqueira;
    • Desenvolver processos destinados ao aproveitamento integral e racional dos produtos da pesca;
    • Implantar e fiscalizar períodos de defeso para proteção das espécies durante o período de reprodução; etc.

marceloquintiere@gmail.com

MQuintiere@twitter.com

 


[1] A esse respeito o leitor pode obter informações adicionais em nosso blogdoquintiere “Produção Agrícola, Fertilizantes e Solos”.

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Nota

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