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Educação Ambiental, Crianças e Cerrados

Acredito firmemente que as boas ideias devem ser objeto de nosso apoio e merecem ampla divulgação.

Um bom exemplo vem da WWF – Brasil: o Projeto Biodiversidade nas Costas.

“Nesta quinta-feira, dia 25 de outubro, a WWF-Brasil, em parceria com a KPMG e com o Ecocentro IPEC, lançará na cidade de Pirenópolis o projeto Biodiversidade nas Costas, dedicado a educadores e alunos do ensino infantil ao médio.”

“O município goiano de 23 mil habitantes foi escolhido para ser o piloto desse projeto de educação ambiental e 100 educadores da cidade serão capacitados para trabalhar com o tema conservação do Cerrado em sala de aula.”

“O nome do projeto se chama Biodiversidade nas Costas porque o kit ambiental, composto de livros, vídeo, CD e outros materiais, vêm dentro de uma mochila, produzida com tecido de paraquedas.”

“O objetivo do kit é levar informações relevantes sobre a conservação da biodiversidade do Cerrado, tendo em vista que é o bioma brasileiro mais ameaçado, com altas taxas de desmatamento e baixíssima proteção em termos de área protegidas.”

A iniciativa é excelente por diversas razões:

a)    A educação ambiental é um instrumento primordial para que nosso país avance na busca do desenvolvimento sustentável;

 b)    As crianças de hoje devem ser conscientizadas desde cedo na compreensão da temática ambiental e suas interfaces, pois sua geração poderá garantir um meio ambiente mais equilibrado;

 c)    O Cerrado é o ecossistema mais afetado pela expansão de nossa fronteira agrícola dedicada ao agronegócio.

 A respeito da ocupação dos Cerrados gostaria de tecer alguns breves comentários.

Em meados da década de 1980, quando ainda era um aluno do curso de Agronomia da Universidade de Brasília (UnB), a pesquisa agrícola ainda dava os seus primeiros passos no sentido de incorporar a imensa área associada ao ecossistema denominado de “Cerrado” ao esforço produtivo do país.

A área do Cerrado representava um grande desafio na medida em que as atividades agrícolas eram limitadas pela acidez do solo, impossibilitando o plantio de culturas de maior valor comercial.

Nesse contexto é necessário destacar o papel fundamental dos pesquisadores da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), uma instituição digna de mérito que, com o trabalho diário de seus pesquisadores, superou os limites naturais.

Foi com o trabalho árduo de milhares de pesquisadores que a região denominada Cerrado foi incorporada ao cenário produtivo nacional, transformando-se em um celeiro mundial para o cultivo de grãos, em especial a soja, milho, arroz e algodão.

Devemos observar que o Cerrado já possuía vantagens competitivas em relação às demais áreas disponíveis:

  • Baixo custo por hectare;
  • Profundidade adequada;
  • Boa fertilidade;
  • Relevo plano;
  • Clima ameno.

Ao superar a limitação da acidez dos solos e desenvolver novas cultivares mais adaptadas e resistentes o Brasil passou à condição de grande exportador de grãos, o que lhe garante sucessivos superávits na balança comercial e o desenvolvimento do agronegócio com empregos, renda e arrecadação de tributos.

Em que pese os ganhos socioeconômicos obtidos com a ocupação intensiva do Cerrado, devemos ter em mente que esse modelo de desenvolvimento está ainda muito distante de ser considerado como sustentável.

Atualmente observamos que mais de 70% da área original de Cerrado já se encontra ocupada por complexos agroindustriais, em especial vinculados ao cultivo da soja e algodão.  A pecuária e sua cadeia produtiva também merecem destaque.

Assim, ao longo de três décadas aquela enorme área, antes considerada como inviável à agricultura, foi transformada em um dos pilares do agronegócio em escala internacional.

E o aspecto ambiental?

Será que a proteção do bioma Cerrado não merece a mesma preocupação e atenção dispensadas à mata Atlântica?

Certamente devemos buscar um modelo de desenvolvimento que permita a ampliação do emprego, renda, qualificação da mão de obra e maior arrecadação de tributos.

Mas o aspecto ambiental também deve ser considerado, evitando a degradação irreversível daquele bioma, manifestada especialmente por meio da perda da biodiversidade e da degradação do solo.

 A substituição de uma grande área de Cerrado por uma monocultura (ex.: soja) traz diversos impactos, tais como:

  • Perda de cobertura vegetal e da proteção natural do solo;
  • Maior risco de erosão;
  • Uso intensivo de agrotóxicos;
  • Compactação do solo em razão das sucessivas operações com máquinas de grande porte (tratores e colheitadeiras);
  • Comprometimento da biodiversidade (uma das mais ricas do país);
  • Menor geração de empregos/hectare em razão do processo de mecanização;
  • Concentração de renda, etc.

O solo é um sistema dinâmico em contínuo processo de transformação e atua como um verdadeiro organismo vivo propiciando serviços ambientais relevantes, tais como:

  • Reserva de nutrientes;
  • Ciclagem de nutrientes;
  • Armazenamento e ciclagem de água;
  • Filtro natural;
  • Proteção das águas subterrâneas;
  • Armazenamento de gases e calor;
  • Adsorção e transformação de elementos tóxicos pela ação de microorganismos;
  • Liberação de nutrientes; e outros.

A maioria dos serviços associados aos solos ocorre de forma gratuita, ou seja, nenhum de nós, seja governo ou pessoa física, precisa se preocupar com alguma forma de retribuição financeira.

Mas essas ponderações não encontram eco em nossa própria Constituição Federal!

De acordo com o § 4º, artigo 225 da CF o bioma Cerrado não é considerado como um patrimônio nacional e, desta forma, sua exploração econômica estaria dissociada de preocupações quanto à sustentabilidade.

“Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá- lo para as presentes e futuras gerações.”

(…)

§ 4º – A Floresta Amazônica brasileira, a Mata Atlântica, a Serra do Mar, o Pantanal Mato-Grossense e a Zona Costeira são patrimônio nacional, e sua utilização far-se-á, na forma da lei, dentro de condições que assegurem a preservação do meio ambiente, inclusive quanto ao uso dos recursos naturais.

Ora, se o Cerrado não é considerado um patrimônio nacional pelo próprio legislador haverá, como consequência, uma maior dificuldade no sentido de conscientizar os brasileiros quanto à necessidade de sua proteção e preservação.

Assim, muito de nossa biodiversidade e recursos naturais (em especial os solos e os recursos hídricos) estarão em risco.

Por tudo isso considero que a iniciativa do WWF-Brasil quanto ao desenvolvimento do Projeto Biodiversidade nas Costas é digna de mérito e deveria ser ampliada.

marceloquintiere@gmail.com

MQuintiere@twitter.com

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BIOTECNOLOGIA e AGRONEGÓCIO

                Ainda sob os efeitos da conferência Rio+20 procurarei desenvolver uma análise acerca da interação existente entre o agronegócio e a pesquisa em biotecnologia, segmentos que a meu juízo possuem ampla complementaridade.

                De acordo com dados do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone), a expansão do agronegócio até 2030 vai necessitar de 5,5 milhões de hectares de novas áreas e esse processo de expansão ocorreria quase que integralmente na área de Cerrado.

                Não desejo discutir os números do desmatamento no Brasil ou a ampliação de nossa fronteira agrícola motivada pela necessidade de garantirmos superávits na balança comercial.

                Todos sabem que o desmatamento, apesar das reduções comemoradas recentemente pelo Governo Federal, ainda ocorre em níveis significativos e compromete a biodiversidade e a qualidade dos solos.

                A dinâmica da exploração agrícola no Brasil impõe, em muitos casos, uma lógica perversa na qual a terra é adquirida a preços relativamente baixos (se comparados à realidade internacional), seguindo-se das etapas de:

  1. Desmatamento com a venda de madeiras nobres e produção de carvão vegetal com forte impacto sobre a biodiversidade;
  2. Abertura de pastos que pouco contribuem para a proteção dos solos contra processos erosivos;
  3. Exploração comercial de projetos agropecuários que, em geral, são conduzidos de forma extensiva ocupando amplas áreas e proporcionando baixa produtividade;
  4. Queda da fertilidade do solo ao longo do período de exploração por falta de investimentos e tecnologia apropriada;
  5. Abandono das áreas degradadas.

           Embora o agronegócio seja imprescindível ao desenvolvimento nacional, inclusive no que concerne à geração de empregos, rendas e tributos, entendo que há uma ampla margem para o seu aperfeiçoamento.

           O aperfeiçoamento do agronegócio passa pelo desenvolvimento de pesquisa tecnológica para aumento de produtividade e pela recuperação das áreas atualmente degradadas.

           Penso que seria imprescindível extrair maior retorno econômico de cada hectare explorado, minimizando os impactos do agronegócio sobre o meio ambiente e a pressão que vem sendo exercida para abertura de novas áreas, em especial na região dos Cerrados.

          Nesse contexto vemos a pesquisa em biotecnologia como uma alternativa racional para garantir, a um só tempo, a proteção dos ecossistemas e a ampliação das margens de retorno do agronegócio.

          A biotecnologia poderia gerar melhoramento genético com o desenvolvimento de novas variedades ou cultivares mais resistentes e produtivas, novos produtos tais como fármacos, resinas, corantes, alimentos, fibras, etc.

          O Brasil possui uma ampla rede de Unidades de Conservação que, somadas às unidades de uso sustentável, somam mais de 160 milhões de hectares, representando aproximadamente 20% de nosso território.

           Essas áreas, criadas e protegidas por lei, representam uma significativa vantagem competitiva do Brasil em termos de potencial para novas descobertas e ampliação do conhecimento científico.

           À primeira vista viveríamos no melhor dos mundos: grandes extensões de terra, clima propício, mão de obra, pesquisa agrícola, empresas de grande porte associadas ao agronegócio e imenso potencial para pesquisa em biotecnologia.

          Acredito que nenhum outro país deve contar com um conjunto tão favorável de parâmetros.

          Mas o problema reside exatamente no uso ou percepção que temos acerca das nossas potencialidades.

          Enquanto o agronegócio apresenta forte expansão ao longo das últimas décadas, a pesquisa em biotecnologia ainda carece de recursos para capacitação de cientistas, desenvolvimento de linhas de pesquisa, implantação dos necessários laboratórios de ponta e de um marco legal que possa alavancar a atividade.

           O agronegócio é dinâmico e agressivo ao passo que a pesquisa biotecnológica ainda é lenta.

           Pesquisa e agronegócio são duas faces de uma mesma moeda e não há lógica em incentivar um segmento em detrimento do outro. Acredito que ambos, agronegócio e pesquisa, deveriam buscar maior sinergia ampliando uma parceria notória em outros países ricos.

          Caso não ocorra um esforço concreto em favor da pesquisa de ponta nesse país nosso agronegócio estará condenado ao marasmo e decadência a médio prazo.

          Não há um só país rico cujo processo de desenvolvimento tenha ocorrido de forma dissociada da pesquisa.

          A pesquisa é o motor do desenvolvimento de um país. Vejam os exemplos dos EUA, Japão, China, Coreia do Sul e Alemanha…

         Não se pode pensar em desenvolvimento econômico e social, ou mesmo no tão decantado Desenvolvimento Sustentável, sem uma política objetiva que garanta investimentos maciços e consistentes em pesquisa.

         O MMA vem desenvolvendo esforços no sentido de criar um novo marco legal para a bioprospecção no país que, segundo declaração do Secretário de Biodiversidade e Florestas daquele ministério, deverá ser transformado em projeto de lei até o final deste ano.

          É uma ótima notícia. Afinal, o Brasil precisa adotar uma política consistente e agressiva para garantir a implantação de indústrias de ponta em biotecnologia.

          O investimento em biotecnologia costuma gerar bons resultados: o desenvolvimento de um novo remédio pode garantir receitas de bilhões de dólares sem que seja necessário comprometer nossos ecossistemas.

          Em outras palavras a pesquisa em biotecnologia pode ser útil para atribuir valor econômico à “floresta em pé”: ao invés de perpetuamos o ciclo perverso de destruição ambiental poderemos garantir maior retorno econômico e social sem degradação.

         Uma proposta para incentivar a pesquisa de ponta em biotecnologia seria a criação de um fundo nacional no qual todos, empresas e cidadãos, poderiam alocar recursos financeiros de forma livre.

         Os recursos seriam alocados exclusivamente na formação de cientistas altamente capacitados, construção de laboratórios com tecnologia de ponta, aquisição de equipamentos mais modernos e sofisticados, etc.

         Obviamente os resultados não surgirão em curto prazo.

         A pesquisa é assim mesmo: exige tempo, dinheiro e planejamento.

         Em muitos casos a linha de pesquisa não resultará em ganhos econômicos, apenas fomentará o conhecimento acadêmico de centenas de cientistas. Em outros casos o retorno será muito lento.

          Entretanto, ao final de alguns anos, poderíamos contar com novas descobertas (cura do câncer, da Aids, do diabetes, do Mal de Parkinson, do Mal de Alzheimer, etc.) cujo reflexo humanitário e econômico superariam largamente aqueles obtidos pela exploração ineficaz de nossas florestas.

         O retorno para os investidores se daria através da participação nos resultados econômicos obtidos pelas empresas de tecnologia.

         Parece um bom começo.

marceloquintiere@gmail.com

MQuintiere@twitter.com