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O Mundo sem Vacas?

Na semana passada uma notícia do mundo tecnológico circulou pela mídia com grande impacto: cientistas desenvolveram carne artificial a partir de células – tronco.

O grupo da Universidade de Maastricht na Holanda desenvolveu o hambúrguer ao longo de cinco anos usando células do músculo do pescoço de duas vacas. – um projeto que custou quase 250 mil euros (R$ 762,5 mil).

As células foram colocadas numa solução de nutrientes para se transformar em tecido muscular que, em seguida, deu origem a pequenos filamentos de carne.

Eventualmente a produção de carne em laboratório poderá ajudar a alimentar o mundo e a combater as mudanças climáticas ao longo das próximas décadas.

O link entre a pecuária e o aquecimento global está associado à produção de metano durante o processo de digestão do rebanho bovino.

A cada dia os milhões de animais criados nas fazendas de todo o mundo lançam na atmosfera o metano (CH4), um gás do efeito estufa com um potencial muito mais nocivo do que o gás carbônico (CO²) e que contribui fortemente para o aquecimento global.

Os futurólogos já visualizam um futuro próximo onde as enormes fazendas de gado serão substituídas por fábricas de proteína sintética, com vantagens sociais, econômicas e ambientais bastante significativas.

Sob o ponto de vista social teríamos a utilização das áreas destinadas à pecuária (milhões de hectares em todo o mundo) destinadas à agricultura básica voltada à produção de alimentos tais como grãos, frutas, hortaliças, etc.

A agricultura é reconhecidamente mais intensiva em tecnologia e mão de obra do que a pecuária (ainda mais se considerarmos o aspecto extensivo da pecuária em muitos países), possibilitando a inserção de maior número de trabalhadores no mercado.

Além disso, a carne produzida in vitro teria maior condições de controle e oferecer melhor qualidade sanitária, eliminando o risco de disseminação de doenças graves como a “vaca louca”, aftosa, teníase, brucelose, tuberculose, etc.

A questão econômica também merece considerações na medida em que haverá uma profunda modificação na cadeia produtiva da carne .
De forma resumida não teríamos que adquirir enormes áreas para implantação das fazendas de gado, eliminando diversas atividades tais como:

• Derrubada de florestas nativas;
• Operações destinadas ao plantio da pastagem (destoca, aração, adubação, gradeação e plantio);
• Colocação de quilômetros de cercas;
• Produção de sementes de gramíneas cujas variedades sejam mais adequadas às diversas condições climáticas;
• Adubação periódica e tratos culturais para manutenção da qualidade dos pastos (aplicação de grandes quantidades de agrotóxicos, etc.);
• Rotação de pastos;
• Necessidade de construção de silos para estocar as gramíneas naqueles países com inverno mais rigoroso;
• Transporte do gado para abate;
• Construção dos abatedouros e frigoríficos; etc.

Quanto ao enfoque ambiental as mudanças previstas são tremendamente impactantes e podem auxiliar na melhoria das condições de vida do planeta, em especial se considerarmos os seguintes aspectos:

• Menores emissões de metano à atmosfera, reduzindo o seu reflexo sobre o aquecimento global;
• Redução no uso de agrotóxicos;
• Diminuição da contaminação de solo e água;
• Manutenção da vegetação nativa nas áreas que seriam alcançadas pela expansão da pecuária nas zonas de fronteira;
• Proteção às florestas e redução no ritmo de degradação da biodiversidade; etc.

Evidentemente não se imagina a extinção total de nossos rebanhos, uma vez que outras indústrias, tais como os curtumes , também são dependentes da pecuária.

Penso que o uso da tecnologia de ponta poderá nos trazer o grande benefício de PENSAR sobre as nossas opções de produção em ternos sociais, econômicos e ambientais, inserindo novos parâmetros de análise.

Será que precisamos realmente de áreas tão amplas para a atividade pecuária?

A expansão da atividade pecuária em zonas de fronteira é viável e recomendada, mesmo sob o forte risco ambiental que representa (eliminação de florestas nativas e degradação da biodiversidade)?

A terra não deveria ser utilizada de forma mais racional e rentável, inclusive sob o aspecto de fornecer oportunidades para todos?

Enfim: vejo com bons olhos o surgimento de novas linhas de pesquisa e considero que a melhor solução para nossos problemas ambientais passa pela racionalização de nossas atividades econômicas.

Para finalizar informo aos amantes do churrasco tradicional que a nova tecnologia ainda precisa superar problemas técnicos importantes na medida em que a carne produzida in vitro é branca pela ausência de sangue.

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