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A Beleza e a Especulação Imobiliária

Recentemente li uma matéria interessante que associava a beleza de uma praia e a especulação imobiliária.

A praia, que se chama Cox’s Bazar, é realmente bonita e se iguala àquelas existentes no nordeste brasileiro ou em Cancun.

Duas outras características saltam aos olhos: a praia  tem 125 quilômetros ininterruptos de extensão e está localizada em um país ainda considerado pobre: Bangladesh.

Bangladesh tem uma população considerável (142 milhões de habitantes), uma densidade populacional elevada (mais de 1.000 habitantes/km²) e um PIB estimado em 113 bilhões de dólares, o que nos leva a uma PIB per capita de apenas 640 dólares.

Dentre as atividades econômicas se destacam a agricultura (arroz, batata, frutas tropicais, juta e chá) e a indústria têxtil, o turismo e a construção naval.

Os investimentos estrangeiros crescem como em boa parte dos países em desenvolvimento, provavelmente atraídos pelo baixo custo da mão de obra local e pelas carências e lacunas existentes.

O governo de Bangladesh deseja transformar Cox’s Bazar em um destino turístico de classe internacional, atraindo investimentos, turistas e bilhões de dólares anuais.

Como sempre ocorre a ideia parece bastante interessante a priori, mas os riscos ambientais não podem ser desconsiderados.

A construção de centenas de empreendimentos de médio e grande porte poderão ocasionar impactos nocivos ao meio ambiente.

Os impactos são potencializados pela construção de centenas de empreendimentos desprovidos de licença ambiental, a maioria erguida muito próxima (ou dentro) da faixa de areia.

São hotéis, resorts, restaurantes e marinas que geram os seguintes impactos:

  • Extração crescente de madeira das florestas vizinhas para as construções;
  • Deslizamentos de terra e morte de pessoas;
  • Destruição de áreas de corais para fabricação de souvenir;
  • Geração excessiva de lixo sólido e esgoto;
  • Crescimento populacional;
  • Sobrecarga para os serviços de saneamento, limpeza urbana, tratamento de água e oferta de energia.;
  • Comprometimento da biodiversidade local; etc.

Esse tipo de problema ocorre também no Brasil.

Assim que uma praia é “descoberta” e passa à condição de point turístico temos sua rápida degradação.  Em poucos anos todas as belezas naturais que deram origem ao crescimento socioeconômico desaparecem e os turistas partem para novas alternativas.

Como exemplo concreto destacamos algumas praias de Florianópolis, tais como Campeche, Armação, Ingleses, Canasvieiras e outras, nas quais a especulação imobiliária e o crescimento desordenado alimentaram sua degradação.

Em poucos anos dezenas de imóveis foram construídos à beira mar, alguns dentro da própria faixa de areia, e os ecossistemas entraram em processo de colapso e destruição.

A título de exemplo podemos citar a praia de Jurerê Internacional, também em Florianópolis, planejada de forma racional e transformada em polo de atração de milhares de turistas a cada ano.

Trata-se de um empreendimento com impacto ambiental mais reduzido, com tratamento do esgoto, campanhas de conscientização dos turistas, regras rígidas para ocupação e construção, etc.

Em síntese: é possível explorar as belezas naturais e manter o seu potencial atrativo durante décadas, desde que sejam observados cuidados mínimos com a proteção dos ecossistemas.

Não defendemos a paralisação dos investimentos, apenas defendemos a maior racionalidade nos investimentos para não matarmos a “galinha dos ovos de ouro”.

Entendemos que o crescimento socioeconômico constitui uma necessidade básica das nações (em especial aquelas mais pobres), mas é necessário que seja alcançado de forma segura e planejada.

Devemos conciliar o crescimento com a proteção dos ecossistemas evitando romper a sua capacidade de recuperação (resiliência). Na verdade deveríamos estudar com maior detalhe as reais condições de suporte de cada ecossistema ANTES de autorizarmos a construção / ocupação.

Infelizmente essa preocupação ambiental não costuma encontrar eco junto às autoridades municipais, mais interessadas no ganho financeiro rápido e na geração de empregos.

Assim, se você considera necessário desenvolver sem degradar o meio ambiente, assuma uma postura mais crítica em relação aos “incríveis” lançamentos imobiliários e procure cobrar das autoridades locais o seguinte:

  • Projeto urbanístico;
  • Processo de licenciamento ambiental, inclusive com as necessárias audiências públicas;
  • Cuidados ou projetos que devem ser inseridos, tais como a educação ambiental, a proteção de ecossistemas nativos, a economia de água, o tratamento de esgotos e resíduos sólidos, etc.
  • Criação de lei municipal que obrigue a destinação de parcela do valor dos imóveis para aplicação em projetos ambientais (uma forma de compensação pelos danos ambientais gerados).
  • Proibição da extração de corais;
  • Projetos para proteção de matas nativas, áreas de dunas e/ou mangues, etc.

Faça a sua parte e permita que seus netos usufruam dos bens e serviços ambientais.

marceloquintiere@gmail.com

MQuintiere@twitter.com

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O Reino de Bushlândia – Uma Fábula Ambiental

           Nossa história começa no distante Reino de Bushlândia, o mais rico que jamais existiu.

            Bushlândia estava situado em uma grande ilha no meio do Oceano Atlântico e era conhecido pela enorme riqueza em minérios, petróleo e terras férteis.

            Durante séculos o reino investiu grandes somas de dinheiro no desenvolvimento de tecnologias sofisticadas e detinha os melhores e mais capacitados centros de pesquisa do mundo. Aquela política acertada trouxe mais riqueza e concentração de poder.

            A vida em Bushlândia passou a ser o sinônimo da prosperidade.

            Entretanto, os súditos de Bushlândia passaram a desenvolver hábitos estranhos ao longo das últimas décadas:

  • podiam gastar seus salários e assumir grandes dívidas sem pensar nas consequências, pois, como todos sabiam, Deus era Bushlandês;
  • todos usavam carros com potentes motores V-8, aqueles que consomem muita gasolina e poluem a atmosfera;
  • os eletrodomésticos, móveis e roupas eram trocados incessantemente em uma verdadeira corrida consumista. Se algum aparelho quebrava era trocado de imediato, pois as oficinas de reparos já não existiam mais.

           Mas o hábito mais estranho em Bushlândia era o churrasco diário. Havia tanto dinheiro e tanta carne disponíveis que os súditos faziam churrascos três vezes ao dia: manhã, tarde e noite.

            Para saciar a sua fome os súditos sacrificavam milhões de cabeças de gado e extraíam milhões de toneladas de carvão. Mas aquela festança gastronômica trazia um problema de relacionamento com os demais reinos existentes na periferia de Bushlândia.

           Esses reinos eram muito pobres e a maioria das suas casas era construída de madeira.

           O vento forte da região sempre soprava as brasas dos churrascos para as outras ilhas e causava imensos incêndios, o que dificultava ainda mais a vida sofrida naqueles reinos mais pobres.

           E não adiantava reclamar, pois as respostas eram sempre as mesmas:

  • “O vento é muito fraco para levar as brasas até os outros reinos;”
  • “Temos o direito de comer, pois sentimos mais fome do que as outras pessoas”;
  • “Se não comermos o gado todos os dias haverá um desequilíbrio ambiental”;
  • “As brasas são, na realidade, pequenos meteoros que insistem em cair no mesmo lugar”;
  • “Nossos cientistas ainda estão analisando a questão;”

            E aquele comportamento egoísta e arrogante perdurou durante muitos e muitos anos apesar dos esforços mundiais para convencer o governo de Bushlândia.

            Um dia o merecido castigo veio dos céus: o vento mudou de direção e as brasas produzidas naqueles milhões de churrascos caíram sobre o Reino de Bushlândia!

            Os focos de incêndio rapidamente tomaram os campos e o gado foi dizimado em poucas horas.  Os serviços do reino entraram em colapso, pois não havia condição para atender a tantas emergências ao mesmo tempo.

             Muitas pessoas morreram de fome e as indústrias foram fechadas por falta de demanda. Em poucas semanas a riqueza existente foi destruída e Bushlândia nunca mais se recuperou.

             Escrevo essa fábula ambiental como um alerta ao comportamento equivocado assumido pelos Estados Unidos quanto às questões ambientais.

             Até poucos anos atrás, enquanto o mundo buscava soluções para o aquecimento global, os americanos insistiam na tese de que ainda não havia uma certeza científica acerca do problema.

             Enquanto o mundo observava os primeiros sinais associados às mudanças climáticas os EUA preferiram manter seus níveis de consumo, inclusive no que concerne ao uso insustentável dos recursos naturais, sob o argumento de que precisavam proteger a sua economia.

            Sabemos que a capacidade de suporte dos ecossistemas é FINITA, ou seja, uma vez rompido o nível de resiliência a recuperação ambiental será muito mais lenta ou até mesmo inviável.

            A resiliência é fruto de uma combinação de muitos fatores cuja sinergia ainda é desconhecida, ou seja, não temos absoluta certeza do comportamento que será assumido pelo ecossistema afetado por um grande impacto ambiental.

           Além disso, a resiliência sempre é diferente para ecossistemas distintos: para cada conjunto de fatores e para cada tipo de ecossistema teremos comportamentos distintos cujos resultados finais não são conhecidos.

           Diante desse quadro de incerteza não seria mais prudente agir com maior precaução e menos arrogância?

          Os EUA são responsáveis por grande parcela da poluição atmosférica em escala mundial, mas parecem desconectados da realidade. Tal comportamento foi observado quando os americanos se negaram a assumir sua responsabilidade pelo controle das emissões estabelecidas no Tratado de Kioto.

           O resultado (ou castigo como preferem alguns) vem aos poucos, tal como uma torneira que lentamente enche um balde…

           O primeiro exemplo veio em 2005 com o furacão Katrina, causando centenas de mortes e bilhões de dólares em prejuízos.

           Nessa semana a tempestade tropical Sandy atingiu grande parte da costa leste, em especial a cidade de Nova York, um dos ícones do consumo mundial.

            De acordo com os dados preliminares do governo americano os impactos são os seguintes:

  •  Mais de 100 mortos nos EUA e 67  no Caribe;
  • 700 mil casas e 8,0 milhões de americanos sem energia elétrica;
  • Incêndio de grandes proporções, destruindo mais de 60 edifícios e casas em NY;
  • Aeroportos e metrôs fechados;
  • 15.000 voos cancelados;
  • Pontes e túneis bloqueados;
  • Usinas de energia elétrica fechadas
  • Áreas em Nova York submersas com até três metros de água do mar;
  • Perdas de US$ 20 bilhões apenas com o pagamento de seguros;
  • Perdas totais de até US$ 50 bilhões

           Esse tipo de fenômeno não pode ser imputado a uma mera coincidência ou à ira divina.

          Ao contrário: tempestades tropicais e furacões dessa magnitude continuarão a ocorrer de forma crescente (em número e intensidade) na medida em que o aquecimento global fugir de controle.

           Os furacões sempre existiram, mas sua frequência e intensidade vêm crescendo a cada ano, assim como os prejuízos econômicos e as perdas de vidas humanas.

           Quanto aos EUA continuaremos aguardando demonstrações de bom senso e uma alteração de rumo em sua política econômica de forma a evitarmos um desfecho trágico.

           As propostas são conhecidas e indicam um caminho mais racional a seguir, o que envolveria o controle das fontes poluidoras, a redução nas emissões, o incentivo ao uso de energias renováveis, redução na dependência de combustíveis fósseis, etc.

           Mas, acima de tudo, seria interessante que os americanos tentassem responder a uma questão das mais complexas:

           Qual é o preço da arrogância?

           Afinal, ninguém suporta um vizinho como o Reino de Bushlândia.

marceloquintiere@gmail.com

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