Arquivo da tag: Economia Verde

NÃO EXISTE ALMOÇO GRÁTIS

            Venho trabalhando com a área ambiental ao longo dos últimos 27 anos , em especial no desenvolvimento de livros técnicos, palestras e projetos.

            Um aspecto positivo que pude verificar foi o aumento da participação popular nas questões associadas ao meio ambiente, um tema a cada dia mais importante e mais presente no cotidiano das populações, indústrias e governos.

            Os temas tais como a proteção da biodiversidade, a preservação da qualidade da água, o aquecimento global e mudanças climáticas saíram do contexto das grandes universidades e centros de pesquisa para ganhar o mundo.

            Entretanto, um aspecto me preocupa: a mídia sempre destaca as novas tecnologias e processos inovadores como sendo respostas adequadas e corretas para todos os males e, pior, não se dá nenhum destaque quanto aos aspectos negativos associados àquelas tecnologias.

            No mercado financeiro há uma máxima que diz o seguinte:

            “Não há almoço grátis!”

            Isso significa que sempre há um custo para tudo o que fazemos e que alguém, em algum tempo e lugar, pagará a conta.

            Podemos aplicar essa máxima financeira a um processo d efusão entre empresas, à compra de um ativo financeiro (ações, dólar ou ouro) ou a um novo processo tecnológico.

            Não importa….alguém sempre pagará a fatura.

            Vejamos alguns exemplos mais associados à temática ambiental:

a)     A Produção de Álcool.

       Quando o Proálcool foi criado em 1985 nosso objetivo era a redução da dependência do petróleo importado, cujo preço atingia patamares muito elevados em decorrência da regulação de cotas de extração elaborada e imposta pela OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo).

       O resultado foi, de fato, alcançado e nosso país reduziu a dependência do petróleo, mas (e aqui surge a conta do nosso almoço) os danos ambientais são consideráveis, em especial quando pensamos na abertura de imensas áreas para o plantio de cana-de-açúcar, na poluição atmosférica e doenças respiratórias geradas pela queima da palha da cana e, também, nos problemas causados pela ação do vinhoto despejados nos rios durante os primeiros anos do Proálcool.

b)    A Substituição do vidro pelo Plástico

        Após a segunda Grande guerra Mundial a tecnologia evoluiu significativamente, inclusive com a criação de novos medicamentos tais como a penicilina, etc.

        O plástico surgiu nesse período e foi amplamente anunciado pela mídia como um substituto ideal para o vidro nas embalagens. Dizia-se que a utilização do plástico era mais racional, pois seu custo era menor, possuía maior resistência ao impacto, poderia assumir formas desejadas mais facilmente e o seu peso seria menor do que o vidro, facilitando a logística de transporte.

         Em poucos anos o plástico assumiu uma posição de destaque no setor de embalagens.

         A “conta do almoço” foi apresentada após algumas décadas de uso e descarte irracional: atualmente nossos oceanos se encontram bastante comprometidos por imensas ilhas formadas pelas embalagens plásticas descartadas.

         Há um claro comprometimento da fauna e flora dos oceanos e, em alguns casos, já se pode dizer que os danos são irreversíveis[1].  A conta será salgada se considerarmos que muitos países dependem dos recursos pesqueiros para sua alimentação e fonte de renda.

c)     A Queima de Combustíveis Fósseis

         O avanço tecnológico associado à queima de combustíveis fósseis, tais como o carvão, o petróleo e o gás, possibilitou alavancar o desenvolvimento econômico e social, gerando riquezas inimagináveis.

          Após alguns séculos verifica-se a alteração da nossa atmosfera pelo acúmulo dos chamados Gases do Efeito Estufa (GEE), o que potencializa o processo de aquecimento global e as ameaças vinculadas às mudanças climáticas severas.

          Obviamente a “conta do almoço” nesse caso poderá fechar o nosso restaurante.

d)    Os Telefones Celulares

        Os celulares são aplaudidos em todo o mundo como um instrumento divino que aproxima as pessoas, além de potencializarem novos mercados de comunicação e de comércio virtual.

         O problema é que os celulares utilizam baterias que contém metais pesados tais como o cádmio, o lítio, etc.  Todos esses metais podem gerar danos irreversíveis à saúde humana e ao meio ambiente, em especial no que concerne à poluição do solo e das águas subterrâneas.

          É um custo que precisa ser considerado por todos nós, inclusive quando analisamos em êxtase os novos modelos oferecidos no mercado.

 e)     As Fontes Alternativas de Energia

         Em função do processo de aquecimento global e das mudanças climáticas associadas, muitos países passaram a desenvolver estudos voltados à produção de “energia limpa”.

           Assim, bilhões de dólares foram investidos para desenvolver tecnologias mais racionais e eficazes para o aproveitamento da energia solar, energia eólica, biocombustíveis, etc.

          A mídia internacional procura apresentar as novas tecnologias como sendo um processo mágico, quase divino, com impactos exclusivamente positivos.  Nesse contexto os governantes deveriam mudar toda a matriz energética de seus países para garantir a produção contínua e segura de energia a custo reduzido.

         Mas será que as fontes alternativas de energia são totalmente limpas?  Não há geração de resíduos ou de impactos ambientais?

           Para responder a essas questões basta verificar os impactos ambientais associados à produção das turbinas de energia eólica ou à produção de baterias para os novos carros elétricos.

           É evidente que os processos de mineração de metais para as baterias ou as instalações industriais necessárias para a produção de bens (turbinas, carros, etc) também podem gerar outros impactos nocivos ao meio ambiente.

f)  O Pesticida DDT

            O desenvolvimento agrícola observado ao longo do último século está fortemente associado ao surgimento de pesticidas que, de início, garantiram a redução de pragas e doenças nas mais diversas lavouras.

             O retorno negativo, ou seja, o “almoço a ser pago” surgiu após alguns anos.  Os pesquisadores descobriram que o DDT, um dos pesticidas mais aplicados à época, diminuía a espessura da casca dos ovos e influía na reprodução de muitas espécies de aves.

               Além disso, muitos produtos químicos afetam a vida de insetos polinizadores, reduzindo drasticamente a reprodução de espécies vegetais de grande importância econômica.

               A doutora Rachel Carson escreveu um best seller ambiental em 1962 denominado “Primavera Silenciosa”, no qual destaca os danos ambientais associados ao uso inadequado dos agrotóxicos.  É um livro que todos deveriam ler.

           Conclusão

            Esse artigo destaca apenas alguns exemplos mais conhecidos de impactos ambientais associados àquelas “soluções mágicas” do passado.

            Não devemos ser contrários à tecnologia ou ao desenvolvimento de novos produtos e processos industriais, mas precisamos alertar quanto à necessidade de avaliar as soluções de forma mais isenta e menos apaixonada.

            É necessário conhecer o processo de produção, desde a fase de planejamento e aquisição de matéria prima até o descarte dos produtos na fase pós-consumo, ou seja, precisamos nos acostumar a analisar nossas opções em termos mais amplos.

            Quando insistimos em exaltar apenas o “lado bom da maçã”, existente em cada projeto inovador, podemos incorrer em erros graves no futuro, pois SEMPRE haverá um lado podre a ser considerado.

            Os novos produtos e processos tecnológicos não devem ser considerados como uma solução milagrosa ou o Santo Graal da tecnologia.  Ao contrário: devem ser desenvolvidos, analisados e avaliados corretamente  em seus aspectos positivos e negativos.

            Em síntese: nem sempre o que reluz é ouro….pode ser cádmio, lítio ou mesmo as imensas ilhas de plástico que ameaçam as espécies marinhas.

             Este artigo é uma homenagem à minha mãe, Dona Marina de Miranda Ribeiro Quintiere, que completa 75 anos hoje e que foi a grande responsável pelo despertar do meu interesse pela área ambiental.

marceloquintiere@gmail.com


[1] A esse respeito sugiro verificar os meus artigos intitulados “Oceanos Ameaçados”  e “Oceanos e Riscos Ambientais” publicados no Blogdoquintiere em 29/10/2012 e 1/11/2012, respectivamente.

Anúncios

O Presidente da Nestlé e a Cobrança pela ÁGUA

O Presidente da Nestlé e a Cobrança pela ÁGUA

De tempos em tempos o mundo é invadido por teses e ideias estapafúrdias que procuram impor novos cenários socioeconômicos onde alguns poucos ganham (em geral multinacionais) em detrimento de bilhões de pessoas (em geral os mais pobres).

Como exemplos podemos citar o controle progressivo de empresas como a Monsanto sobre o segmento da produção de sementes selecionadas sob o pretexto de amparar e proteger a pesquisa em biotecnologia, ou mesmo a tentativa de calar a imprensa e o Ministério Público em alguns países sob a justificativa de que é necessário proteger o cidadão contra os excessos praticados.

Recentemente tivemos acesso à posição defendida pelo Presidente do Grupo Nestlé, o senhor Peter Brabeck-Letmathe, no sentido de que “A água não é um direito. Deveria ter um valor de mercado e ser privatizada”.

Para melhor defender o seu ponto de vista o Presidente da Nestlé esclarece que a água de consumo deveria ser privatizada objetivando que, enquanto sociedade, pudéssemos tomar consciência da sua importância, reduzindo o desperdício que se verifica atualmente.

Em sua opinião, a água deveria ser tratada como qualquer outro bem alimentício e ter um valor de mercado que viesse estabelecido pela lei da oferta e da procura.

Fiquei muito curioso com essa ideia e procurei saber mais.

O que representa a Nestlé? Que empresa é essa?

A Nestlé, fundada em 1866, é uma gigante multinacional suíça e algumas informações gerenciais chamam atenção:

  • Atua nos seguintes segmentos: alimentos infantis, água engarrafada, cereais, achocolatados, café, comida congelada, sorvetes, alimentos para animais, sucos, compostos nutricionais, nutrição para desportistas, produtos para controle de peso, e outros.
  • Opera nos cinco continentes em 120 países;
  • Possui 280.000 empregados (dados de 2010);
  • Valor de mercado de aproximadamente U$S 205 bilhões (2010);
  • Faturamento U$S 89 bilhões (2011);
  • Resultado em 2011: Prejuízo de U$S 89 bilhões;
  • Líder mundial na venda de água engarrafada, um segmento que representa considerável parcela da sua receita total.

Esse breve resumo permite verificar que a Nestlé constitui um grupo econômico muito grande e seus interesses são extremamente diversificados.

Podemos dizer também que a empresa trouxe benefícios inquestionáveis no que concerne à segurança e qualidade de seus produtos ao consumidor.

Entretanto, em que pese os benefícios associados à empresa, não posso concordar com a manifestação do seu presidente quando defende que a água não é um direito e que a sua privatização garantiria a redução de desperdícios.

Concordo que há considerável desperdício de água em muitos países (inclusive o Brasil) e que a qualidade deste recurso natural vem sendo reduzida a cada ano em razão de problemas tais como:

  • A poluição industrial;
  • A contaminação pelo lançamento de esgoto não tratado;
  • A extração excessiva das águas subterrâneas;
  • O uso irracional de agrotóxicos, e outros.

Entendo que os problemas citados podem ser combatidos com a aplicação de sanções aos infratores, muitos dos quais são empresas e indústrias de grande porte, e principalmente com o investimento em educação ambiental.

A conscientização do Homem é um processo árduo que exige tempo e dedicação, mas seus resultados são PERENES.

O Homem pode, a partir de sua conscientização, mudar seus hábitos de consumo em busca de maior sustentabilidade, atuando como verdadeiro agente indutor de novas mudanças a partir do seu exemplo.

Além disso, acredito que a posição do presidente da Nestlé tem foco prioritário na questão econômica (o que garantiria maiores lucros para sua empresa) e não garante mudanças de comportamento.

Ao contrário: a limitação de acesso à água já representa uma triste realidade em países pobres da África e do sudeste asiático e não se verifica nenhuma mudança concreta para evitar o desperdício…

No Brasil também enfrentamos problemas semelhantes em regiões tais como o Semiárido.

Estamos falando de bilhões de seres humanos que não terão nenhuma facilidade adicional quanto o acesso à água caso a ideia apresentada venha a ser adotada por parte de seus governos (a maioria dos quais exemplos de inépcia e corrupção).

Impor limitações econômicas ao acesso à água significa ampliar a miséria, a fome, o êxodo rural, a marginalização do Homem nos grandes centros urbanos, a sobrecarga dos serviços públicos, além de comprometer o processo de desenvolvimento dos países mais pobres.

Parece-me um preço muito elevado a ser socializado por toda uma sociedade (em particular nos países mais pobres) para garantir os lucros de multinacionais como a Nestlé.

A água não possui produtos substitutos e sua demanda é inelástica, ou seja, é um produto imprescindível na medida em que um ser humano não pode sobreviver mais do que alguns poucos dias sem acesso ao recurso.

Dominar um mercado desse tamanho, em escala global e atuando sobre um produto único e insubstituível, deve ser mesmo uma imensa tentação.

Uma tentação tão grande que leva o senhor presidente da Nestlé a qualificar como extremistas as ONGs que sustentam que a água deveria ser um direito fundamental.

Ora, todos sabemos que a água é sinônimo de VIDA em todos os países, povos e religiões, independentemente dos aspectos econômicos ou políticos.  Logo, não há extremismo na defesa de sua importância.

Diante daquela declaração tão insensível veiculada na mídia (WWW.ecoagencia.com.br na edição de 24/4/2013) procurei mais informações acerca do senhor Presidente da Nestlé e preferi as “informações oficiais” contidas no site da empresa na Internet.

Descobri algumas informações interessantes:

  • Nascido na Áustria em 1944;
  • Economista;
  • Fala alemão, inglês, francês e espanhol;
  • Foi vice-presidente do Credit Suisse e da L’Oréal; e
  • Membro da diretoria da Exxon.

Um currículo de peso certamente construído com muito esforço, dedicação e competência e que, até mesmo em função disso, deveria ser um passaporte para o bom senso…

As ideias equivocadas e estapafúrdias são, em geral, condenadas ao ostracismo, enquanto que outras, infelizmente, encontram terreno fértil junto a governos corruptos e legisladores ineptos.

O senhor Presidente da Nestlé deveria compreender bem essas questões, pois nasceu em pleno 1944 quando a humanidade presenciava um mundo arrasado pela guerra e miséria impostas por outro austríaco de ideias absurdas chamado Adolf…..Adolf Hitler.

A Nestlé poderia usar melhor sua reconhecida competência no sentido de apoiar projetos de educação ambiental destinados à proteção do meio ambiente e preservação dos recursos naturais.

Outra alternativa seria bancar projetos de engenharia destinados a aumentar a eficácia na gestão de recursos hídricos em países mais pobres, diminuindo o desperdício e os níveis de poluição.

Enfim…existem outras alternativas interessantes para tratamento dos recursos hídricos que podem gerar benefícios a curto prazo para todos os atores envolvidos, inclusive uma multinacional do porte da Nestlé.

Sou engenheiro, escritor e ambientalista, condições conquistadas também com muito esforço, mas não tenho a visibilidade garantida por uma empresa multinacional como a Nestlé.

Minhas palavras terão eco? Não sei…

Pretendo fazer a minha parte:

1) Discutir tecnicamente a questão da cobrança pelo consumo de água;

2) Defender aqueles que não têm voz nem conhecimento técnico; e

3) Fazer um boicote aos produtos da Nestlé, pois com esse tipo de gente o prejuízo ao bolso fala mais alto do que quaisquer argumentos.

marceloquintiere@gmail.com

A Beleza e a Especulação Imobiliária

Recentemente li uma matéria interessante que associava a beleza de uma praia e a especulação imobiliária.

A praia, que se chama Cox’s Bazar, é realmente bonita e se iguala àquelas existentes no nordeste brasileiro ou em Cancun.

Duas outras características saltam aos olhos: a praia  tem 125 quilômetros ininterruptos de extensão e está localizada em um país ainda considerado pobre: Bangladesh.

Bangladesh tem uma população considerável (142 milhões de habitantes), uma densidade populacional elevada (mais de 1.000 habitantes/km²) e um PIB estimado em 113 bilhões de dólares, o que nos leva a uma PIB per capita de apenas 640 dólares.

Dentre as atividades econômicas se destacam a agricultura (arroz, batata, frutas tropicais, juta e chá) e a indústria têxtil, o turismo e a construção naval.

Os investimentos estrangeiros crescem como em boa parte dos países em desenvolvimento, provavelmente atraídos pelo baixo custo da mão de obra local e pelas carências e lacunas existentes.

O governo de Bangladesh deseja transformar Cox’s Bazar em um destino turístico de classe internacional, atraindo investimentos, turistas e bilhões de dólares anuais.

Como sempre ocorre a ideia parece bastante interessante a priori, mas os riscos ambientais não podem ser desconsiderados.

A construção de centenas de empreendimentos de médio e grande porte poderão ocasionar impactos nocivos ao meio ambiente.

Os impactos são potencializados pela construção de centenas de empreendimentos desprovidos de licença ambiental, a maioria erguida muito próxima (ou dentro) da faixa de areia.

São hotéis, resorts, restaurantes e marinas que geram os seguintes impactos:

  • Extração crescente de madeira das florestas vizinhas para as construções;
  • Deslizamentos de terra e morte de pessoas;
  • Destruição de áreas de corais para fabricação de souvenir;
  • Geração excessiva de lixo sólido e esgoto;
  • Crescimento populacional;
  • Sobrecarga para os serviços de saneamento, limpeza urbana, tratamento de água e oferta de energia.;
  • Comprometimento da biodiversidade local; etc.

Esse tipo de problema ocorre também no Brasil.

Assim que uma praia é “descoberta” e passa à condição de point turístico temos sua rápida degradação.  Em poucos anos todas as belezas naturais que deram origem ao crescimento socioeconômico desaparecem e os turistas partem para novas alternativas.

Como exemplo concreto destacamos algumas praias de Florianópolis, tais como Campeche, Armação, Ingleses, Canasvieiras e outras, nas quais a especulação imobiliária e o crescimento desordenado alimentaram sua degradação.

Em poucos anos dezenas de imóveis foram construídos à beira mar, alguns dentro da própria faixa de areia, e os ecossistemas entraram em processo de colapso e destruição.

A título de exemplo podemos citar a praia de Jurerê Internacional, também em Florianópolis, planejada de forma racional e transformada em polo de atração de milhares de turistas a cada ano.

Trata-se de um empreendimento com impacto ambiental mais reduzido, com tratamento do esgoto, campanhas de conscientização dos turistas, regras rígidas para ocupação e construção, etc.

Em síntese: é possível explorar as belezas naturais e manter o seu potencial atrativo durante décadas, desde que sejam observados cuidados mínimos com a proteção dos ecossistemas.

Não defendemos a paralisação dos investimentos, apenas defendemos a maior racionalidade nos investimentos para não matarmos a “galinha dos ovos de ouro”.

Entendemos que o crescimento socioeconômico constitui uma necessidade básica das nações (em especial aquelas mais pobres), mas é necessário que seja alcançado de forma segura e planejada.

Devemos conciliar o crescimento com a proteção dos ecossistemas evitando romper a sua capacidade de recuperação (resiliência). Na verdade deveríamos estudar com maior detalhe as reais condições de suporte de cada ecossistema ANTES de autorizarmos a construção / ocupação.

Infelizmente essa preocupação ambiental não costuma encontrar eco junto às autoridades municipais, mais interessadas no ganho financeiro rápido e na geração de empregos.

Assim, se você considera necessário desenvolver sem degradar o meio ambiente, assuma uma postura mais crítica em relação aos “incríveis” lançamentos imobiliários e procure cobrar das autoridades locais o seguinte:

  • Projeto urbanístico;
  • Processo de licenciamento ambiental, inclusive com as necessárias audiências públicas;
  • Cuidados ou projetos que devem ser inseridos, tais como a educação ambiental, a proteção de ecossistemas nativos, a economia de água, o tratamento de esgotos e resíduos sólidos, etc.
  • Criação de lei municipal que obrigue a destinação de parcela do valor dos imóveis para aplicação em projetos ambientais (uma forma de compensação pelos danos ambientais gerados).
  • Proibição da extração de corais;
  • Projetos para proteção de matas nativas, áreas de dunas e/ou mangues, etc.

Faça a sua parte e permita que seus netos usufruam dos bens e serviços ambientais.

marceloquintiere@gmail.com

MQuintiere@twitter.com

O Desmatamento Cresce…

A imprensa divulgou nesta semana que o desmatamento na Amazônia apresentou crescimento de 220% se compararmos a situação existente em agosto de 2011 com o mês de agosto de 2012.

Em um ano o desmatamento, que vinha em queda, voltou a alcançar níveis bem mais elevados.

Por quê?

 O desmatamento é um fenômeno que possui várias explicações, tais como:

  • Fiscalização ineficaz, embora nosso país conte até mesmo com o auxílio de imagens satélite;
  • Corrupção de servidores públicos, “esquentando” imensos lotes de madeira proveniente de desmatamento ilegal;
  • Legislação insuficiente;
  • Desaparelhamento dos órgãos ambientais na Amazônia Legal (orçamento debilitado, falta de pessoal, carência de equipamentos, etc.);
  • Panorama e perspectivas econômicas do país.

Com relação ao aspecto econômico me parece necessário elaborar alguns comentários, apontando suas vantagens e limites:

A Região Amazônica ainda se apresenta como uma incógnita para o país, em especial no que concerne ao nosso relativo desconhecimento acerca do potencial em termos de biodiversidade e recursos minerais.

Sabemos que a biodiversidade é riquíssima e que muito pode vir a ser gerado em benefício das indústrias de biotecnologia, fármacos, cosméticos, têxtil, etc.

Da mesma forma a região é reconhecida internacionalmente como sendo um enorme depósito de minérios estratégicos de alto valor agregado. A província de Carajás é um dos exemplos que podemos destacar.

A presença de volumes significativos de água possibilitam a geração de energia elétrica a partir de usinas hidrelétricas de grande porte, a exemplo de Tucuruí, Belo Monte e outras.

Ainda com relação às reservas de água doce devemos considerar sua importância como componente que assume dimensão estratégica no século XXI.

A região apresenta, entretanto, problemas que precisam ser enfrentados:

  • Distâncias que são medidas em dias;
  • Carências em infraestrutura, em especial no segmento transporte, saneamento e energia;
  • Orçamento insuficiente;
  • Recursos humanos pouco qualificados, etc.

A interface entre o desmatamento e o aspecto econômico, aqui tratado em termos das crises econômicas, me parece bastante clara.

A crise internacional atual, iniciada em 2008 e que ainda produz reflexos cada vez mais intensos no mundo desenvolvido, é um bom exemplo a ser explorado.

Após a intensificação da crise internacional e de seus severos impactos econômicos e sociais, tais como a elevação das taxas de desemprego, a redução das taxas de juros, retorno da inflação e alterações no mercado de câmbio, a economia passou a enfrentar sintomas de uma recessão.

Quando ocorre o surgimento de uma crise econômica de grande relevância os problemas e limites existentes na Região Amazônica são potencializados e tendem a dificultar de forma ainda mais intensa as atividades e projetos desenvolvidos na região.

Nesse cenário adverso as economias mais frágeis e menos estruturadas passam a enfrentar problemas agudos e tendem a aprofundar o fosso que as separa das economias mais avançadas e integradas.

É o que se observa atualmente: uma economia mais frágil e desestruturada como aquela que se observa na Região Amazônica não possui muitas alternativas capazes de se opor aos impactos originados no exterior.

Assim, há uma tendência à desestruturação das cadeias produtivas, aceleração do desemprego e suspensão dos eventuais investimentos privados e governamentais, dificultando ainda mais as perspectivas de recuperação.

A alternativa econômica mais conhecida, a verdadeira “válvula de escape”, está associada à exploração irracional e insustentável da floresta amazônica, que se traduzirá no crescimento dos níveis de desmatamento.

A degradação da floresta tem como motor as dificuldades econômicas e a falta de maiores perspectivas.

Quando a situação econômica passa por algum entrave, ainda que de curto ou médio prazo, a resposta vem na forma de maiores taxas de desmatamento ilegal.

Qual a solução?

Em primeiro lugar acredito que as três esferas da Administração Governamental (União, Estados e Municípios) devem trabalhar em sintonia na busca dos seguintes objetivos:

  • Identificar potencialidades regionais que possam servir como alternativas socioeconômicas em momentos de crise, tais como:
    • O ecoturismo;
    • A extração madeireira amparada em planos de manejo;
    • A extração sustentável de produtos florestais como resinas, corantes, sementes, e outros;
    • A biotecnologia associada a investimentos maciços em pesquisa sobre a nossa biodiversidade; etc.
  • Fomentar as cadeias produtivas locais, promovendo sua integração, inclusive com as demais regiões do país;
  • Dinamizar as ações da Zona Franca de Manaus de modo a possibilitar a internalização de uma maior parcela dos ganhos obtidos na própria região;
  • Implantar um megaprojeto de pesquisa em biotecnologia, contando com a parceria de grandes fundos de investimento nacionais, universidades brasileiras e empresas internacionais especializadas, desde que sujeitas à rigorosa fiscalização.

Esse conjunto de sugestões não é totalmente inovador, mas poderia auxiliar a Região Amazônica no enfrentamento de crises econômicas, aliviando a pressão sobre os produtos e serviços ambientais.

marceloquintiere@gmail.com

MQuintiere@twitter.com

Economia Verde

            A sociedade costuma ser frequentemente bombardeada por novos dogmas econômicos e sociais que prometem alterar nosso cotidiano e transformar o planeta.

            Esse bombardeio vem ocorrendo de forma sistemática ao longo das últimas décadas:

  • Nos anos 60 e 70 vivíamos o terror da “Guerra Fria” e a realidade de um mundo dividido;
  • Nos anos 80 presenciamos o despertar da “Globalização”;
  • Nos anos 90 cresceu a preocupação com o “Meio Ambiente” e o “Desenvolvimento Sustentável”;
  • Já no século XXI verificamos o crescimento vertiginoso da “Era da Informação” com a Internet e as chamadas “Redes Sociais”.

            Evidentemente não podemos dividir a História e seus movimentos como se fosse um bolo de aniversário uma vez que as transformações e tendências socioeconômicas e culturais geralmente estão sujeitas à integração e interação, ou seja, há uma mistura no tempo que torna inviável estabelecer os seus exatos momentos de “início” e “fim”.

           Mas o fato concreto é que a sociedade está em contínuo estado de transformação e as novas tendências vão surgindo a cada instante.

           Atualmente muito se fala sobre  “Economia Verde”, em especial após a Conferência Rio + 20.

            O que significa “Economia Verde” e quais são seus objetivos?

           A economia verde tem como foco a criação de tecnologias e meios de produção que permitam o crescimento econômico e social intimamente associado à sustentabilidade do meio ambiente.

           A Economia Verde constitui um conceito amplo uma vez que contempla questões tais como o controle das mudanças climáticas, a redução do consumismo excessivo e a solução para a crescente desigualdade nas esferas social, econômica e ambiental.

          Em outras palavras a economia verde procura lançar os alicerces para consolidar o chamado “Desenvolvimento Sustentável”, permitindo um nível de crescimento que possa garantir a satisfação das necessidades das gerações presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias necessidades.

           Poderemos alcançar a Economia Verde? Quais os obstáculos mais visíveis?

          Os obstáculos mais evidentes são:

1.  Identificação e Valoração monetária das Externalidades socioambientais;

          Para analisar melhor essas questões podemos utilizar um exemplo mais corriqueiro: uma indústria de papel.

           Em que pese a necessidade de mantermos a produção de papel, atendendo as múltiplas necessidades sociais, esse tipo de indústria apresenta externalidades tais como o consumo de recursos naturais importantes (biodiversidade, água, solo, etc.), a geração de poluição (ar, água e solo) e a formação de passivos ambientais (lagoas de decantação contendo produtos tóxicos, etc.).

        As externalidades são visíveis, mas dificilmente são incorporadas nas análises econômicas sobre a viabilidade dos projetos.

          Por quê?

          A justificativa é que os impactos ou externalidades ambientais apresentam problemas associados a sua própria valoração em termos econômicos.

          Se nossa intenção é minimizar um determinado impacto (ex.: poluição) precisamos saber se o ganho socioambiental (redução de custos com despoluição e com tratamento de doentes) pode compensar os custos com alterações de processos, aquisição de equipamentos, treinamento e outros.

          Quanto vale um rio contaminado ou o comprometimento da biodiversidade um determinado ecossistema?

         São questões de difícil resposta, mas os custos ambientais (degradação, poluição, comprometimento da biodiversidade, etc) PRECISAM ser incorporados nas matrizes econômicas dos projetos, fábricas, polos industriais, portos, ferrovias, etc.

         Se as externalidades ambientais são excluídas do processo de análise não teremos condições de comparar os ganhos que a Economia Verde pode eventualmente propiciar.

2.  A Necessária Inclusão Social

           Outro obstáculo que se coloca para o êxito da Economia Verde é o seu foco predominante no aspecto econômico.

           As empresas e respectivos governos estão preocupados com os impactos negativos que podem ser gerados na economia tradicional se decidirmos pela transição para a denominada Economia Verde.

          Os argumentos destacam os custos financeiros atrelados à transição da economia tradicional para a Economia Verde, em especial aqueles associados à alteração de processos produtivos, à aquisição de novos equipamentos, ao uso de tecnologias ainda não testadas suficientemente ou à necessidade de treinamento dos empregados.

           Será que esses custos serão realmente compensados em uma economia mais equilibrada?

           A Economia Verde trará mais desemprego?

          Essas preocupações são potencializadas pela atual crise econômica mundial.

         Entendo que qualquer tentativa de transição para uma economia mais equilibrada passa, necessariamente, pelo fator social.

         É importante compreendermos que a Economia Verde e, consequentemente, o Desenvolvimento Sustentável só poderão ser alcançados com a solução da miséria e das desigualdades sociais existentes.

          A miséria é o motor da degradação ambiental em muitos países, induzindo a comportamentos irracionais.

       Como é possível acreditar que um homem priorizará a proteção do ecossistema no qual está inserido, adotando práticas sustentáveis, se sua família está faminta?

        Não podemos esquecer que as camadas mais humildes são exatamente aquelas mais susceptíveis aos impactos ambientais.

         É muito fácil escrever e lançar teorias ambientais quando estamos respaldados pela segurança de um bom salário e cercados de amigos e admiradores que nunca vivenciaram a fome de perto.

        Qualquer tentativa de mudança nos paradigmas de produção e desenvolvimento deve ser socialmente INCLUSIVA ou estará condenada ao fracasso.

        De acordo com o PNUMA (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), intitulado “Rumo a uma Economia Verde: Caminhos para o Desenvolvimento Sustentável e a Erradicação da Pobreza” a transição para a Economia Verde redundará em taxas superiores de crescimento global do Produto Interno Bruto (PIB) e do nível de emprego a médio e longo prazo, em comparação ao cenário atual associado à economia tradicional.

3.  A Relação entre Países Ricos e Pobres

           Os países em desenvolvimento apresentam certo ceticismo quanto à implantação da Economia Verde, e destacam temas que devem ser contemplados futuramente:

a)      A necessidade de inserção da temática social com a erradicação da miséria e promoção da igualdade social;

b)      Evitar que a Economia Verde seja imposta aos países mais pobres como uma “moeda de troca” para a redução, cancelamento ou o reescalonamento da dívida externa;

c)      A justa repartição de responsabilidades no tocante aos níveis de consumo e riqueza, evitando a manutenção dos padrões atuais nos quais os países pobres permaneceriam como fornecedores de “serviços ambientais”, enquanto os países ricos permaneceriam com os mesmos níveis de consumo excessivo e insustentável.

            Os caminhos que conduzem à Economia Verde são íngremes e pedregosos, passando por áreas sensíveis tais como a miséria, a relação ricos e pobres e a internalização de externalidades negativas.

              A Economia Verde representa, portanto, um enorme desafio do qual não se pode desviar ou perder o foco.

marceloquintiere@gmail.com

MQuintiere@twitter.com