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Oceanos Ameaçados

           A maioria das pessoas associa os oceanos às praias, lazer, sol e diversão.

            Embora seja compreensível esse tipo de associação é incompleto na medida em que não contempla outras facetas importantes vinculadas aos oceanos e aos serviços por eles prestados.

            Os oceanos são imprescindíveis à proteção dos ecossistemas, além de possibilitar a manutenção de nosso planeta em condições adequadas de equilíbrio, estando associados a diversos serviços e benefícios ambientais:

  • Reprodução e desenvolvimento da biodiversidade estratégica com importância para as indústrias de alimentos, cosméticos, corantes, papel, etc.;
  • Produção de oxigênio;
  • Vias de comunicação e transporte;
  • Depuração e reciclagem de contaminantes e produtos químicos derivados das atividades humanas (ex.: vazamento de petróleo, esgotos industriais e resíduos de saneamento básico, dentre outros);
  • Produção de alimentos (15% da proteína animal consumida no mundo);
  • Regulação climática; e
  • Lazer, turismo e outros.

            Em que pese a significativa importância dos oceanos é possível observar um contínuo processo de degradação ambiental que ameaça o equilíbrio dos ecossistemas e a manutenção dos serviços e benefícios ambientais supracitados.

            O processo de degradação ambiental dos oceanos pode ser visualizado a partir de situações que, atuando concomitantemente, podem conduzir os ecossistemas marinhos e costeiros ao colapso:

  • Despejo de resíduos sólidos, tais como contaminantes produzidos em polos industriais e atividades econômicas tais como curtumes, indústrias de papel e celulose, siderúrgicas, etc.;
  • Destruição de áreas de mangue em razão de processos de especulação imobiliária;
  • Acidentes ambientais relacionados com a indústria petrolífera (ex.: acidente com a plataforma da BP no Golfo do México);
  • Pesca excessiva e predatória;
  • Destruição de áreas de recife de corais; etc.

           A polução gerada pelo despejo de produtos químicos ameaça a reprodução das espécies, em especial nas áreas de mangues, um problema que pode ser potencializado se considerarmos a persistência apresentada por diversos tipos de contaminantes (ex.: mercúrio).

           Os corais ocupam apenas um centésimo da área dos oceanos, mas possuem uma enorme importância para a manutenção dos ecossistemas, uma vez que pelo menos a metade das espécies de peixes marinhos dependem deles, em algum momento de sua vida, seja para abrigo, reprodução ou alimento.

             Estima-se que 10% dos corais já estejam degradados de modo irreversível e outros 60% correm risco de seguir o mesmo caminho.

             A pesca excessiva e predatória constitui outra grave ameaça à estabilidade dos ecossistemas e suas respectivas cadeias alimentares.

           Conforme um estudo coordenado por Ransom Myers, biólogo e especialista em pesca, a indústria pesqueira já teria acabado com 90% dos estoques dos grandes peixes comerciais e pelo menos 70% das espécies pescadas são consideradas exauridas ou já entraram em colapso.

            A atividade pesqueira é um negócio bilionário que envolve a atuação de grandes frotas pesqueiras internacionais e considerável subsídio financeiro concedido pelos respectivos governos, sendo responsável pela retirada de volumes crescentes de pescado muito acima da capacidade de suporte dos oceanos[1].

           O emprego de tecnologias de ponta, tais como o uso de sonares sofisticados que permitem identificar a distância e a profundidade exatas dos cardumes, redes com até 1500 metros de profundidade cujo formato é controlado pelos computadores, sensores que indicam o momento de recolher a rede, provoca um desequilíbrio entre a extração do pescado e o ritmo de sua reprodução.

           Os navios pesqueiros evoluíram em tamanho e tecnologia, sendo comum a presença de embarcações que atuam como verdadeiras fábricas de processamento de pescado, verticalizando toda uma atividade econômica, desde a procura e captura até o beneficiamento da produção.

           Em resumo, os oceanos correm riscos significativos em função das atividades humanas que precisam ser disciplinadas a partir de novos dispositivos legais e monitoradas continuamente.

            Se mantivermos a postura leniente das últimas décadas contribuiremos para um gigantesco desastre ambiental que atingirá a todos indistintamente, aprofundando o flagelo da fome para milhões de pessoas, além de intensificarmos o processo de aquecimento global.

marceloquintiere@gmail.com

MQuintiere@twitter.com


[1]  Em 1992, a área de pesca de bacalhau em Terra Nova, Canadá, teve sua produtividade reduzida drasticamente, desempregando 40.000 canadenses e, apesar de uma proibição à pesca, a área ainda não se recuperou. Na Baía de Chesapeake, Estados Unidos, a produção de ostras declinou de 45.000 toneladas para apenas 1.400 no último século (World Watch Institute, 2003).

 No caso brasileiro temos uma superexploração que coloca 75% das espécies mais comuns em nosso litoral como o badejo, a garoupa e o cação no limite da sustentabilidade.

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