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A PNRS – Qual o papel das FAMÌLIAS?

A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), instituída pela Lei n.º 12.305/2010, trouxe profundas alterações no gerenciamento dos resíduos sólidos no Brasil, dentre as quais se destacam:

  • A  obrigatoriedade de desativação dos “lixões” até 2014;
  • A implantação da logística reversa;
  • O estímulo à coleta seletiva;
  • O  desenvolvimento dos Planos de Gestão de Resíduos Sólidos até agosto de      2012;
  • A  responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos;
  • Apoio  à pesquisa tecnológica voltada à redução dos volumes de resíduos sólidos e  economia de insumos (água, energia e matéria prima);
  • O  estímulo à formalização e capacitação das cooperativas de catadores de  resíduos;
  • Desenvolvimento  de instrumentos econômicos, tais como incentivos creditícios, fiscais e  financeiros para apoio às operações de gestão de resíduos sólidos;
  • O  estímulo à reciclagem e aos processos de reutilização, dentre outros.

Trata-se de uma lei bastante complexa cuja abrangência alcança todo o Poder Público nas três esferas administrativas, as empresas privadas, as indústrias e as cooperativas de catadores, consolidando a ideia da “Responsabilidade Compartilhada”.

Assim, de acordo com os objetivos da PNRS, todos os segmentos da sociedade teriam algum nível de responsabilidade pela gestão dos resíduos sólidos, uma vez que todos fazem parte da “ponta geradora dos resíduos”.

Vejamos alguns exemplos práticos! Imagine uma indústria especializada em fabricar móveis de madeira.

Como se comportam os vários atores da cadeia produtiva quanto à gestão dos resíduos sólidos?

a)     O Setor Agrícola

 As fazendas especializadas em silvicultura devem adotar medidas para controlar as embalagens de agrotóxicos utilizadas, providenciando a sua devolução para descarte adequado pós-consumo.

 Da mesma forma o empresário deve adotar procedimentos para garantir a qualidade ambiental, inclusive de seus produtos, atestando o tipo de madeira que está sendo comercializado e as devidas autorizações dos órgãos ambientais.

 b)    O Setor Industrial

 O empresário terá de adotar medidas para garantir a procedência da madeira, evitando a compra de espécies protegidas ou lotes retirados de locais proibidos.

 Da mesma forma será necessário adequar as máquinas e processos produtivos da indústria para que a sua produção seja mais eficiente com maior economia de água, energia e matéria prima, além de reduzir o volume de resíduos.

 c)     O Setor de Distribuição (Rede Atacadista)

 A rede de distribuição de produtos também é alcançada pela PNRS.

 Sua responsabilidade estaria associada à definição de um processo de logística mais racional, com menor consumo de combustíveis, menor desgaste de peças dos caminhões (pneus, por exemplo), menores níveis de poluição atmosférica, etc.

 d)    O Setor de Distribuição (Rede Varejista)

 O varejo tem, igualmente, sua cota de responsabilidade na gestão dos resíduos sólidos.

 Sob sua responsabilidade poderíamos pensar nos seguintes pontos:

 1) Desenvolver os pontos de coleta para aqueles produtos alcançados pela Logística Reversa, tais como celulares, eletroeletrônicos, lâmpadas de mercúrio, pilhas, pneus, etc.

 Os produtos listados acima oferecem riscos significativos ao meio ambiente e à saúde humana, em especial pela ação dos metais pesados existentes em sua composição, sendo obrigatório o tratamento diferenciado na gestão dos seus resíduos.

 2) Estabelecer pequenos projetos de educação ambiental para informar os consumidores sobre a destinação das embalagens, coleta seletiva, logística reversa, reciclagem de produtos, etc.

 3) Estabelecer acordos de cooperação com cooperativas de catadores de resíduos, destinando-lhes os resíduos gerados nas lojas, etc.

 e)     As Universidades e Centros de Pesquisa

 Este segmento é fundamental no que tange ao desenvolvimento de novas tecnologias que permitam:

  •  Produzir com menor consumo de matéria prima;
  • Processos industriais mais racionais e com menor geração de resíduos;
  • Processos para tratamento mais eficaz de resíduos gerados, reduzindo o seu impacto sobre o meio ambiente e a saúde humana;
  • O aproveitamento de novas fontes de energia alternativa com redução na emissão dos Gases do efeito Estufa e menor impacto sobre o aquecimento global;
  • A produção de embalagens mais econômicas quanto ao uso de matéria prima (ex.: caixas de cereais) e que permitam uma reciclagem mais rápida e eficiente.

Esses são apenas alguns exemplos que permitem observar a participação e integração de segmentos econômicos vinculados a uma atividade industrial específica (fabricação de móveis de madeira).

Mas o que podemos esperar quanto à participação das famílias?

Qual o papel que deve ser observado pelo conjunto das famílias no atendimento às normas impostas pela PNRS?

Ao analisarmos a produção de resíduos de uma família individualmente podemos observar dois aspectos relevantes: o volume reduzido e a ausência de produtos tóxicos ou extremamente nocivos ao meio ambiente e à saúde humana.

Não há como comparar volumes e riscos ambientais derivados de resíduos gerados por uma siderúrgica com aqueles produzidos por uma família.

O problema surge quando multiplicamos o pequeno volume individual de resíduos pelo enorme número de famílias em nosso país.

Aqueles poucos quilos produzidos diariamente são transformados em milhares de toneladas dispersas em todos os municípios, ocasionando um significativo problema de logística a ser enfrentado todos os dias.

Como as famílias podem participar da gestão dos resíduos?

A análise da PNRS permite destacar dois pontos importantes:

1)     Coleta Seletiva[1]

A coleta seletiva consiste em separar o denominado “lixo seco”, com elementos recicláveis tais como vidros, metais e plásticos, do “lixo úmido”, composto basicamente por matéria orgânica, etc.

A coleta seletiva pode e, de acordo com a lei, DEVE ser feita no âmbito das residências em termos individuais.

Assim, cada família tem o seu papel importantíssimo no sentido de promover a separação prévia dos resíduos e rejeitos, facilitando sua correta destinação aos processos de reciclagem ou, alternativamente, aos aterros sanitários e usinas de recuperação energética.[2]

Além disso, a coleta seletiva possibilita um processo de reciclagem mais rápido, racional e barato, uma vez que os resíduos previamente separados não estão contaminados por matéria orgânica e outros rejeitos.

2)     Logística Reversa[3]

A logística reversa é um instrumento de desenvolvimento econômico e social caracterizado por um conjunto de ações, procedimentos e meios destinados a viabilizar a coleta e a restituição dos resíduos sólidos ao setor empresarial, para reaproveitamento, em seu ciclo ou em outros ciclos produtivos, ou outra destinação final ambientalmente adequada.

 Desta forma o produto nocivo retorna dos consumidores aos fabricantes utilizando-se de uma cadeia de logística própria que deverá ser desenvolvida caso a caso, minimizando riscos e possibilitando que grandes volumes de resíduos sejam reciclados ou  novamente reutilizados nos processos produtivos.

Como funciona a logística reversa?

 A logística reversa implica no retorno dos produtos e embalagens, após o seu uso pelo consumidor, aos comerciantes e distribuidores e desses para os fabricantes e importadores para que seja dada a destinação ambientalmente adequada (reciclagem, encaminhamento aos aterros industriais adequados ou queima controlada para geração de energia).

Conclusão

 A PNRS constitui um avanço considerável na gestão dos resíduos sólidos no Brasil e todos, inclusive a sociedade, são obrigados a participar de processos voltados à sua otimização.

As famílias são parte importante do processo em pelo menos dois processo fundamentais, verdadeiros alicerces da PNRS: a coleta seletiva e a logística reversa.

Os condomínios residenciais devem avaliar essa questão e procurar implantar processos que favoreçam e ampliem a coleta seletiva e a logística reversa.

Um excelente começo poderia ser a celebração de acordos com cooperativas de catadores de resíduos para retirada do material já selecionado.

Complementarmente o condomínio poderia desenvolver um esforço voltado à orientação dos condôminos destacando o conceito e importância da logística reversa, garantindo a retirada de componentes  residuais que representam maior risco à saúde humana.

marceloquintiere@gmail.com


[1] A esse respeito sugiro a leitura do artigo intitulado  “A PNRS – Coleta Seletiva”, publicado no Blogdoquintiere em 4/2/2013

[2]  A esse respeito sugiro a leitura do artigo intitulado “A PNRS –  Usinas de Recuperação Energética”  publicado no Blogdoquintiere em 6/9/2013.

[3]A esse respeito sugiro a leitura do artigo intitulado “A PNRS – Logística Reversa”  publicado no Blogdoquintiere em 10/1/2013

Metais Pesados – O Caso do Chumbo

Li esta importante matéria, de autoria de Eleutério Guevane – Rádio ONU, parceira da EcoAgência de Notícias, e considero necessária a sua divulgação neste blog, uma vez que se trata de uma grave ameaça de intoxicação por metal pesado (chumbo) que pode ocasionar danos severos à saúde da população, em especial às nossas crianças.

“A presença de chumbo em tintas causa sérios danos à saúde das crianças, com 600 mil casos por ano de menores que sofrem deficiência intelectual após exposição ao tóxico.

Por ano, mais de 143 mil pessoas morrem pela contaminação com o chumbo.

O metal é um dos 10 químicos de grande preocupação para a saúde pública, segundo a OMS.

Além das mortes, o contato com o chumbo pode causar convulsões, coma, nanismo e abortos.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, 99% das crianças afetadas vivem em países de rendas baixa e média.

De Genebra, a diretora de Saúde Pública da OMS, Maria Neira, destacou à Rádio ONU as ações que precisam ser tomadas em nível global:

“É um grave problema para muitos sistemas do corpo. A parte positiva é que a gente pode tomar medidas para redução a exposição ao chumbo e acabar com esse problema da saúde pública. Em muitos países do mundo, ainda se fabrica pintura para as paredes que contém chumbo. A iniciativa é para eliminar o conteúdo do chumbo nessa pintura.”

O alerta da agência da ONU está sendo feito para marcar a Semana Internacional da Prevenção de Envenenamento por Chumbo.

O elemento pode ser encontrado em casas, brinquedos e móveis. Quando a pintura de uma parede descasca, por exemplo, o pó causado pela tinta com chumbo pode ser facilmente absorvido por crianças pequenas.

Até o momento, 30 países já eliminaram o metal, mas a meta é que o número suba para 70 nações até 2015.

A OMS destaca que muitos pequenos também colocam na boca brinquedos pintados com tinta com chumbo ou engolem pequenas lascas de tinta, já que o metal tem um gosto adocicado.”

A questão dos metais pesados já foi tratada neste blog no artigo “Metais Pesados e os Riscos Associados”, publicado em 9/01/2013.

O lixo nosso de cada dia passou a receber grandes volumes de materiais tóxicos que representam maior periculosidade aos ecossistemas e cuja decomposição necessita de dezenas ou mesmo centenas de anos.

A tecnologia evoluiu com os processos de produção e novos materiais foram sendo desenvolvidos sem que fosse observado o correspondente surgimento de soluções tecnológicas para tratamento dos resíduos gerados.

Como exemplo podemos destacar o surgimento das baterias de celulares, lâmpadas de mercúrio, solventes, produtos químicos diversos, remédios, agrotóxicos, plásticos, etc.

É necessário destacar, também, a presença crescente de metais pesados nesses novos produtos de alta tecnologia, aumentando o risco de contaminação dos ecossistemas e favorecendo o surgimento de doenças graves tais como o saturnismo (contaminação por chumbo) e o Mal de Minamata (contaminação por mercúrio).

O risco em questão está vinculado aos processos produtivos, uma vez que a fabricação daqueles produtos contem metais pesados que podem penetrar a cadeia alimentar e causar, inclusive, a morte de seres humanos.

A presença de alguns tipos de resíduos pode provocar severas contaminações e o comprometimento da qualidade da água subterrânea, do solo agricultável e da biodiversidade por longos períodos de tempo.

 Além disso, a contaminação por metais pesados e demais produtos tóxicos tende a comprometer a capacidade dos ecossistemas de recuperar a sua condição de equilíbrio anterior, denominada de resiliência. Devemos considerar que os metais pesados possuem maior persistência no meio ambiente, sendo mais lenta a neutralização de seu potencial de risco.

Assim, uma vez ocorrida a contaminação do meio ambiente nem sempre será possível a aplicação de alguma tecnologia capaz de recompor as condições naturais vigentes anteriormente.

 O resultado é que teremos de arcar com custos muito elevados associados à limpeza das áreas contaminadas e retirada da população local, ocasionando sobrecarga dos serviços públicos de saúde, saneamento, energia, etc.

 Muito se fala da contaminação dos ecossistemas por metais pesados, mas quais são os verdadeiros efeitos que esse tipo de resíduo produz?

Como os metais pesados afetam realmente a nossa saúde?

A tabela a seguir destaca alguns metais pesados e algumas de suas aplicações industriais, bem como os eventuais impactos sobre a saúde humana. 

Tabela n.º 1: Metais pesados, sua utilização comercial e efeitos observados sobre a saúde humana.

Metais

Utilizações   mais comuns

Efeitos   sobre a saúde humana

Alumínio

Produção de artefato de   alumínio, serralheria; medicamentos (antiácidos) e tratamento convencional de   água.

Anemia por deficiência de   ferro; intoxicação crônica.

 
 
 

Arsênio

Metalurgia; manufatura de   vidros e fundição, fabricação de munição, ligas e placas de chumbo nas   baterias elétricas.

Produção de herbicidas e   inseticidas

Efeitos nos sistemas   respiratório, cardiovascular, nervoso e hematopoiético.

Câncer de pele e nos   brônquios.

 

 

Cádmio

Soldas; tabaco; baterias e   pilhas; fertilizantes fosfatados; tubos de televisão; pigmentos, esmaltes e   tinturas têxteis; resíduos da fabricação de cimento, da queima de   combustíveis fósseis e lixo urbano e de sedimentos de esgotos

Distúrbios   gastrointestinais e edema pulmonar.

Cobalto

Preparo de ferramentas de   corte e furadoras.

Fibrose pulmonar, podendo   levar à morte.

 

Cromo

Indústria de corantes,   esmaltes, tintas; ligas de aço e níquel; cromagem de metais; galvanoplastia,   soldagens; curtume.

Em níveis bronco-pulmonares   e gastrointestinais produzem irritação bronquial, alteração da função   respiratória e úlceras gastroduodenais.

Fósforo amarelo

Veneno para baratas;   rodenticidas (tipos de inseticida usado na lavoura) e fogos de artifício.

Náuseas; gastrite; odor de   alho; fezes e vômitos fosforescentes; dor muscular; torpor; choque; coma e   até morte.

Níquel

Baterias; aramados;   fundição e niquelagem de matais; refinarias.

Câncer de pulmão e seios   paranasais

 

Fumos metálicos

Vapores de cobre, cádmio,   ferro, manganês, níquel e zinco oriundos de processos de soldagem industrial   ou da galvanização de metais.

Febre dos fumos metálicos   (febre, tosse, cansaço e dores musculares) – parecido com pneumonia.

 
 

Mercúrio

Aparelhos de precisão;   iluminação pública, amálgamas, produção de ligas.

Intoxicação do sistema   nervoso central;

Febre, calafrios, dispneia   e cefaleia, diarreia, cãibras abdominais e diminuição da visão. Casos severos   progridem para edema pulmonar e cianose. As complicações incluem enfisema,   pneumomediastino e morte.

 

Chumbo

Revestimentos, tintas,   ligas metálicas, etc.

Síndrome associada ao   sistema nervoso central (alterações sensoriais, perceptuais, e psicomotoras),   síndrome astênica (fadiga, dor de cabeça, insônia, distúrbios durante o sono   e dores musculares), síndrome hematológica (anemia moderada), síndrome renal   (nefropatia não específica, diminuição da depuração da ureia e do ácido   úrico), síndrome do trato gastrointestinal (cólicas, anorexia, desconforto   gástrico, constipação ou diarreia), síndrome cardiovascular (miocardite   crônica, arteriosclerose precoce com alterações cerebrovasculares e   hipertensão).

 

Zinco

Revestimentos anti   corrosão para aço (galvanização); componentes de precisão (fundição sob   pressão) produtos farmacêuticos e cosméticos; material de construção; latão.

Dermatites, úlceras   cutâneas, inflamação nasal, câncer de pulmão e perfuração do septo nasal.

 

Conclusão

O desenvolvimento socioeconômico representa um objetivo essencial para o fortalecimento de nossa sociedade.

Em que pese o retorno obtido em termos de novos empregos, aumento de renda, maior arrecadação de tributos e qualificação da mão de obra, não podemos desconsiderar os riscos ambientais inerentes.

O tratamento adequado dos resíduos sólidos, em especial aqueles que contêm metais pesados em sua composição (ex.: pilhas, baterias, eletroeletrônicos, e outros), é condição básica para evitar a ocorrência de contaminações graves dos ecossistemas.

Entendemos que o governo deveria aproveitar a existência da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS – Lei n.º 12.305/2010) e incentivar a instalação de indústrias especializadas no tratamento ambientalmente sustentável dos resíduos sólidos cuja composição apresente elevada concentração de metais pesados.

Assim, poderíamos contar com tecnologias de ponta mais sofisticadas de modo a evitar os enormes riscos associados às contaminações por metais pesados, gerando novos serviços, novos empregos, elevação da renda, etc.

Nunca é demais relembrar que o custo para remediar as graves contaminações associadas aos acidentes com metais pesados é muitas vezes superior ao custo de sua prevenção.

O Presidente da Nestlé e a Cobrança pela ÁGUA

O Presidente da Nestlé e a Cobrança pela ÁGUA

De tempos em tempos o mundo é invadido por teses e ideias estapafúrdias que procuram impor novos cenários socioeconômicos onde alguns poucos ganham (em geral multinacionais) em detrimento de bilhões de pessoas (em geral os mais pobres).

Como exemplos podemos citar o controle progressivo de empresas como a Monsanto sobre o segmento da produção de sementes selecionadas sob o pretexto de amparar e proteger a pesquisa em biotecnologia, ou mesmo a tentativa de calar a imprensa e o Ministério Público em alguns países sob a justificativa de que é necessário proteger o cidadão contra os excessos praticados.

Recentemente tivemos acesso à posição defendida pelo Presidente do Grupo Nestlé, o senhor Peter Brabeck-Letmathe, no sentido de que “A água não é um direito. Deveria ter um valor de mercado e ser privatizada”.

Para melhor defender o seu ponto de vista o Presidente da Nestlé esclarece que a água de consumo deveria ser privatizada objetivando que, enquanto sociedade, pudéssemos tomar consciência da sua importância, reduzindo o desperdício que se verifica atualmente.

Em sua opinião, a água deveria ser tratada como qualquer outro bem alimentício e ter um valor de mercado que viesse estabelecido pela lei da oferta e da procura.

Fiquei muito curioso com essa ideia e procurei saber mais.

O que representa a Nestlé? Que empresa é essa?

A Nestlé, fundada em 1866, é uma gigante multinacional suíça e algumas informações gerenciais chamam atenção:

  • Atua nos seguintes segmentos: alimentos infantis, água engarrafada, cereais, achocolatados, café, comida congelada, sorvetes, alimentos para animais, sucos, compostos nutricionais, nutrição para desportistas, produtos para controle de peso, e outros.
  • Opera nos cinco continentes em 120 países;
  • Possui 280.000 empregados (dados de 2010);
  • Valor de mercado de aproximadamente U$S 205 bilhões (2010);
  • Faturamento U$S 89 bilhões (2011);
  • Resultado em 2011: Prejuízo de U$S 89 bilhões;
  • Líder mundial na venda de água engarrafada, um segmento que representa considerável parcela da sua receita total.

Esse breve resumo permite verificar que a Nestlé constitui um grupo econômico muito grande e seus interesses são extremamente diversificados.

Podemos dizer também que a empresa trouxe benefícios inquestionáveis no que concerne à segurança e qualidade de seus produtos ao consumidor.

Entretanto, em que pese os benefícios associados à empresa, não posso concordar com a manifestação do seu presidente quando defende que a água não é um direito e que a sua privatização garantiria a redução de desperdícios.

Concordo que há considerável desperdício de água em muitos países (inclusive o Brasil) e que a qualidade deste recurso natural vem sendo reduzida a cada ano em razão de problemas tais como:

  • A poluição industrial;
  • A contaminação pelo lançamento de esgoto não tratado;
  • A extração excessiva das águas subterrâneas;
  • O uso irracional de agrotóxicos, e outros.

Entendo que os problemas citados podem ser combatidos com a aplicação de sanções aos infratores, muitos dos quais são empresas e indústrias de grande porte, e principalmente com o investimento em educação ambiental.

A conscientização do Homem é um processo árduo que exige tempo e dedicação, mas seus resultados são PERENES.

O Homem pode, a partir de sua conscientização, mudar seus hábitos de consumo em busca de maior sustentabilidade, atuando como verdadeiro agente indutor de novas mudanças a partir do seu exemplo.

Além disso, acredito que a posição do presidente da Nestlé tem foco prioritário na questão econômica (o que garantiria maiores lucros para sua empresa) e não garante mudanças de comportamento.

Ao contrário: a limitação de acesso à água já representa uma triste realidade em países pobres da África e do sudeste asiático e não se verifica nenhuma mudança concreta para evitar o desperdício…

No Brasil também enfrentamos problemas semelhantes em regiões tais como o Semiárido.

Estamos falando de bilhões de seres humanos que não terão nenhuma facilidade adicional quanto o acesso à água caso a ideia apresentada venha a ser adotada por parte de seus governos (a maioria dos quais exemplos de inépcia e corrupção).

Impor limitações econômicas ao acesso à água significa ampliar a miséria, a fome, o êxodo rural, a marginalização do Homem nos grandes centros urbanos, a sobrecarga dos serviços públicos, além de comprometer o processo de desenvolvimento dos países mais pobres.

Parece-me um preço muito elevado a ser socializado por toda uma sociedade (em particular nos países mais pobres) para garantir os lucros de multinacionais como a Nestlé.

A água não possui produtos substitutos e sua demanda é inelástica, ou seja, é um produto imprescindível na medida em que um ser humano não pode sobreviver mais do que alguns poucos dias sem acesso ao recurso.

Dominar um mercado desse tamanho, em escala global e atuando sobre um produto único e insubstituível, deve ser mesmo uma imensa tentação.

Uma tentação tão grande que leva o senhor presidente da Nestlé a qualificar como extremistas as ONGs que sustentam que a água deveria ser um direito fundamental.

Ora, todos sabemos que a água é sinônimo de VIDA em todos os países, povos e religiões, independentemente dos aspectos econômicos ou políticos.  Logo, não há extremismo na defesa de sua importância.

Diante daquela declaração tão insensível veiculada na mídia (WWW.ecoagencia.com.br na edição de 24/4/2013) procurei mais informações acerca do senhor Presidente da Nestlé e preferi as “informações oficiais” contidas no site da empresa na Internet.

Descobri algumas informações interessantes:

  • Nascido na Áustria em 1944;
  • Economista;
  • Fala alemão, inglês, francês e espanhol;
  • Foi vice-presidente do Credit Suisse e da L’Oréal; e
  • Membro da diretoria da Exxon.

Um currículo de peso certamente construído com muito esforço, dedicação e competência e que, até mesmo em função disso, deveria ser um passaporte para o bom senso…

As ideias equivocadas e estapafúrdias são, em geral, condenadas ao ostracismo, enquanto que outras, infelizmente, encontram terreno fértil junto a governos corruptos e legisladores ineptos.

O senhor Presidente da Nestlé deveria compreender bem essas questões, pois nasceu em pleno 1944 quando a humanidade presenciava um mundo arrasado pela guerra e miséria impostas por outro austríaco de ideias absurdas chamado Adolf…..Adolf Hitler.

A Nestlé poderia usar melhor sua reconhecida competência no sentido de apoiar projetos de educação ambiental destinados à proteção do meio ambiente e preservação dos recursos naturais.

Outra alternativa seria bancar projetos de engenharia destinados a aumentar a eficácia na gestão de recursos hídricos em países mais pobres, diminuindo o desperdício e os níveis de poluição.

Enfim…existem outras alternativas interessantes para tratamento dos recursos hídricos que podem gerar benefícios a curto prazo para todos os atores envolvidos, inclusive uma multinacional do porte da Nestlé.

Sou engenheiro, escritor e ambientalista, condições conquistadas também com muito esforço, mas não tenho a visibilidade garantida por uma empresa multinacional como a Nestlé.

Minhas palavras terão eco? Não sei…

Pretendo fazer a minha parte:

1) Discutir tecnicamente a questão da cobrança pelo consumo de água;

2) Defender aqueles que não têm voz nem conhecimento técnico; e

3) Fazer um boicote aos produtos da Nestlé, pois com esse tipo de gente o prejuízo ao bolso fala mais alto do que quaisquer argumentos.

marceloquintiere@gmail.com

Impactos Ambientais – Curtumes

Depois de muitos quilômetros de árdua caminhada pelas ruas de Brasília o meu sapato social não resistiu e me brindou com um pequeno furo.

Entre o reforma duvidosa na esquina e a felicidade do consumo imediato confesso que sucumbi à tentação e parti contente em busca de um novo par de sapatos de couro. Enquanto testava as opções de modelo passei a observar o movimento da sapataria e os demais consumidores.

A loja estava lotada e oferecia dezenas de produtos tais como carteiras, cintos, sapatos, maletas, sandálias e outros.  Imediatamente lembrei-me das dezenas de bois que contribuíram com aquela euforia de consumo.

Passei a questionar, então, os impactos ambientais da indústria do couro.

Sabemos que toda e qualquer atividade econômica possui estreita vinculação com o meio ambiente.

A associação entre a atividade econômica e o meio ambiente pode ser observada nas seguintes dimensões:

  • Aumento da demanda sobre bens e serviços ambientais (ex.: água, solo, oceanos, biodiversidade, etc.);
  • Geração de resíduos e/ou processos poluentes (ex.: indústria de produtos químicos, resíduos da construção civil, etc.);
  • Produção de Passivos Ambientais que podem vir a comprometer o meio ambiente (ex.: barragens de resíduos químicos, tanques em postos de combustíveis, etc.).

Este artigo analisará a indústria do couro, destacando o processo industrial sob o ponto de vista ambiental, os impactos sobre o meio ambiente e as medidas corretivas que podem ser adotadas para minimizar os problemas detectados.

A Importância do Setor

De acordo com dados da FAO relativos ao ano de 2010 a participação brasileira no mercado mundial de couros alcançou aproximadamente 14%, indicando a importância do setor sob o ponto de vista socioeconômico.

O Ministério do Trabalho apontava um total de 749 estabelecimentos voltados às atividades de curtimento e outras preparações de couro, concentrados nos estados do Rio Grande do Sul e de São Paulo com 30% e 21,2%, respectivamente.

Em termos da geração de empregos o setor de couros, aqui entendido como curtimento e outras operações, era responsável por 39.400 empregos em 2010, ainda de acordo com os dados oficiais do Ministério do Trabalho, sendo que mais da metade das vagas estão concentradas nos estados do Rio Grande do Sul (34,8%) e de São Paulo (17,5%).

O setor foi responsável pela geração de US$ 2 bilhões em exportações no exercício de 2010, o que significou aproximadamente 0,8% do total de exportações do país. De acordo com os dados oficiais da SECEX os maiores importadores do nosso produto são: Itália, China e EUA.

Se considerarmos a indústria de curtume dentro de uma perspectiva associada ao setor calçadista os números são inda mais representativos, com movimento de US$ 21 bilhões, mais de 10.000 indústrias e geração de mais de 500.000 empregos.

Impactos Ambientais Potenciais

A indústria do curtume tem como objetivo transformar a pele dos animais em couro, sendo considerada muito poluente, o que obriga à elaboração do Estudo de Impacto Ambiental (EIA), conforme estabelece a Resolução CONAMA n.º 237/97.

Para fins didáticos podemos dividir a produção do couro em três (3) etapas:

a)     Ribeira:

  •  Objetiva limpar as peles;
  • Elimina as partes que não serão utilizadas;
  • Prepara a pele para receber os produtos químicos nas fases de curtimento e acabamento;
  • Utiliza produtos tais como: cal, sulfeto de sódio, cloreto de sódio, aminoácidos;
  • Grande consumo de água gerando elevada produção de efluentes líquidos;

 b)    Curtimento:

  •  Transforma a pele em couro (mais estável e não putrescível);
  • Pode usar produtos minerais (sulfato de cromo), vegetais (taninos) ou sintéticos (formol);
  • As águas residuais são escuras e ácidas em razão da utilização de tanino e sais.

 c)     Acabamento:

  •  Complementa a etapa de curtimento;
  • Confere ao couro propriedades de cor, resistência, maciez, impermeabilidade, elasticidade, etc.
  • Dá o aspecto final ao produto.

Para cada 1.000kg de pele temos, em média, 250 kg de couros acabados e 600 kg de resíduos sólidos que representam um grande potencial poluidor, tais como:

  •  Gorduras,
  • Restos de pele
  • Tecido muscular
  • Sangue
  • Pelos
  • Produtos químicos (soda cáustica, ácidos, fungicidas, solventes, sais, corantes, óleos, resinas, tintas, etc.).

 A indústria do curtume apresenta um elevado consumo de água, em média 30 m³ para cada tonelada de pele processada, o que pode contribuir para o desequilíbrio hídrico em alguns casos.

 Além do consumo de água temos de considerar o seu descarte em condições insatisfatórias aumentando a poluição hídrica e os impactos sobre os ecossistemas.

 Os impactos mais comuns observados são:

  •  Odor desagradável;
  • Contaminação de águas superficiais e subterrâneas em razão da carga orgânica dos efluentes;
  • Contaminação do solo;
  • Aumento da DBO (Demanda Bioquímica de Oxigênio) e da DQO (Demanda Química de Oxigênio), comprometendo a biodiversidade local;
  • Envenenamento dos peixes pela elevada carga de matéria orgânica e produtos químicos;
  • Atração de vetores de doenças como ratos, insetos, etc.

 Conclusão

O potencial poluidor de um curtume com capacidade para processar 3000 peles/dia é equivalente àquele gerado por uma cidade com população de 85.000 habitantes.

Os efluentes líquidos devem ser tratados em diversas etapas para remoção do cromo e demais componentes orgânicos, de modo a promover o seu enquadramento nas normas ambientais.

Os curtumes devem, também, buscar alternativas voltadas à redução do volume de água a ser empregada, evitando, na medida do possível, o uso de temperaturas elevadas no processo de ribeira.

Os efluentes gasosos (amônia e gás sulfídrico) devem ser removidos com o emprego de soluções depuradoras.

O uso do cromo requer grande cuidado no manuseio e descarte, uma vez que possui propriedades cancerígenas, devendo ser recuperado para reutilização uma vez que esse procedimento não afeta a qualidade do couro.

 Bibliografia Consultada

Banco do Nordeste do Brasil Manual de Impactos Ambientais – Orientações Básicas sobre Aspectos ambientais de Atividades Produtivas. Fortaleza, 1999.

GANEM, Roseli S. Curtumes: aspectos Ambientais. Biblioteca Digital da Câmara dos Deputados. Brasília – 2007.

PACHECO, J.W.F. Curtumes. São Paulo: CETESB. 2005. Série P+L

A PNRS – O Destino Final de Resíduos e Rejeitos

A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), instituída pela Lei n.º 12.305/2010, trouxe profundas alterações na gestão de resíduos sólidos no Brasil, em especial quanto aos seguintes tópicos:

– Implantação da responsabilidade compartilhada;

– Incentivo à não geração, redução, reutilização e reciclagem de resíduos;

– Gestão integrada dos resíduos sólidos;

– Estímulo à implantação da coleta seletiva;

– Estímulo à logística reversa;

– Estímulo à formação de consórcios municipais;

– Elaboração dos planos de gestão de resíduos na esfera administrativa;

– Elaboração dos planos de gerenciamento de resíduos no âmbito da iniciativa privada;

– Incentivo à formação, aparelhamento e capacitação de cooperativas de catadores;

– Estabelecimento de prazo para desativação dos lixões.

A destinação final ambientalmente adequada dos resíduos, bem como a disposição final dos rejeitos constituem, também, uma preocupação do legislador em razão dos riscos potenciais socioeconômicos e ambientais que representam se adotamos soluções ineficientes e ineficazes.

Inicialmente devemos observar que o texto da PNRS não utiliza a terminologia popular “lixo”, mas adota uma terminologia técnica mais adequada de modo a separar os componentes em dois grandes grupos: os “resíduos” e os “rejeitos”.

Procuraremos destacar nesse primeiro momento a conceituação para “resíduos” e “rejeitos” para tratarmos posteriormente da questão vinculada à destinação dos resíduos e à disposição dos rejeitos:

De acordo com o inciso XVI, art. 3º da Lei n.º 12.305/2010 os resíduos sólidos são classificados da seguinte forma:

“material, substância, objeto ou bem descartado resultante de atividades humanas em sociedade, a cuja destinação final se procede, se propõe proceder ou se está obrigado a proceder, nos estados sólido ou semissólido, bem como gases contidos em recipientes e líquidos cujas particularidades tornem inviável o seu lançamento na rede pública de esgotos ou em corpos d’água, ou exijam para isso soluções técnica ou economicamente inviáveis em face da melhor tecnologia disponível.”

Já o inciso XV, art. 3º da PNRS define o termo “rejeitos” da seguinte forma:

resíduos sólidos que, depois de esgotadas todas as possibilidades de tratamento e recuperação por processos tecnológicos disponíveis e economicamente viáveis, não apresentem outra possibilidade que não a disposição final ambientalmente adequada”

Verifica-se, portanto, que os termos RESÍDUOS e REJEITOS são constituem sinônimos, embora o cidadão comum (leigo) os utilize de forma indistinta.

O rejeito é um tipo especial de resíduo sólido para o qual já não é possível apelar para a reciclagem ou a reutilização. São materiais que apresentam utilidade muito reduzida e limitada sendo, em geral, destinados aos lixões ou aterros sanitários onde são armazenados e passarão por processos biológicos de degradação ou, alternativamente à queima controlada para geração de energia.

Devemos considerar que mesmo aqueles componentes recicláveis com valor elevado chegam a um estágio onde já não será mais possível extrair algum valor econômico significativo, seja pela ausência de tecnologia adequada, seja pelos seus volumes insignificantes ou mesmo em razão das limitações de logística.

O resíduo sólido pode ser reinserido na cadeia produtiva via reciclagem ou reutilização, gerando novos produtos úteis à sociedade. Em outras palavras, os resíduos ainda possuem valor econômico considerável que pode ser apropriado pelas indústrias, por cooperativas de catadores e outros componentes da cadeia produtiva.

Um exemplo conhecido são as latinhas de alumínio, garrafas PET, restos da construção civil (RCC), etc.

O rejeito não apresenta condições para reinserção na cadeia produtiva, seja por excesso de contaminação ou pela perda de suas características físico químicas.

Um exemplo conhecido são os restos de tecidos, materiais derivados da poda de vegetação urbana, restos de alimentos, etc.

É necessário  efetuar a disposição final dos rejeitos ou uma distribuição ordenada de forma a minimizar seus impactos sobre a qualidade do meio ambiente e a saúde pública.

Como os “resíduos” e “rejeitos” são tratados?

O que a PNRS estabelece quanto ao destino de resíduos e rejeitos?

Evidentemente os resíduos e rejeitos serão tratados de forma distinta em função de suas características e do valor econômico que ainda possuem.

Os resíduos serão encaminhados à DESTINAÇÃO AMBIENTALMENTE ADEQUADA, conforme disposto no inciso VII, art. 3º da PNRS, destacado a seguir:

“A destinação ambientalmente adequada de resíduos inclui a reutilização, a reciclagem, a compostagem, a recuperação e o aproveitamento energético ou outras destinações admitidas pelos órgãos competentes do Sisnama, do SNVS e do Suasa, entre elas a disposição final, observando normas operacionais específicas de modo a evitar danos ou riscos à saúde pública e à segurança e a minimizar os impactos ambientais adversos.”

E quanto aos “rejeitos”?  Qual o destino mais adequado para esse grupo de acordo com a PNRS?

Os rejeitos serão encaminhados à DISPOSIÇÃO AMBIENTALMENTE ADEQUADA, conforme disposto no inciso VIII, art. 3º da PNRS, destacado a seguir:

“A disposição final ambientalmente adequada consiste na distribuição ordenada de rejeitos em aterros, observando normas operacionais específicas de modo a evitar danos ou riscos à saúde pública e à segurança e a minimizar os impactos ambientais adversos

Assim, temos um destino diferente para cada grupo em razão de seu potencial ou valor econômico:

  • Para os resíduos haverá a DESTINAÇÃO aos processos de reciclagem, reutilização ou aproveitamento econômico, por meio dos quais permanecerão por mais tempo inseridos na cadeia produtiva.
  • Para os rejeitos ocorrerá a DISPOSIÇÃO final em aterros sanitários nos quais serão gradualmente degradados mediante processos biológicos ou, alternativamente, poderão gerar energia elétrica a partir dos processos de queima controlada.

Conclusão

A correta segregação dos componentes do “lixo” e o seu posterior encaminhamento conforme o potencial econômico ainda existente garantem a proteção ambiental e representam dois componentes essenciais e complementares da PNRS:

  • A coleta seletiva; e
  • O encaminhamento ambientalmente adequado (destinação ou disposição).

Em que pese a importância da coleta seletiva para que possamos obter maiores ganhos socioeconômicos e ambientais devemos considerar a necessidade de investirmos em ações de Educação Ambiental, em especial as amplas campanhas de conscientização da população.

A partir da educação ambiental teremos maior participação da sociedade e, consequentemente melhor seleção dos componentes do “lixo”, possibilitando a obtenção de maiores volumes de materiais recicláveis.

A obtenção de volumes mais significativos de materiais recicláveis (vidros, papel, metais, etc.) em nível de residências e empresas permitirá a articulação com as cooperativas de catadores e a ampliação das atividades nas indústrias de reciclagem.

Assim, ao longo do tempo, teremos novas indústrias de reciclagem com a obtenção das seguintes vantagens estratégicas:

  • Maior geração de empregos;
  • Maior geração de renda;
  • Elevação da arrecadação de tributos junto ao município;
  • Qualificação da mão de obra;
  • Diversificação da estrutura econômica no município;
  • Menores impactos ao meio ambiente e à saúde humana.

Como se vê a lista de benefícios é ampla.

Assim, da próxima vez que você tiver que colocar algum material no lixo verifique suas características e faça a sua separação em “resíduo reciclável” ou em “rejeito”.

marceloquintiere@gmail.com

Os Impactos Ambientais: Indústria da Informática

Toda e qualquer atividade econômica está vinculada ao meio ambiente.

A associação entre a atividade econômica e o meio ambiente pode ser observada nas seguintes dimensões:

  • Aumento da demanda sobre bens e serviços ambientais (ex.: água, solo, oceanos, biodiversidade, etc.);
  • Geração de resíduos e/ou processos poluentes (ex.: indústria de produtos químicos, resíduos da construção civil, etc.);
  • Produção de Passivos Ambientais que podem vir a comprometer o meio ambiente (ex.: barragens de resíduos químicos, tanques em postos de combustíveis, etc.).

A minha intenção, a partir deste artigo, é elaborar uma análise acerca de alguns segmentos econômicos relevantes, destacando o processo econômico sob o ponto de vista ambiental, os impactos sobre o meio ambiente e as medidas corretivas que devemos adotar para minimizar os problemas detectados.

Hoje abordaremos a indústria da informática.

Durante os primeiros anos da indústria da informática era bastante comum associarmos esse segmento econômico à redução de impactos ambientais

Os defensores da nova tecnologia apontavam como grandes vantagens a redução no uso de papel e demais produtos químicos, além da racionalização dos deslocamentos uma vez que o uso dos computadores facilitaria a comunicação entre as pessoas, evitando viagens e gastos de combustível (e a poluição resultante).

Uma vez que a informática conquistou corações e mentes em todo o mundo moderno, com novos equipamentos e oportunidades a cada semana, todos passaram a associar aquela revolução tecnológica com sendo um bem em si mesma.

Em outras palavras: a indústria da informática poderia ser considerada como uma indústria “limpa” sob o ponto de vista ambiental.

A realidade, porém, nos obriga a analisar outros aspectos e ponderações.

A indústria da informática produz impactos ambientais que estão associados não à etapa de utilização de seus equipamentos, mas às etapas de PRODUÇÃO e DESCARTE.

Ou seja: quando falamos dos impactos da indústria da informática devemos considerar todo o ciclo de vida de seus inúmeros produtos (computadores, laptops, impressoras, scanners, câmeras, etc.) e não apenas a fase de operação.

A interface negativa da indústria da informática com o meio ambiente pode ser melhor observada a partir da decomposição do ciclo de vida de seus produtos:

a)     Etapa da Produção Industrial

Na etapa de produção industrial temos a intensa utilização de matéria prima, tais como água, energia elétrica, gases tóxicos, plásticos e diversos metais pesados tais como bário, bromo, chumbo, cádmio, lítio, mercúrio e níquel, etc.

A tabela n.º 1 a seguir destaca alguns metais pesados comumente usados na indústria da informática e sua aplicação industrial, bem como os eventuais impactos sobre a saúde humana.  Devemos considerar os metais pesados possuem maior persistência no meio ambiente, sendo mais lenta a neutralização de seu potencial de risco.

Tabela n.º 1: Metais pesados usados na indústria da informática, sua utilização comercial e efeitos observados sobre a saúde humana.

Metais Utilizações mais comuns Efeitos sobre a saúde   humana
Cádmio Soldas; tabaco; baterias e   pilhas; fertilizantes fosfatados; tubos de televisão; pigmentos, esmaltes e   tinturas têxteis; resíduos da fabricação de cimento, da queima de   combustíveis fósseis e lixo urbano e de sedimentos de esgotos. Distúrbios   gastrointestinais e edema pulmonar.
Mercúrio Instrumentos de precisão,   amálgamas, ligas metálicas, lâmpadas fluorescentes, catalisador de reações   químicas, indústria de explosivos Intoxicação do sistema   nervoso central;Febre, calafrios, dispneia   e cefaleia, diarreia, cãibras abdominais e diminuição da visão. Casos severos   progridem para edema pulmonar e cianose. As complicações incluem enfisema,   pneumomediastino e morte.
Chumbo Revestimentos, ligas metálicas,   soldas, baterias, munições, pigmentos, material de tipografia, tubos dos monitores, circuitos integrados, etc. Síndrome associada ao   sistema nervoso central (alterações sensoriais, perceptuais, e psicomotoras),   síndrome astênica (fadiga, dor de cabeça, insônia, distúrbios durante o sono   e dores musculares), síndrome hematológica (anemia moderada), síndrome renal   (nefropatia não específica, diminuição da depuração da ureia e do ácido   úrico), síndrome do trato gastrointestinal (cólicas, anorexia, desconforto   gástrico, constipação ou diarreia), síndrome cardiovascular (miocardite   crônica, arteriosclerose precoce com alterações cerebrovasculares e   hipertensão).
Bário Lâmpadas fluorescentes,   tubos de vácuo, velas de ignição, tubos dos   monitores, veneno para ratos, fabricação de vidros, produção de   borracha, etc. Prolongada inalação   de partículas suspensas no ar pode levar a depósitos nos pulmões e em   quantidades suficientes podem produzir baritoses.Este quadro pode   não ser reversível.

Além da toxidade dos metais pesados devemos considerar, também, o seu nível de utilização ou a quantidade demandada para fabricação dos produtos.

De acordo com o Instituto Word Watch em seu relatório “Sinais Vitais” referente ao ano de 2003, produzir um chip de memória para computadores de apenas duas gramas requer mais de um quilo de químicos e combustíveis fósseis. Ou seja, 630 vezes o peso final do chip.

A significativa quantidade e diversidade de matéria prima utilizada induzem o surgimento de doenças graves já na fase de fabricação dos produtos, bem como no âmbito das indústrias de reciclagem.

Já há diversos relatos de aumento de casos de câncer e abortos em trabalhadores das indústrias de informática e entre os recicladores destes materiais começam a ser detectados altos índices de poluentes presentes no sangue.

b)    A Etapa de Operação

A etapa de operação dos equipamentos de informática talvez seja aquela com os menores impactos sobre os ecossistemas e saúde humana, o que explica a ideia inicial de que o setor seria “limpo”.

Em geral podemos associar os impactos nessa etapa de operação com a demanda por energia elétrica que, sendo obtida a partir de combustíveis fósseis, contribuiria para o agravamento do efeito estufa e o consequente aquecimento global.

c)     A Etapa do Descarte

Nessa fase temos os impactos mais intensos da indústria da informática, uma vez que os produtos obsoletos são descartados sem maiores cuidados nos ecossistemas.

Considerando o intenso desenvolvimento tecnológico do setor da informática é possível observar a grande rotatividade dos produtos que, mesmo tendo sido fabricados há apenas 1 ou 2 anos, já são considerados obsoletos pelos usuários.

Para testar essa questão basta verificar quantos aparelhos de telefone celular existem em sua casa sem uso.  Na minha casa eu contei 4 aparelhos semi novos ocupando as gavetas.

Como não dispomos de muitas empresas especializadas na reciclagem desses produtos e não há uma campanha maciça de educação ambiental objetivando a maior conscientização do cidadão, os produtos tidos como obsoletos são simplesmente descartados nas ruas e lixões.

O problema é que o descarte inadequado permite que os componentes tóxicos (tais como os metais pesados presentes nas pilhas e baterias) impactem o meio ambiente, causando os problemas de saúde contidos na tabela n.º 01.

A Reação das Indústrias

A partir da constatação de que a indústria da informática também era a responsável por diversos impactos ambientais houve maior pressão por parte da sociedade para redução dos impactos.

Assim, muitas indústrias de peso decidiram adotar medidas com o objetivo de reduzir os seus impactos. Como exemplo podemos destacar:

a)     A Acer, um dos líderes do mercado mundial de computadores portáteis, lançou dois modelos “verdes” livres dos tóxicos polímeros PVC e BVR. O projeto é feito em parceria com o Greenpeace em sua campanha pela diminuição do uso de substâncias tóxicas nos eletrônicos;

b)    O Reclaim é a aposta da Samsung no mercado de produtos menos poluentes. A principal melhora ambiental do aparelho é a substituição dos plásticos convencionais por bioplásticos produzidos a partir do milho (mais biodegradáveis). Mais de 70% do celular é feito de material reciclado;

c)     A Sony Ericsson divulgou o lançamento de seus novos celulares, ambientalmente mais responsáveis que utilizam uma porcentagem maior de material reciclado. Além disso, as embalagens serão menores e os novos modelos não terão manuais em papel: apenas eletrônicos;

d)    A Dell, segunda maior fabricante mundial de computadores pessoais, anunciou duas grandes mudanças em sua política ambiental:

  • A empresa irá banir a exportação dos resíduos eletrônicos que maneja;
  • Dessa forma a nova política ambiental da empresa não permitirá a exportação de equipamentos quebrados para reciclagem ou reparação, evitando o manuseio incorreto e os possíveis danos ao meio ambiente e à saúde humana.
  • A nova política acaba, também, com o envio de resíduos perigosos para reciclagem ou reutilização em outros países mais pobres, fenômeno comum e recorrente na China, Índia, Quênia e Paquistão.
  • A reciclagem de resíduos eletrônicos da empresa não será terceirizada para aquelas instituições que se utilizem de mão de obra infantil e presidiária.

Conclusão

O lixo eletrônico ou E-Lixo é um problema crescente em todo o mundo em razão da inserção da informática e dos demais aparelhos eletroeletrônicos.

A Política Nacional de resíduos Sólidos (PNRS – Lei n.º 12.305/2010) prevê o desenvolvimento da denominada Logística Reversa para os equipamentos eletroeletrônicos uma vez que sua composição contém metais pesados em volumes que podem gerar impactos aos ecossistemas.

Assim, seria importante que as indústrias desenvolvessem suas políticas quanto à redução dos volumes de componentes tóxicos e ao adequado tratamento dos resíduos de seus produtos pós-consumo.

Afinal, a PNRS inclui os fabricantes, importadores e comerciantes (bem como a sociedade em geral) entre os responsáveis pela gestão dos resíduos sólidos gerados no país, constituindo a responsabilidade compartilhada.

Dentro dessa perspectiva é importante que o país invista na educação ambiental de modo a ampliar a conscientização doa indivíduos e das indústrias para o correto descarte dos produtos.

Da mesma forma seria interessante estimular o chamado “up grade” de produtos ao invés de incentivar a simples troca dos equipamentos por outros mais modernos. Esse aspecto está associado à questão do consumo consciente, componente necessário ao desenvolvimento sustentável.

marceloquintiere@gmail.com

Mudanças Climáticas e Vulnerabilidade Agrícola no Brasil

OBSERVAÇÃO  IMPORTANTE:

Caso seja necessário maior detalhamento sugiro ao leitor que veja os vídeos postados neste blog sobre Aquecimento Global e Mudanças Climáticas, bem como os vídeos sobre As Mudanças Climáticas e IMpactos sobre a Matriz Energética.

O aquecimento global e suas consequências em termos de mudanças climáticas constituem um dos temas centrais no debate entre as nações, em especial no que tange aos aspectos político, econômico e ambiental.

O processo de aquecimento global é um fato incontestável e, de acordo com os cientistas de renomados centros internacionais, não será possível obtermos uma redução nos níveis de temperatura nas próximas décadas.

Esse cenário pessimista está amparado em dois argumentos:

a)     Os países ainda não encontraram um ponto de equilíbrio que contemple a ampla gama de interesses políticos e econômicos existentes, ou seja, ainda não podemos falar de um acordo real e eficaz em escala mundial para redução dos gases do efeito estufa.

As iniciativas anteriores tais como o Protocolo de Kioto ainda enfrentam resistência de países como os EUA, o que dificulta a sua efetiva implantação e a obtenção de resultados mais concretos.

b)    O processo de aquecimento global possui condições ou “gatilhos” que podem ser disparados a qualquer momento, aprofundando os impactos. Em outras palavras o processo pode ser auto alimentado independentemente de nossas futuras ações ou acordos em nível mundial.

O aquecimento global não vai simplesmente parar de imediato, mesmo que sejam eliminadas todas as fontes de emissão de gases do efeito estufa.

Ainda que pudéssemos deixar todos os carros nas garagens durante as próximas décadas ou fechar as indústrias mais poluentes o aquecimento global continuaria a avançar por um longo período, tal com um transatlântico que desliga seus motores mas continua a avançar até a parada total.

Assim, a conjunção dos fatores não é favorável para que encontremos a solução ideal ou mesmo o mix mais adequado de alternativas a curto prazo.

Ao que tudo indica seremos forçados, ao longo das próximas décadas, a desenvolver uma estratégia de adaptação às mudanças climáticas, em especial quanto à produção agrícola.

Entendemos que a produção agrícola é um elemento fundamental e estratégico para garantir a manutenção das relações harmônicas entre os países. Assim, devemos buscar alternativas que possam garantir a adaptação da atividade agrícola e evitar os futuros surtos de fome.

Ao falarmos em produção agrícola devemos ter em mente que a agricultura é a resultante de uma série de elementos que atuam em conjunto, tais como a temperatura, umidade, presença de pragas e doenças, fertilidade dos solos, etc.

Quando ocorrem alterações circunstanciais em alguns desses componentes temos maior risco de redução das safras agrícolas, gerando maior vulnerabilidade alimentar para a população.

Mas o processo de aquecimento global não pode ser comparado a alguma alteração climática eventual, uma vez que atua em uma escala gigantesca em termos de efeitos e riscos.

Todos serão afetados, em maior ou menor grau, mas os impactos mais severos estarão reservados aos países mais pobres que não dispõem de capital ou tecnologia para superar o quadro futuro de dificuldades.

O risco de quebras de safras agrícolas decorre da sinergia entre diversos elementos, tais como:

a)     Redução da área disponível para plantio.

A disponibilidade física de terras aptas para o plantio deverá diminuir em função da ampliação dos processos de desertificação ou mesmo do alagamento de áreas litorâneas anteriormente usadas na agricultura.

b)    Redução da adaptabilidade das espécies em razão das mudanças de temperatura, precipitação, umidade, etc.

As mudanças climáticas podem ser traduzidas em alterações não apenas na temperatura local, mas também em termos da disponibilidade de água para os cultivos.

Muitas cultivares de valor econômico são sensíveis à pequenas alterações nos padrões de temperatura e/ou precipitação, reduzindo ou paralisando seus processos de reprodução, germinação e crescimento vegetativo.

c)     Surgimento de novas pragas e doenças.

As alterações climáticas podem propiciar o surgimento de novas pragas, insetos e doenças em áreas onde anteriormente não existiam[1]

Assim, uma pequena elevação na temperatura média ou uma mudança nos níveis de umidade local podem facilitar a introdução de insetos como vetores de doenças, reduzindo a produtividade.

Da mesma forma haveria maior probabilidade para o surgimento de doenças transmitidas por fungos, vírus, nematoides, bactérias e outros.

Tendo em vista essas considerações iniciais, como seria a resposta dos nossos principais cultivos frente às mudanças climáticas?

Em outras palavras o que podemos esperar quanto ao comportamento da agricultura brasileira em um cenário de mudanças climáticas?

O Painel Internacional de Mudanças Climáticas (IPCC em inglês) desenvolveu relatório em 2007 procurando definir quais as respostas que poderíamos obter nos cultivos agrícolas em decorrência da elevação da temperatura.

De acordo com Eduardo Delgado Assad[2] e Hilton Silveira Pinto[3], em seu trabalho Mudanças Climáticas e Agricultura, os resultados obtidos pelas simulações utilizando os cenários otimista e pessimista do IPCC, ambos indicando aumento de temperatura superior a 1,8 ºC, permitem as seguintes observações:

1)     Para as culturas de milho, arroz, feijão, algodão e girassol, haverá um forte impacto na Região Nordeste, com redução significativa das áreas atualmente com baixo risco de produção.

Duas regiões poderão ser mais atingidas: toda a área correspondente ao agreste nordestino, hoje responsável pela maior parte da produção regional de milho e a região do cerrado nordestino, como sul de Maranhão, sul do Piauí e oeste da Bahia.

2)     Na cultura da mandioca haverá um acréscimo geral da área de plantio com baixo risco.

Esse ganho de produção ocorrerá principalmente na Região Sul devido à diminuição de área sujeita a geadas.

3)     A Amazônia também poderá ser beneficiada pelo crescimento da área de plantio, mas em decorrência da diminuição dos excedentes hídricos (áreas menos sujeitas à inundações e alagamentos).

4)     Para a cultura da soja as simulações mostram que a Região Sul e os cerrados nordestinos – sul do Maranhão, sul do Piauí e oeste da Bahia – serão fortemente atingidas.

O impacto poderá ser de até 40% no pior cenário, sendo a causa principal o aumento da deficiência hídrica e o possível impacto dos veranicos mais intensos.

5)     No caso do café a cultura poderá ser atingida por deficiência hídrica ou por excesso térmico nas regiões tradicionais.

Os dois maiores produtores de café no Brasil, São Paulo e Minas Gerais, deverão perder condições de plantio em boa parte de seus territórios mas os cenários mostram a possibilidade de incremento de produção nas regiões do Paraná, de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul.

6)     Os cenários são favoráveis à cultura da cana-de-açúcar.

As regiões do Sul do Brasil, que hoje possuem limitação por alto risco de geadas, perdem essa característica, principalmente no Rio Grande do Sul, transformando-se, em 10 a 20 anos, regiões de alto potencial produtivo.

As áreas de alto potencial produtivo atual, como o Centro-Oeste, continuam sendo de baixo risco, porém cada vez mais dependentes de irrigação complementar – cerca de 50 mm no período mais seco – para garantir a produtividade.

Em todos os casos analisados, a possibilidade de produção de cana-de-açúcar, em regiões de baixo risco climático, aumenta em mais de 100%, com relação à situação de hoje.

7)     Em termos econômicos, mantidas as características genéticas das plantas cultivadas hoje, e não se fazendo nenhum esforço de adaptação e mitigação, as perdas podem chegar a R$ 7,4 bilhões em 2020 e até R$14 bilhões em 2070.

Esse cálculo é feito em função das áreas que deixam de ser de baixo risco climático e, em razão do aumento de temperatura, deslocam-se para a classe de alto risco climático.

8)     A dinâmica climática deverá causar uma migração das culturas adaptadas ao clima tropical para as áreas mais ao sul do país ou mais para as zonas de altitudes maiores, para compensar a diferença climática.

Poderá haver uma diminuição nas áreas de cultivo de frutas de clima temperado e um possível deslocamento das culturas de café e cana para áreas de maiores latitudes.

CONCLUSÃO

O breve resumo acima destacado permite verificar que os impactos das mudanças climáticas em nossa agricultura serão acentuados e com grande repercussão econômica.

Áreas produtivas perderão sua capacidade ao longo dos anos e não há certeza quanto à possibilidade de que sejam substituídas por novas áreas alternativas que venham a ser eventualmente beneficiadas pelas mudanças climáticas.

Isso decorre da necessidade de dotarmos essas novas áreas (caso existam de fato) de uma complexa infraestrutura em termos de oferta de energia, estradas, silos, etc.

As mudanças climáticas são resposta ao aquecimento global, um processo tido como irreversível em curto prazo, o que implica na necessidade urgente de adotarmos políticas eficazes de proteção.

Uma excelente linha de atuação seria o investimento em biotecnologia com vistas a desenvolver novas cultivares com maior resistência à elevação de temperatura e alterações em termos de umidade, ação de insetos, etc.

Outra excelente alternativa é incentivar fortemente a atuação e capacitação da Embrapa, um dos orgulhos do nosso país,  uma instituição reconhecida internacionalmente e dedicada à pesquisa agropecuária.

marceloquintiere@gmail.com


[1] A esse respeito sugiro a leitura do meu artigo nesse blog intitulado  “Aquecimento global, mais insetos e doenças”, datado de 8/1/2013.

[2]  Pesquisador e chefe geral da Embrapa Informática Agropecuária

[3] Professor e Diretor do Cepagri da Unicamp