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NÃO EXISTE ALMOÇO GRÁTIS

            Venho trabalhando com a área ambiental ao longo dos últimos 27 anos , em especial no desenvolvimento de livros técnicos, palestras e projetos.

            Um aspecto positivo que pude verificar foi o aumento da participação popular nas questões associadas ao meio ambiente, um tema a cada dia mais importante e mais presente no cotidiano das populações, indústrias e governos.

            Os temas tais como a proteção da biodiversidade, a preservação da qualidade da água, o aquecimento global e mudanças climáticas saíram do contexto das grandes universidades e centros de pesquisa para ganhar o mundo.

            Entretanto, um aspecto me preocupa: a mídia sempre destaca as novas tecnologias e processos inovadores como sendo respostas adequadas e corretas para todos os males e, pior, não se dá nenhum destaque quanto aos aspectos negativos associados àquelas tecnologias.

            No mercado financeiro há uma máxima que diz o seguinte:

            “Não há almoço grátis!”

            Isso significa que sempre há um custo para tudo o que fazemos e que alguém, em algum tempo e lugar, pagará a conta.

            Podemos aplicar essa máxima financeira a um processo d efusão entre empresas, à compra de um ativo financeiro (ações, dólar ou ouro) ou a um novo processo tecnológico.

            Não importa….alguém sempre pagará a fatura.

            Vejamos alguns exemplos mais associados à temática ambiental:

a)     A Produção de Álcool.

       Quando o Proálcool foi criado em 1985 nosso objetivo era a redução da dependência do petróleo importado, cujo preço atingia patamares muito elevados em decorrência da regulação de cotas de extração elaborada e imposta pela OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo).

       O resultado foi, de fato, alcançado e nosso país reduziu a dependência do petróleo, mas (e aqui surge a conta do nosso almoço) os danos ambientais são consideráveis, em especial quando pensamos na abertura de imensas áreas para o plantio de cana-de-açúcar, na poluição atmosférica e doenças respiratórias geradas pela queima da palha da cana e, também, nos problemas causados pela ação do vinhoto despejados nos rios durante os primeiros anos do Proálcool.

b)    A Substituição do vidro pelo Plástico

        Após a segunda Grande guerra Mundial a tecnologia evoluiu significativamente, inclusive com a criação de novos medicamentos tais como a penicilina, etc.

        O plástico surgiu nesse período e foi amplamente anunciado pela mídia como um substituto ideal para o vidro nas embalagens. Dizia-se que a utilização do plástico era mais racional, pois seu custo era menor, possuía maior resistência ao impacto, poderia assumir formas desejadas mais facilmente e o seu peso seria menor do que o vidro, facilitando a logística de transporte.

         Em poucos anos o plástico assumiu uma posição de destaque no setor de embalagens.

         A “conta do almoço” foi apresentada após algumas décadas de uso e descarte irracional: atualmente nossos oceanos se encontram bastante comprometidos por imensas ilhas formadas pelas embalagens plásticas descartadas.

         Há um claro comprometimento da fauna e flora dos oceanos e, em alguns casos, já se pode dizer que os danos são irreversíveis[1].  A conta será salgada se considerarmos que muitos países dependem dos recursos pesqueiros para sua alimentação e fonte de renda.

c)     A Queima de Combustíveis Fósseis

         O avanço tecnológico associado à queima de combustíveis fósseis, tais como o carvão, o petróleo e o gás, possibilitou alavancar o desenvolvimento econômico e social, gerando riquezas inimagináveis.

          Após alguns séculos verifica-se a alteração da nossa atmosfera pelo acúmulo dos chamados Gases do Efeito Estufa (GEE), o que potencializa o processo de aquecimento global e as ameaças vinculadas às mudanças climáticas severas.

          Obviamente a “conta do almoço” nesse caso poderá fechar o nosso restaurante.

d)    Os Telefones Celulares

        Os celulares são aplaudidos em todo o mundo como um instrumento divino que aproxima as pessoas, além de potencializarem novos mercados de comunicação e de comércio virtual.

         O problema é que os celulares utilizam baterias que contém metais pesados tais como o cádmio, o lítio, etc.  Todos esses metais podem gerar danos irreversíveis à saúde humana e ao meio ambiente, em especial no que concerne à poluição do solo e das águas subterrâneas.

          É um custo que precisa ser considerado por todos nós, inclusive quando analisamos em êxtase os novos modelos oferecidos no mercado.

 e)     As Fontes Alternativas de Energia

         Em função do processo de aquecimento global e das mudanças climáticas associadas, muitos países passaram a desenvolver estudos voltados à produção de “energia limpa”.

           Assim, bilhões de dólares foram investidos para desenvolver tecnologias mais racionais e eficazes para o aproveitamento da energia solar, energia eólica, biocombustíveis, etc.

          A mídia internacional procura apresentar as novas tecnologias como sendo um processo mágico, quase divino, com impactos exclusivamente positivos.  Nesse contexto os governantes deveriam mudar toda a matriz energética de seus países para garantir a produção contínua e segura de energia a custo reduzido.

         Mas será que as fontes alternativas de energia são totalmente limpas?  Não há geração de resíduos ou de impactos ambientais?

           Para responder a essas questões basta verificar os impactos ambientais associados à produção das turbinas de energia eólica ou à produção de baterias para os novos carros elétricos.

           É evidente que os processos de mineração de metais para as baterias ou as instalações industriais necessárias para a produção de bens (turbinas, carros, etc) também podem gerar outros impactos nocivos ao meio ambiente.

f)  O Pesticida DDT

            O desenvolvimento agrícola observado ao longo do último século está fortemente associado ao surgimento de pesticidas que, de início, garantiram a redução de pragas e doenças nas mais diversas lavouras.

             O retorno negativo, ou seja, o “almoço a ser pago” surgiu após alguns anos.  Os pesquisadores descobriram que o DDT, um dos pesticidas mais aplicados à época, diminuía a espessura da casca dos ovos e influía na reprodução de muitas espécies de aves.

               Além disso, muitos produtos químicos afetam a vida de insetos polinizadores, reduzindo drasticamente a reprodução de espécies vegetais de grande importância econômica.

               A doutora Rachel Carson escreveu um best seller ambiental em 1962 denominado “Primavera Silenciosa”, no qual destaca os danos ambientais associados ao uso inadequado dos agrotóxicos.  É um livro que todos deveriam ler.

           Conclusão

            Esse artigo destaca apenas alguns exemplos mais conhecidos de impactos ambientais associados àquelas “soluções mágicas” do passado.

            Não devemos ser contrários à tecnologia ou ao desenvolvimento de novos produtos e processos industriais, mas precisamos alertar quanto à necessidade de avaliar as soluções de forma mais isenta e menos apaixonada.

            É necessário conhecer o processo de produção, desde a fase de planejamento e aquisição de matéria prima até o descarte dos produtos na fase pós-consumo, ou seja, precisamos nos acostumar a analisar nossas opções em termos mais amplos.

            Quando insistimos em exaltar apenas o “lado bom da maçã”, existente em cada projeto inovador, podemos incorrer em erros graves no futuro, pois SEMPRE haverá um lado podre a ser considerado.

            Os novos produtos e processos tecnológicos não devem ser considerados como uma solução milagrosa ou o Santo Graal da tecnologia.  Ao contrário: devem ser desenvolvidos, analisados e avaliados corretamente  em seus aspectos positivos e negativos.

            Em síntese: nem sempre o que reluz é ouro….pode ser cádmio, lítio ou mesmo as imensas ilhas de plástico que ameaçam as espécies marinhas.

             Este artigo é uma homenagem à minha mãe, Dona Marina de Miranda Ribeiro Quintiere, que completa 75 anos hoje e que foi a grande responsável pelo despertar do meu interesse pela área ambiental.

marceloquintiere@gmail.com


[1] A esse respeito sugiro verificar os meus artigos intitulados “Oceanos Ameaçados”  e “Oceanos e Riscos Ambientais” publicados no Blogdoquintiere em 29/10/2012 e 1/11/2012, respectivamente.

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HAIYAN

O nome é pequeno, mas seu significado permanecerá por muitas décadas marcado na memória de milhões de filipinos.

Na semana passada HAIYAN, um enorme e violentíssimo tufão com ventos de mais de 300 km/hora, devastou muitas cidades das Filipinas, causando a morte de mais de 12.000 pessoas e prejuízos de grande monta.

As cenas captadas pelos veículos de comunicação são conhecidas de todos:

  • Perda de vidas;
  • Destruição da infraestrutura local (prédios públicos, rede elétrica, abastecimento de água potável, rede de transporte, segurança, etc.);
  • Ondas de saques e violência nos centros urbanos atingidos;
  • Surgimento de focos de doenças;
  • Comprometimento da biodiversidade e da capacidade de resiliência de nossos ecossistemas[1];
  • Dificuldades de acesso às áreas mais remotas; e outras.

O que poucos destacam é que as terríveis cenas captadas tornam-se, infelizmente, mais comuns em nosso cotidiano.

Os furacões e tufões, perturbações na atmosfera terrestre, vêm ocorrendo com intensidade e frequência crescentes, ou seja, temos mais furacões de grande porte a cada ano.

Em que pese a característica de sazonalidade desses fenômenos e o fato de que sempre existiram, mesmo em épocas muito remotas, não podemos mais afastar a clara associação dessas perturbações atmosféricas da participação humana.

O último relatório do IPCC (Painel Internacional de Mudanças Climáticas, sigla em inglês) traz como conclusões (assustadoras) a certeza de que a ação humana é RESPONSÁVEL pela intensificação do efeito estufa causado pelo acúmulo de gases na atmosfera.

Os denominados gases do efeito estufa (GEE) geram um acúmulo de energia em forma de calor na nossa atmosfera que, em consequência, acabam por causar distúrbios no clima com diversas formas de manifestações:

  • Furacões e tufões de grande magnitude;
  • Intensificação de secas em algumas partes do planeta;
  • Aumento significativo da precipitação em outras áreas da Terra;
  • Elevação do nível dos oceanos;
  • Processo consistente de descongelamento na Antártida, Polo Norte, Groenlândia, Alpes, Andes, etc.

A elevação do percentual de gases do efeito estufa na atmosfera terrestre já supera os recordes conhecidos e seu controle nos parece a cada dia mais difícil e improvável.

O crescimento consistente e inexorável dos GEE agrega mais um complicador em nossa “equação climática”: Na medida em que a temperatura na Terra vai aumentando há a possibilidade do desencadeamento de novos fenômenos físicos que podem tornar a vida ainda mais incerta no futuro.

Falo, por exemplo, da acidificação dos oceanos com o aumento de CO² na atmosfera e os impactos que esse fenômenos pode causar sobre os corais e organismos marinhos em todo o mundo, em especial no que tange à redução no nível de reprodução de muitas espécies.

O bom senso nos induz a ter maiores cuidados com aquilo que não compreendemos integralmente.

Ninguém provoca um Pitt Bull, pois sabe dos riscos que podem ocorrer após um ataque. Mas, incrivelmente, olhamos para essas questões associadas às mudanças climáticas como se fossem meras especulações ou um roteiro para filmes de ficção.

A Organização das Nações Unidas vem alertando para o problema há décadas e promove atualmente a COP-19 (19ª conferência do clima da ONU), em Varsóvia, abrindo diálogos e dando os primeiros passos no debate de pontos polêmicos antes da decisão final sobre o acordo, que acontecerá em Paris daqui a dois anos.

O novo acordo deverá substituir o Protocolo de Kyoto e promover significativas alterações no controle das mudanças climáticas, impondo compromissos  que deverá ser implementados a partir de 2020.

Trata-se de um tempo demasiadamente longo para um desastre anunciado que já mostra seu potencial de destruição.

O aquecimento global não vai simplesmente parar de imediato, mesmo que sejam eliminadas todas as fontes de emissão de gases do efeito estufa.

Ainda que pudéssemos deixar todos os carros nas garagens durante as próximas décadas ou fechar as indústrias mais poluentes o aquecimento global continuaria a avançar por um longo período, tal com um transatlântico que desliga seus motores mas continua a avançar até a parada total.

Quando falamos de mudanças climáticas, falamos de impactos em escala global que não poupam ninguém em nenhum país: todos sofreremos algum tipo de limitação e não importa nosso nível de renda ou a nossa capacidade intelectual e tecnológica.

Para melhor ilustrar esse ponto destacamos alguns dos impactos que podem advir das mudanças climáticas:

  1. 1.     AGRICULTURA

Ao que tudo indica seremos forçados, ao longo das próximas décadas, a desenvolver uma estratégia de adaptação às mudanças climáticas, em especial quanto à produção agrícola.

Entendemos que a produção agrícola é um elemento fundamental e estratégico para garantir a manutenção das relações harmônicas entre os países. Assim, devemos buscar alternativas que possam garantir a adaptação da atividade agrícola e evitar os futuros surtos de fome.

Ao falarmos em produção agrícola devemos ter em mente que a agricultura é a resultante de uma série de elementos que atuam em conjunto, tais como a temperatura, umidade, presença de pragas e doenças, fertilidade dos solos, etc.

Quando ocorrem alterações circunstanciais em alguns desses componentes temos maior risco de redução das safras agrícolas, gerando maior vulnerabilidade alimentar para a população.

Mas o processo de aquecimento global não pode ser comparado a alguma alteração climática eventual, uma vez que atua em uma escala gigantesca em termos de efeitos e riscos.

Todos serão afetados, em maior ou menor grau, mas os impactos mais severos estarão reservados aos países mais pobres que não dispõem de capital ou tecnologia para superar o quadro futuro de dificuldades.

O risco de quebras de safras agrícolas decorre da sinergia entre diversos elementos, tais como:

a)     Redução da área disponível para plantio.

A disponibilidade física de terras aptas para o plantio deverá diminuir em função da ampliação dos processos de desertificação ou mesmo do alagamento de áreas litorâneas anteriormente usadas na agricultura.

b)    Redução da adaptabilidade das espécies em razão das mudanças de temperatura, precipitação, umidade, etc.

As mudanças climáticas podem ser traduzidas em alterações não apenas na temperatura local, mas também em termos da disponibilidade de água para os cultivos.

Muitas cultivares de valor econômico são sensíveis à pequenas alterações nos padrões de temperatura e/ou precipitação, reduzindo ou paralisando seus processos de reprodução, germinação e crescimento vegetativo.

c)     Surgimento de novas pragas e doenças.

As alterações climáticas podem propiciar o surgimento de novas pragas, insetos e doenças em áreas onde anteriormente não existiam[2]

Assim, uma pequena elevação na temperatura média ou uma mudança nos níveis de umidade local podem facilitar a introdução de insetos como vetores de doenças, reduzindo a produtividade.

Da mesma forma haveria maior probabilidade para o surgimento de doenças transmitidas por fungos, vírus, nematoides, bactérias e outros.

Há uma clara tendência a vivermos em um mundo não apenas mais quente, mas faminto

  1. IMPACTOS NO DESLOCAMENTO DE POPULAÇÕES

Obviamente o resultado desse quadro caótico é o acirramento dos conflitos humanos, uma vez que teremos um maior contingente populacional disputando recursos limitados (abrigo, alimentação, água, recursos naturais, etc.).

O processo de aquecimento global não atua em uma escala pontual ou limitada, mas, ao contrário, se traduz em intensas e amplas transformações que atingirão todos os países.

Aqueles países mais ricos e detentores de tecnologia de ponta, em especial no que concerne à geração de alimentos e energia, terão maiores possibilidades de se adaptar aos impactos.

Os países mais pobres, que já vivem um quadro de limitações angustiante, sofrerão ainda mais, sobrecarregando nosso sistema financeiro.  O resultado esperado é o conflito generalizado entre nações na busca de garantias de sobrevivência, com amplos deslocamentos de contingentes populacionais, em especial na África e na Ásia.

2. A DEGRADAÇÃO  DOS  OCEANOS

Os oceanos são imprescindíveis à proteção dos ecossistemas, além de possibilitar a manutenção de nosso planeta em condições adequadas de equilíbrio, estando associados a diversos serviços e benefícios ambientais:

  • Reprodução e desenvolvimento da biodiversidade estratégica com importância para as indústrias de alimentos, cosméticos, corantes, papel, etc.;
  • Produção de oxigênio;
  • Vias de comunicação e transporte;
  • Depuração e reciclagem de contaminantes e produtos químicos derivados das atividades humanas (ex.: vazamento de petróleo, esgotos industriais e resíduos de saneamento básico, dentre outros);
  • Produção de alimentos (15% da proteína animal consumida no mundo);
  • Regulação climática; e
  • Lazer, turismo e outros.

Em que pese a significativa importância dos oceanos é possível observar um contínuo processo de degradação ambiental que ameaça o equilíbrio dos ecossistemas e a manutenção dos serviços e benefícios ambientais supracitados.

Dentre os riscos mais sérios que ameaçam os nossos oceanos podemos destacar a acidificação pela concentração crescente de CO² que destrói os corais e demais áreas de reprodução e alimentação de muitas espécies marinhas.

Com a restrição ao seu processo reprodutivo e de desenvolvimento as espécies enfrentarão redução populacional, ocasionando insegurança alimentar a milhões de pessoas em todo o mundo, em especial naqueles países onde o pescado é, tradicionalmente, a base da alimentação.

Conclusão:

Os impactos do aquecimento global já são uma realidade incontestável e o tempo disponível para encontrarmos soluções negociadas já está bastante comprometido.


[1] A esse respeito sugiro verificar nosso artigo intitulado “Biodiversidade e Resiliência”, publicado em 9/2/2013 no Blogdoquintiere.

[2] A esse respeito sugiro a leitura do meu artigo nesse blog intitulado  “Aquecimento global, mais insetos e doenças”, datado de 8/1/2013.

A Sustentabilidade dos Oceanos

Sabemos que os oceanos executam gratuitamente uma série de serviços ambientais relevantes para a manutenção dos ecossistemas e promoção do desenvolvimento socioeconômico, dentre os quais se destacam:

  • Reprodução e desenvolvimento da biodiversidade estratégica com importância para as indústrias de alimentos, cosméticos, corantes, papel, etc.;
  • Produção de oxigênio;
  • Vias de comunicação e transporte;
  • Depuração e reciclagem de contaminantes e produtos químicos derivados das atividades humanas (ex.: vazamento de petróleo, esgotos industriais e resíduos de saneamento básico, dentre outros);
  • Produção de alimentos (15% da proteína animal consumida no mundo);
  • Regulação climática; e
  • Lazer, turismo e outros.

Os oceanos são alvo de inúmeros impactos ambientais tremendamente nocivos e que podem conduzir os ecossistemas marinhos e costeiros ao colapso, tais como:

  • Despejo de resíduos sólidos, tais como contaminantes produzidos em polos industriais e atividades econômicas tais como curtumes, indústrias de papel e celulose, siderúrgicas, etc.;
  • Destruição de áreas de mangue e dunas em razão de processos de especulação imobiliária;
  • Acidentes ambientais relacionados com a indústria petrolífera (ex.: acidente com a plataforma da BP no Golfo do México);
  • Pesca excessiva e predatória;
  • Destruição de áreas de recife de corais; etc.

Algumas perguntas interessantes merecem nossa atenção:

a)     Como está a saúde geral dos oceanos?

b)    Os impactos ambientais são os mesmos em todos os oceanos do planeta ou alguns locais estão em melhores (ou piores) condições?

c)     Existem diferenças quanto à saúde dos oceanos se observarmos países ricos e pobres?

d)    Os países conhecem a realidade de seu litoral de modo a adotar medidas corretivas / preventivas específicas?

Na realidade pouco conhecemos acerca da situação dos oceanos e do nível dos impactos a que estão submetidos.

Da mesma forma não podemos pensar em soluções ou políticas adequadas para proteção dos oceanos se não conhecemos as principais variáveis a serem avaliadas e o comportamento ou variabilidade apresentado por elas.

Se analisarmos a parcela do oceano vizinha ao Canadá e compararmos os resultados obtidos com os resultados verificados no litoral do Senegal teremos diferenças sensíveis?

Em outras palavras: o ritmo da degradação nos oceanos é o mesmo entre os países, independentemente de seu nível de tecnologia ou riqueza?

Essas questões são fundamentais para compreendermos a real situação dos oceanos como um conjunto global e, mais ainda, para sabermos quais as particularidades existentes entre os países.

Assim, será possível a elaboração de políticas públicas mais adequadas a cada situação encontrada, evitando a alocação de recursos em ações desnecessárias e equivocadas.

De acordo com a Revista Nature um grupo de cientistas desenvolveu o primeiro Índice Global de Saúde dos Oceanos, uma ferramenta para avaliação do estado dos mares da Terra, possibilitando o manejo sustentável da saúde dos oceanos, além de evitarmos uma situação de colapso que afetaria centenas de milhões de pessoas.

A seguir apresentamos uma tabela contendo os indicadores utilizados na elaboração do referido índice e o seu significado técnico, bem como os valores obtidos em termos globais e para o Brasil:

Tabela n.º 01: Indicadores do Índice de Saúde dos Oceanos

Indicador Significado Resultado Global Resultado Brasil

Biodiversidade

Avalia   o grau de proteção de espécies e habitats marinhos como um todo. 83 84
Águas   Limpas

Mede   o grau de poluição de todos os tipos no mar.

78 76
Provisão   de Alimentos

Mede   a quantidade de alimentos de origem marinha obtidos de forma sustentável.

24 36
Produtos   Naturais

Obtenção   sustentável de produtos marinhos não alimentícios (peixes ornamentais,   conchas, buchas, etc.)

40 29
Subsistência   e Economia

Mede   os empregos e renda trazidos pelas atividades costeiras.

75 51
Oportunidade   de Pesca Artesanal

Mede   a possibilidade de desenvolver esse tipo de pesca de maneira sustentável.

87 88
Turismo   e Recreação

Avalia   quanto do turismo internacional se dirige às áreas marítimas.

10 0
Proteção   Costeira

Mede   o quanto os habitats marinhos naturais protegem as áreas costeiras da erosão.

73 86
Armazenamento   de Carbono

Capacidade   dos ambientes marinhos de estocar gases do efeito estufa.

75 93
Medida   de Lugar

Mede   como um país valoriza culturalmente suas áreas costeiras e espécies marinhas   carismáticas.

55 81
MÉDIA   60

62

Comentários:

1)     A maioria das regiões marinhas estudadas fica a uma distância máxima de 350 km da costa de cada país, a denominada Zona Econômica Exclusiva;

 2)     Em geral os países pobres ou em desenvolvimento obtiveram médias inferiores àquelas dos países ricos, conforme a tabela a seguir:

 Tabela n.º 02: O Índice de Saúde dos Oceanos: Países Ricos e Pobres.

País Analisado Média Verificada
Alemanha 73
Canadá 70
Japão 69
Irã 45
Senegal 40
Libéria 37

  3)     EUA e China não obtiveram resultados satisfatórios (63 e 53, respectivamente) se considerarmos o seu potencial tecnológico e o tamanho de suas economias.

 4)     No que concerne ao indicador que mede a Proteção Costeira, ou seja, o quanto os habitats marinhos naturais protegem as áreas costeiras, entendemos que os valores merecem revisão.

 O valor alcançado pelo Brasil (86) me parece elevado e desconectado da realidade, em especial se observarmos o nível de degradação em áreas de mangue e dunas, além do significativo impacto causado pela especulação imobiliária em nosso litoral com a construção de imóveis de alto padrão “dentro do mar”;

 5)     O indicador Biodiversidade, que avalia o grau de proteção de espécies e habitats marinhos, também merece reparo se considerarmos a prática crescente da pesca predatória (redes de arrasto, etc.) e a destruição sistemática de recifes de corais em todo o mundo.

 Nesse sentido nunca é demais considerar a sobrepesca verificada em espécies de alto valor comercial, tais como o atum, tubarões (barbatanas), baleias, etc.

 6)     Os indicadores Provisão de Alimentos e Produtos Naturais, que medem, respectivamente, a quantidade de alimentos de origem marinha obtidos de forma sustentável e a obtenção sustentável de produtos marinhos não alimentícios devem ser avaliados com cuidado.

Em primeiro lugar esse tipo de serviço (alimentação) prestado pelos oceanos tende à redução em razão dos crescentes impactos sobre a biodiversidade, poluição das águas.

Ou seja: a maior degradação dos recifes de corais, ambientes de mangue e dunas, bem como a destruição da biodiversidade e o aumento dos níveis de poluição se traduzirão em quedas muito acentuadas na produção de alimentos.

7)     A nota obtida pelo Brasil no tocante ao indicador Turismo e Recreação é excessivamente baixa, o que não nos parece compatível com a realidade do país na atração de turistas para o seu litoral (RJ, Bahia, Nordeste, etc.).

 8)     Os valores obtidos pelo Brasil nos indicadores Provisão de Alimentos (36), Produtos Naturais (29)e Turismo e Recreação (0) indicam oportunidade para investimentos, o que torna imprescindível a elaboração de políticas públicas destinadas a esses segmentos.

 Conclusão:

O surgimento de estudos técnicos no sentido de produzir indicadores para a saúde dos oceanos é essencial para a proteção desses ecossistemas ainda desconhecidos e tão ameaçados.

Evidentemente o conjunto de indicadores elaborado não significa a impossibilidade de aprimoramento, inclusive com a introdução ou substituição de alguns parâmetros usados na avaliação.

Na medida em que os indicadores forem aperfeiçoados teremos melhores condições de verificar o real estado de nossos oceanos em todo o mundo e a tendência assumida pelos parâmetros.

O conhecimento dos valores atuais e de sua tendência a curto e médio prazo permitirá o desenvolvimento de políticas públicas mais eficazes e eficientes, permitindo a alocação dos escassos recursos públicos de forma mais racional.

Quanto aos reduzidos valores assumidos por alguns dos indicadores no Brasil temos de considerá-los como uma verdadeira oportunidade para novos investimentos, o que obrigará o governo federal ao desenvolvimento de políticas públicas concretas e adequadas.

A título de exemplo:

Os valores obtidos pelo Brasil quanto aos indicadores Produtos Naturais (29)e Turismo e Recreação (0) são bastante reduzidos para um país com uma linha costeira tão extensa (mais de 8.000 km) e estão em patamar inferior àquele observado como sendo a média dos demais países (40 e 10, respectivamente).

Essa disparidade indica oportunidade para novos investimentos, o que torna imprescindível a elaboração de políticas públicas destinadas a esses segmentos.

Os resultados obtidos com a aplicação dos indicadores permite verificar, também, o grau de sustentabilidade das ações antrópicas sobre aqueles ecossistemas e a necessidade de promovermos ajustes em nossas atividades econômicas.

marceloquintiere@gmail.com

MQuintiere@twitter.com

Oceanos e Riscos Ambientais

          Ao observarmos o oceano temos a sensação de que suas dimensões são infinitas e que não há risco ou ameaça que possa causar danos ambientais de maior impacto ou persistência ao longo do tempo.

            A sensação descrita está a cada dia mais distante da realidade: os oceanos correm riscos consideráveis e, SENDO FINITOS, são passíveis de entrar em uma situação de colapso.

            Assim, o primeiro aspecto que devemos destacar está associado às dimensões “infinitas” dos oceanos: na realidade temos dimensões finitas e, portanto, passíveis de alterações causadas pela ação humana.

            Se compararmos o planeta Terra com uma maçã veremos que o “oceano infinito” seria menos espesso do que a casca daquela maçã.

           Essa comparação pode parecer estranha diante da escala de tempo e espaço à qual estamos mais habituados, mas a questão é que os oceanos congregam ecossistemas distintos e frágeis, devendo ser objeto de contínua preocupação.

          Embora as dimensões dos oceanos sejam mais reduzidas do que pensamos, o mesmo não se pode afirmar com relação aos impactos ambientais crescentes que promovemos.

          Nesse artigo apresentaremos um breve resumo de alguns impactos severos que implicam em grandes riscos para os ecossistemas marinhos, bem como suas origens e  interfaces mais relevantes.

a)     A Introdução de Espécies Exóticas

          O comércio marítimo internacional é uma das atividades econômicas que atualmente apresenta crescimento mais significativo: são centenas de bilhões de dólares sendo transportados em milhares de embarcações de todos os modelos e dimensões.

          Além do risco vinculado aos eventuais acidentes (ex.: petroleiros) devemos considerar o comércio marítimo como sendo um forte mecanismo de propagação de espécies entre os diversos ecossistemas, o que se traduz em riscos de desequilíbrios ambientais.

         O exemplo mais comum está atrelado à contaminação pela chamada água de lastro, mecanismo de segurança presente nas embarcações de maior porte cuja função consiste em aumentar a estabilidade durante a navegação.

        O mecanismo é simples: os tanques internos do navio recebem água no porto de origem para aumentar o peso e garantir maior estabilidade.  Quando o navio chega ao seu destino a água de lastro é retirada.

        O problema é que a água transportada contém milhões de ovos, larvas, protozoários e pequenos animais que serão levados para outros ecossistemas. Se o novo habitat não apresentar limitações ao desenvolvimento, tais como a temperatura, acidez e inimigos naturais, os novos organismos crescerão até constituir um impacto ambiental relevante.

         No Brasil enfrentamos o problema da introdução do mexilhão dourado com considerável prejuízo econômico.

 b)    Contaminação por substâncias Tóxicas

        Ao longo do processo de desenvolvimento econômico o homem criou milhões de produtos e compostos químicos que, em muitos casos, acabam sendo descartados nos oceanos.

       Vejamos o caso dos agrotóxicos (fertilizantes químicos, fungicidas, inseticidas, bactericidas, herbicidas e outros) cujo emprego vem crescendo de forma vertiginosa[1].  O emprego excessivo desses produtos, aliado às práticas inadequadas de proteção do solo, ocasionam desperdícios, contaminação dos solos e recursos hídricos e a contaminação dos oceanos.

        A presença de contaminantes químicos pode reduzir a capacidade de dispersão de larvas de animais marinhos e influenciar o ritmo de crescimento de indivíduos em algumas espécies, limitando as suas possibilidades de reprodução e perpetuação em outros ecossistemas.

       As substâncias tóxicas possuem, além do seu impacto local, outros problemas que devem ser destacados:

 1)     A possibilidade de que sejam transportadas pela ação das correntes oceânicas, contaminando outras áreas mais distantes. Assim, um produto químico tóxico pode afetar uma grande área dos oceanos.

            Como exemplo podemos destacar a contaminação decorrente de acidentes com a indústria petrolífera (BP no Golfo do México, Araucária no Paraná, Afundamento da Plataforma P-36 da Petrobrás, etc.) nos quais ocorre a rápida ampliação da área afetada pela ação das correntes e do vento, disseminando a poluição.

 2)     A capacidade de alguns contaminantes em penetrar na cadeia alimentar, afetando todos os organismos em diferentes níveis tróficos.

           O exemplo mais destacado é o denominado Mal de Minamata, associado à contaminação por mercúrio.  O metal sofre transformações bioquímicas e passa à forma de metil-mercúrio, comprometendo a cadeia alimentar e contaminando crustáceos, peixes e o próprio homem.

           A esse respeito devemos recordar que o mercúrio é bioacumulativo, ou seja, o ser humano não tem capacidade de excretá-lo para reduzir o nível de sua presença no organismo.

 3)     A persistência nos ecossistemas, ou seja, a capacidade de permanecer ativo como um contaminante ao longo de amplo período de tempo (as Bifenilas Policloradas – PCB podem permanecer ativas por períodos de 70 a 110 anos).

          Assim, um acidente com substâncias químicas tóxicas de caráter mais persistente pode se traduzir em um impacto que será sentido ao longo de décadas, prejudicando atividades econômicas e o próprio desenvolvimento dos ecossistemas afetados.

 c)     Plásticos

            O uso de plásticos em suas diversas composições teve início no século XIX e atualmente alcança a cifra de aproximadamente 300 milhões de toneladas anuais.

            Esse crescimento vertiginoso é fruto das vantagens que os consumidores e o ciclo econômico associam ao produto, em especial o seu baixo custo, durabilidade,  peso específico reduzido, durabilidade e versatilidade.

           Em que pese o conjunto de vantagens os plásticos são elementos perigosos quando presentes nos oceanos, quando podem ser ingeridos pelos animais e causar intoxicações, doenças e limitações à locomoção, alimentação, respiração e reprodução.

            Além desses aspectos o plástico pode ser decomposto pela ação da água do mar, liberando, ao longo de muitos anos, seus componentes tóxicos.

          Atualmente é possível observar grandes “ilhas” com dezenas de quilômetros quadrados composta por plásticos, dificultando a navegação e, pior, comprometendo o equilíbrio ecológico dos ecossistemas.

 d)    Processo de Acidificação

         Um dos principais serviços ambientais prestados gratuitamente pelos oceanos é a absorção de gases atmosféricos, o que contribui para a ciclagem de elementos e a manutenção do equilíbrio ambiental.

          O dióxido de carbono (CO²) é um gás estufa presente em volumes crescentes na atmosfera e reconhecido como um dos principais geradores do denominado aquecimento global.

           Os oceanos absorvem o CO², limitando sua participação no aquecimento global, mas há um custo ambiental significativo associado ao processo de acidificação.

           O CO² combinado com a água produz ácido carbônico e contribuirá com o aumento do pH dos oceanos comprometendo formações tais como os corais e as demais espécies com exoesqueletos de carbonatos que serão gradualmente corroídos.

           Os corais ocupam apenas um centésimo da área dos oceanos, mas possuem uma enorme importância para a manutenção dos ecossistemas, uma vez que pelo menos a metade das espécies de peixes marinhos dependem deles, em algum momento de sua vida, seja para abrigo, reprodução ou alimento.

            Estima-se que 10% dos corais já estejam degradados de modo irreversível e outros 60% correm risco de seguir o mesmo caminho.

           Assim, um ambiente mais ácido poderá afetar a cadeia alimentar e os processos reprodutivos de muitas espécies, gerando desequilíbrios ambientais como a redução de algumas espécies e a proliferação de outras.

 e)     Aquecimento dos Oceanos

          O aquecimento global é um fato incontestável, ocasionando diversos impactos socioeconômicos e ambientais. Desde a década de 50 a temperatura média da superfície dos oceanos aumentou em 0,4º C.

           No caso específico dos oceanos o aquecimento se traduz em alterações importantes, tais como:

  •  A diminuição da circulação de nutrientes entre as diferentes camadas de profundidade;
  • Redução na concentração de oxigênio nas camadas superiores, comprometendo a sobrevivência de espécies que se concentram naqueles nichos;
  • Redução das populações de fitoplâncton, responsáveis pela metade da produção de oxigênio;
  • Comprometimento dos corais, etc.

            O conjunto dessas agressões aos oceanos pode provocar alterações em cadeia a ponto de, em um nível mais extremo, promoverem uma sinergia negativa com o surgimento de novos impactos ainda mais danosos.

            Assim, é necessário adotar medidas concretas para proteger os oceanos, dentre as quais podemos destacar:

  •  A criação de novas unidades de conservação destinadas à proteção dos ecossistemas marinhos e costeiros;
  • A ampliação de pesquisas relativas  aos ecossistemas marinhos;
  • Identificar e limitar os diversos impactos/ameaças aos ecossistemas como, por exemplo:
    • Coibir a pesca predatória;
    • Reduzir a sobrecarga de poluentes e substâncias tóxicas lançadas nos oceanos;
    • Promover o tratamento do esgoto doméstico e industrial, impedindo o seu lançamento in natura nos oceanos;
    • Reduzir a introdução de organismos exóticos a partir da água de lastro;
    • Incentivar a racionalização e aumento de eficiência da indústria  pesqueira;
    • Desenvolver processos destinados ao aproveitamento integral e racional dos produtos da pesca;
    • Implantar e fiscalizar períodos de defeso para proteção das espécies durante o período de reprodução; etc.

marceloquintiere@gmail.com

MQuintiere@twitter.com

 


[1] A esse respeito o leitor pode obter informações adicionais em nosso blogdoquintiere “Produção Agrícola, Fertilizantes e Solos”.

Oceanos Ameaçados

           A maioria das pessoas associa os oceanos às praias, lazer, sol e diversão.

            Embora seja compreensível esse tipo de associação é incompleto na medida em que não contempla outras facetas importantes vinculadas aos oceanos e aos serviços por eles prestados.

            Os oceanos são imprescindíveis à proteção dos ecossistemas, além de possibilitar a manutenção de nosso planeta em condições adequadas de equilíbrio, estando associados a diversos serviços e benefícios ambientais:

  • Reprodução e desenvolvimento da biodiversidade estratégica com importância para as indústrias de alimentos, cosméticos, corantes, papel, etc.;
  • Produção de oxigênio;
  • Vias de comunicação e transporte;
  • Depuração e reciclagem de contaminantes e produtos químicos derivados das atividades humanas (ex.: vazamento de petróleo, esgotos industriais e resíduos de saneamento básico, dentre outros);
  • Produção de alimentos (15% da proteína animal consumida no mundo);
  • Regulação climática; e
  • Lazer, turismo e outros.

            Em que pese a significativa importância dos oceanos é possível observar um contínuo processo de degradação ambiental que ameaça o equilíbrio dos ecossistemas e a manutenção dos serviços e benefícios ambientais supracitados.

            O processo de degradação ambiental dos oceanos pode ser visualizado a partir de situações que, atuando concomitantemente, podem conduzir os ecossistemas marinhos e costeiros ao colapso:

  • Despejo de resíduos sólidos, tais como contaminantes produzidos em polos industriais e atividades econômicas tais como curtumes, indústrias de papel e celulose, siderúrgicas, etc.;
  • Destruição de áreas de mangue em razão de processos de especulação imobiliária;
  • Acidentes ambientais relacionados com a indústria petrolífera (ex.: acidente com a plataforma da BP no Golfo do México);
  • Pesca excessiva e predatória;
  • Destruição de áreas de recife de corais; etc.

           A polução gerada pelo despejo de produtos químicos ameaça a reprodução das espécies, em especial nas áreas de mangues, um problema que pode ser potencializado se considerarmos a persistência apresentada por diversos tipos de contaminantes (ex.: mercúrio).

           Os corais ocupam apenas um centésimo da área dos oceanos, mas possuem uma enorme importância para a manutenção dos ecossistemas, uma vez que pelo menos a metade das espécies de peixes marinhos dependem deles, em algum momento de sua vida, seja para abrigo, reprodução ou alimento.

             Estima-se que 10% dos corais já estejam degradados de modo irreversível e outros 60% correm risco de seguir o mesmo caminho.

             A pesca excessiva e predatória constitui outra grave ameaça à estabilidade dos ecossistemas e suas respectivas cadeias alimentares.

           Conforme um estudo coordenado por Ransom Myers, biólogo e especialista em pesca, a indústria pesqueira já teria acabado com 90% dos estoques dos grandes peixes comerciais e pelo menos 70% das espécies pescadas são consideradas exauridas ou já entraram em colapso.

            A atividade pesqueira é um negócio bilionário que envolve a atuação de grandes frotas pesqueiras internacionais e considerável subsídio financeiro concedido pelos respectivos governos, sendo responsável pela retirada de volumes crescentes de pescado muito acima da capacidade de suporte dos oceanos[1].

           O emprego de tecnologias de ponta, tais como o uso de sonares sofisticados que permitem identificar a distância e a profundidade exatas dos cardumes, redes com até 1500 metros de profundidade cujo formato é controlado pelos computadores, sensores que indicam o momento de recolher a rede, provoca um desequilíbrio entre a extração do pescado e o ritmo de sua reprodução.

           Os navios pesqueiros evoluíram em tamanho e tecnologia, sendo comum a presença de embarcações que atuam como verdadeiras fábricas de processamento de pescado, verticalizando toda uma atividade econômica, desde a procura e captura até o beneficiamento da produção.

           Em resumo, os oceanos correm riscos significativos em função das atividades humanas que precisam ser disciplinadas a partir de novos dispositivos legais e monitoradas continuamente.

            Se mantivermos a postura leniente das últimas décadas contribuiremos para um gigantesco desastre ambiental que atingirá a todos indistintamente, aprofundando o flagelo da fome para milhões de pessoas, além de intensificarmos o processo de aquecimento global.

marceloquintiere@gmail.com

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[1]  Em 1992, a área de pesca de bacalhau em Terra Nova, Canadá, teve sua produtividade reduzida drasticamente, desempregando 40.000 canadenses e, apesar de uma proibição à pesca, a área ainda não se recuperou. Na Baía de Chesapeake, Estados Unidos, a produção de ostras declinou de 45.000 toneladas para apenas 1.400 no último século (World Watch Institute, 2003).

 No caso brasileiro temos uma superexploração que coloca 75% das espécies mais comuns em nosso litoral como o badejo, a garoupa e o cação no limite da sustentabilidade.